Carmen Damous*

Frida KahloTrata-se de uma digressão, certa incursão na dicotomia entre “análise pura ou clínica” e “análise aplicada”, pois entendemos que não há psicanálise aplicada às obras de arte segundo Lacan ao dizer: “A psicanálise só se aplica em sentido próprio, como tratamento e, portanto, a um sujeito que fala e ouve”. Isto então é indicativo de que a análise aplicada seria de forma figurada, e estaria na ordem do campo do imaginário.

Freud, mesmo sustentando que a psicanálise não atingiria as profundezas do mistério das obras de arte, mencionava: “Estando o dom artístico e a capacidade de trabalho intimamente ligados à sublimação, devemos confessar que a essência da função artística permanece, também para nós, psicanaliticamente inacessível” (Freud, 1920).

Mesmo assim, o discurso analítico pode servir para desenvolver algumas explicações sobre o processo de criação e psiquê do artista como Freud fez com Leonardo da Vinci. Se Lacan, no entanto não aplica a psicanálise à arte, nem ao artista, aplicará a arte à psicanálise, enquanto conceba o artista precedendo ao psicanalista e, por conseguinte a arte fazendo avançar a teoria psicanalítica.

Nesse sentido fazemos esta digressão para tecermos considerações acerca da obra da consagrada artista plástica mexicana Frida Kato, articulando questões da feminilidade, enigma para além do ponto onde Freud suscitou e o ensino de Lacan pode aprofundar.

Como todos sabem, Frida ficou famosa pelo dom de se retratar, expressando sua “realidade artística” pintada sempre em cores fortes e vibrantes como sua dor. A arte de Frida era resultado de 32 cirurgia e 28 corpetes ortopédicos de couro, gesso e ferro.

Aos seis anos teve poliomielite e dentre seqüelas, pernas afinadas, conseqüente apelido de “Frida perna de pau”, fazendo-a optar por esportes mais usuais para meninos como futebol, Box, natação para esconder suas deficiências. Sonhava em fazer medicina, mas aos 18 anos, um acidente de enormes proporções a retira de seu percurso e a impõe um longo e sofrido período de recuperação, totalmente engessada.

É diante desse marco fundador “um acidente de automóvel que a mantém na cama por quase um ano”, cita Kahlo em seu diário, e nas suas próprias palavras “quase assassinada pela vida”, presa à cama, que ela acorda para a arte! Produz então, seu primeiro quadro/desenho – Acidente (auto-retrato em 1926), com a utilização de espelhos para obter sua imagem refletida. A artista esclarece em seu diário o porquê de tantos auto-retratos: “Pinto-me porque estou muitas vezes sozinha e por que sou o assunto que conheço melhor”. Suas pinturas não eram surrealistas, pois “não pintava seus sonhos, mas a sua realidade e sem fuga”.

O amor e a devastação feminina caminham juntos e guarda uma estreita relação, o que é indicado por Lacan, segundo Miller: “No macho, o desejo passa pelo gozo, quer dizer, requer o mais de gozar, enquanto na mulher, o desejo passa pelo amor”. Os termos devastação e deslumbramento são tradução dos termos franceses ravage e ravissement, utilizados por Lacan, como fenômenos subjetivos que significam arrasar, raptar, fascinar.

A relação tumultuada de Frida Kahlo com seu grande amor Diego Rivera, pintor muralista mexicano de renome e de fortes posições políticas como ela, tomou um lugar central na vida da pintora e se caracterizava por repetidas experiências de dor pelas duras traições, de ambas as partes, sem se sujeitarem a convenções algumas, inclusive o enfrentar da traição do marido Rivera com sua própria irmã e ele por sua vez suportar a variada e intensa vida sexual de Kahlo com os dois sexos, dentre vários o romance com Leon Trotsky por meses.

Contudo, “o amor a arte e a Diego eram pilares mestres da vida da artista”. Assim sendo, a falta que marca a teoria psicanalítica, também se faz “presente” na obra de Frida Kahlo. O próprio início de sua obra sugere marcar as origens dessa falta – maioria dos seus quadros, cartas e diário, Kahlo refere-se: “o acidente foi muito complicado e importante, para reduzi-lo a uma imagem compreensível”. Transforma a própria tragédia em ficção através do esboço de seu primeiro desenho.

Devido fundamentalmente a este evento trágico é que Frida tinha uma saúde frágil, em média uma cirurgia por ano, e dentre tantas tristezas a maior clamaria por uma maternidade frustrada, com três abortos espontâneos, ventre estraçalhado sem segurar nenhuma gravidez.

Tornar-se mulher, para Freud, era tornar-se mãe. Estabelecendo inicialmente essa equivalência: mulher-mãe, Freud obstaculizou sua elaboração teórica sobre a feminilidade, creditando à mulher uma natureza pulsional passiva que buscaria na maternidade a melhor solução para a inveja de pênis. Propôs, portanto, uma partilha dos sexos a partir do falo – ter ou não ter o falo – colocando o desejo feminino como desejo de ter um filho. Considerando-se que o desejo sempre está relacionando com a falta, dizemos que o falo é um significante da falta, da perda primordial, da castração.

Ao longo de muitos anos, desde 1925 em “Algumas Conseqüências Psíquicas da Distinção Anatômica entre os Sexos”, passando por “A Sexualidade Feminina” em 1931 e um ano depois – 1932, na Conferência “A Feminilidade”, Freud conclui incompleta sua abordagem sobre a feminilidade e sugere que recorramos aos poetas em busca de respostas.

Sendo a feminilidade marcada pelo desejo, o ensino de Lacan iniciou um novo modo de abordar a feminilidade, para além da castração, de simbólico – indo em direção ao Real: não mais pela via do desejo, mas do Gozo. Saímos da questão ”O QUE QUER UMA MULHER?” tendo como centro o desejo na teoria freudiana acerca da feminilidade, para acompanharmos a seqüência dos Seminários de Lacan destituindo o desejo de seu estatuto central, elegendo o Gozo e o Real neste lugar.

A exuberante pintura de Kahlo tem a marca do excesso: excesso cor, de dor, de estranheza, de feminilidade. A própria obra pictórica que excede a tela e se utiliza da moldura para dar continuidade ao que a tela não comportou. “O quadro para além do quadro”. Excesso de sentido.

Sérgio André sublinha:

O que uma mulher quer é que alguma coisa advenha ao lugar deste significante faltoso, que um ponto de apoio lhe seja fornecido precisamente de lá onde o inconsciente a deixa abandonada. Essa reivindicação pode tomar diversos caminhos (…). Uma dessas vias, a mais difícil de definir pelos conceitos analíticos, seria a da criação. A criação, com efeito, não é nada mais que a produção de um significante novo no lugar de um significante faltoso. O significante novo criado pelo artista não procura preencher o furo deixado aberto, mas pelo contrário, revelá-lo e fazê-lo atuar como tal (ANDRÉ, 1998, p. 283-284).

 

É dito que toda criação gira em torno desse lugar vazio, lugar não só da mulher como da arte e em toda sublimação o vazio será determinante, diz Lacan.

Marcada por invasões do real em sua história de vida, Kahlo faz da sublimação, um ato criativo que lhe oferece uma saída, “um desvio das pulsões sexuais, para investir em atividades artísticas, políticas, intelectuais, atividades superiores”, nos assevera Freud.

Para Lacan, a sublimação pode ser compreendida como tentativa de circunscrever o real, fazendo uso da articulação significante. O fazer do artista transmuta-a em paixão do significante.

André Breton, “papa do surrealismo” declara:

“Faz muito tempo que admiro o auto-retrato de Frida Kahlo de Rivera que adorna uma parede do estúdio de Trotsky. […] Temos o prazer de presenciar, igual aos dias mais gloriosos do romantismo alemão, a aparição de uma jovem mulher dotada de todos os poderes de sedução e acostumada à companhia de homens geniais. […] Não existe obra de arte que seja mais marcadamente feminina, no sentido de que, para ser tão sedutora como é possível, está disposto, de maneira total, a alterar entre o jogo de ser absolutamente pura ou absolutamente malvada. A arte de Frida Kahlo é como uma cinta que envolve uma bomba”. (Apud HERRERA, 1984, p.184).

Magdalena Carmen Frida Kahlo y Calderon, aos 47 anos tem sua última inscrição em seu diário: “Espero alegre a minha partida e espero não retornar nunca mais” (Kahlo).

Torna-se assim um mito, valida célebre citação de Nietzsche: “O homem não é mais artista, tornou-se arte”.

 *Administração, Comunicação social, Participante da delegação geral Maranhão

 

REFRÊNCIAS:

ANDRÉ, Serge. O que quer uma mulher? Rio de Janeiro, Ed Jorge Zahar, 1998.

REGNAULT, François.  Em torno do vazio: a arte à luz da psicanálise.

Coleção Opção Lacaniana. Rio de Janeiro, Contra Capa Livraria, 2001.

FREUD, Sigmund. Edição Standard das Obras Completas de Sigmund Freud, Rio de Janeiro, Ed. Imago, 1969.

Algumas conseqüências psíquicas da distinção anatômica entre os sexos-(1925)

– Sexualidade Feminina – (1931).

– Conferência XXXIII: feminilidade – (1933).

– Leonardo da Vinci e uma lembrança da sua infância-(1910)

LACAN, J. –O Seminário. Livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise.

O Seminário. Livro 13: O objeto da psicanálise.

O Seminário. Livro 07: A  ética da psicanálise.

HERRARA, H. – Frida: una biografia de Frida Kahlo. México, 2004.