Img 6 ITRSilvana Sombra
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‘Falar com o Corpo’, e articular esse tema com “O Real do Corpo na Psicanálise e na Ciência” foi o que me moveu a escrever esse artigo. Partindo deste ponto, quis articular com a Transferência. Como pensar um corpo, e esse aqui nesse ponto é o da psicanálise que me interessa, com o fenômeno transferencial? Confesso que na brincadeira de palavras até chegar onde pensei serem possíveis, as palavras anticorpo, antídoto e antígeno me vieram. E vamos lá aonde elas vão me levar.

A análise começa por amor. Dão-se palavras, aquelas mais íntimas que não entregaríamos para ninguém, somente se está posto algo mais e esse algo mais é o amor de transferência. A palavra é o catalisador desse amor sem contato íntimo. O analista tem então da parte do analisando que chega ao consultório, as suas palavras e este lhe pede alguma coisa. O sujeito segundo Lacan pede pelo fato de que fala… sua fala é intransitiva, não implica nenhum objeto. Mas, ele espera do analista a sua cura, conhecer-se melhor numa análise, ser habilitado a analista, etc.. Isso ele acha que o analista possa lhe dar, então se estabelece uma transferência baseada nessa suposição, mas ele quer um além disso. O analisando demanda na verdade o seu ser, que o analista venha completar a sua falta, fortalecer com seu ego forte a sua falta a ser. E o que é essa demanda senão de amor, ser um objeto amado? Amar é dar o que não se tem, como diz Lacan, não se trata de dar algo em particular, algo que se tem, assim seria fácil, mas sim a falta para que o outro vá se alojar nesse lugar. Estamos falando aqui do amor simbólico, que é articulado com a palavra. Mas do lado do analista isso não vai ser assim. Em “A direção do tratamento e os princípios de seu poder” no Escritos de Jacques Lacan, capítulo IV (como agir com seu ser), ponto nove, 2º parágrafo: “Pois, se amor é dar o que não se tem, é verdade que o sujeito pode esperar que isso lhe seja dado, uma vez que o psicanalista nada mais tem a lhe dar. Mas nem mesmo esse nada ele lhe dá, e é bom que seja assim.” O analista não dá o seu signo de amor, pois o desejo do analista não está do lado do signo do amor, é o desejo impuro, aquele que deseja que o paciente continue produzindo na sua própria análise, mantendo viva assim a dialética da cura. Amor com amor aqui não se paga, só com o desejo do analista. Mas desse amor não correspondido, digamos assim, recolhem-se as migalhas da interpretação: “que quer me dizer o analista?” “que ele quer com isso?”. Daí tem todo um desenrolar onde vai ser possível o analisando incluir aí o seu ser de gozo.

Como acabaria essa história de amor? Servi-se desse amor para então deixá-lo sozinho cantado por um poeta “amores terminam no escuro, sozinhos…”?*Espera-se que o amoroso, o analisante, encontre sua diferença absoluta para um mais além, por fora da lei paterna, encontrando algo novo no amor, assim encontramos em Lacan no finalzinho do Seminário XI.

Sair do amor de transferência é necessariamente encontrar algo novo no amor? Rejeitar o objeto, e aqui se pode colocar o analista e o que ele representa nessa relação, contando nesse ato não mais por parte do analista, mas do analisando a sua saída,(?) já que inoculado por essa experiência, de fora vindo o que lhe é mais próprio, o antídoto, reconhecer e renunciar para não mais o mesmo, sem rememorar, sem fazer série, afinal tudo é um “mesmo carvão só”.

Em Grande Sertão Veredas encontro:

“… acho que o sentir da gente volteia, mas em certos modos, rodando em si mas por regras. O prazer muito vira medo, o medo vai vira ódio, o ódio vira esses desesperos? – desespero é bom que vire a maior tristeza, constante então para o um amor- quanta saudade…- ; aí outra esperança já vem…Mas, a brasinha de tudo, é só o mesmo carvão só.” **

De que corpo trata a transferência numa análise? O corpo bordeja tal como uma caneta o movimento do gozo. Como diz Maria Cecília Ferretti:

Meu corpo tal como uma caneta que desenha uma borda nesse movimento indefinidamente reiterado, “se gozava”, segundo a expressão de Lacan. Isso não cessava de não se escrever. Escrita falha de fato, que o corpo tentava, em vão, escrever com a ajuda de sua invenção sinthomática”. (p.308)

A transferência na vertente imaginária visa o amor, enquanto na vertente simbólica visa o saber. O saber produzido numa análise se inscreve no corpo do sujeito como uma tatuagem que o marca de forma indelével. Numa travessia de análise há um exílio de resposta do analista, que aponta para a falta de recurso ao Outro e essa experiência só pode ser vivida sob a égide da solidão. O analista não repreende, não critica e não fomenta o falasser sob sua face de gozo da fala.

A transferência, então cristaliza um enigma. O enigma necessário ao desenrolar da experiência analítica. Ao analisante que se pretende analista não cabe só um termino, uma saída do amor de transferência, uma parada na análise; mas uma transferência dirigida à Escola de Orientação Lacaniana, sob a forma de transferência de trabalho – rumo ao passe que confirma que uma análise chegou ao fim.

 

Notas:
*Resposta ao Tempo – Aldir Blanc e Cristovão Bastos
**Grande Sertão Veredas – Guimarães Rosa
Referências Bibliográficas:
  1. Os Escritos – Lacan
  2. Seminário XI- Lacan
  3. Associação Mundial de Psicanálise – Scilicet/ O Corpo Falante: sobre o inconsciente no século XXI – EBP, In : Maria Cecília Galetti Ferretti. São Paulo: Escola Brasileira de Psicanálise, 2016.