Reprodução fotográfica da obra Melancolie de Albert Györ-Gy (Genebra, 2012, bronze)

Yelma Oliveira[1]

“- A fotografia foi a minha salvação!”

Esse recorte do diálogo no filme Mil vezes boa noite (2013) entre a personagem Rebecca e sua filha vai nortear as articulações que se seguem. Rebecca é uma fotógrafa de guerra que não encontra sentido em uma vida comum e concebe seu trabalho enquanto uma forma de transformar a realidade, ainda que o exercício de sua profissão coloque sua própria vida constantemente em risco. A partir dos conceitos de pulsão, identificação, melancolia, compulsão à repetição e pulsão escópica podemos ter um viés psicanalítico acerca do filme exibido.

No texto Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905), Freud utilizou pela primeira vez a palavra pulsão enquanto uma representante do somático e do psíquico, pois ao lado das excitações externas das quais o indivíduo pode fugir ou de que pode se proteger, existem forças internas (pulsões) portadoras constantes de um afluxo de excitação a que o organismo não pode escapar e que é o fator propulsor do funcionamento do aparelho psíquico. As pulsões são a origem da energia psíquica que se acumula no interior do sujeito, gerando um nível de tensão interna que exige ser descarregada. As pulsões de vida têm um caráter construtivo enquanto que as pulsões de morte representam a tendência fundamental de todo ser vivo a retornar a um estado anorgânico.

Na fuga de seus conflitos internos, Rebecca vai a regiões de conflito (externo) e somente encontra um limite para a compulsão à repetição no olhar pelo viés da fotografia, ao identificar a filha com uma criança que é exposta ao ato suicida-terrorista, na medida em que a vida da filha tem importância, diferente da própria vida que é destituída de valor pela dor de existir. Freud elaborou o conceito de pulsão de morte ao observar os fenômenos de repetição, que o levou à ideia do caráter regressivo da pulsão. Em tais fenômenos de repetição, o aparelho psíquico não apenas descarregava a energia da libido, mas a libido estava relacionada a situações desagradáveis.

No que se refere à pulsão escópica, o sujeito atribui o olhar ao Outro de acordo com a estrutura clínica. O neurótico tem no outro um suporte do olhar enquanto causa de desejo ou de angústia. O perverso tenta devolver ao Outro, o olhar para fazê-lo gozar. O psicótico não tem o olhar como objeto separado, mas como atributo do Outro, permitindo tanto a vigilância quanto a punição.

Freud no texto Sobre o Narcisismo: uma Introdução (1914), refere-se à relação com o outro como formador do eu, que após sua formação o percebe enquanto uma ameaça, já que exibe novas formas de ser que não podem ser absorvidas, sem que se deixe de ser quem é. A ideia da transformação do ter em ser pela identificação nos traz o ponto de convergência entre esse processo e o narcisismo, como podemos ver na melancolia conforme descrito por Freud em Luto e melancolia (1917).

A primeira forma que o Eu tem de se relacionar com o outro é através da incorporação (identificação primária). Posteriormente utilizará do mesmo mecanismo para se relacionar, identificando-se com quem gosta (identificação secundária). A identificação servirá como forma de proteger o Eu do esvaziamento libidinal, mantendo os investimentos em objetos externos. Dessa forma, o Eu não fica desinvestido e nessa linha podemos falar das relações da identificação com o narcisismo.

Lacan escolheu a pulsão escópica como paradigma da pulsão sexual. Qual seria a função do escópico na estruturação subjetiva e do laço social?​ Para Lacan (1964) “na nossa relação às coisas, tal que ela é constituída pela via da visão, e ordenada nas figuras de representação, qualquer coisa se transmite para aí se ver suprimida – é isto que chamamos o olhar”. É esta a divisão radical entre o olho, órgão da visão e o olhar, objeto “a” da pulsão escópica, reduzido a uma formação puntiforme de curta duração.

Aqui, o objeto olhar se coloca em cena e a constatação de sua importância na leitura da realidade virtual nos mostra a atualidade deste tema. A pulsão escópica fornece a energia em toda a curiosidade de apreender o mundo que nos cerca e se faz presente tanto na aprendizagem, quanto na pesquisa científica e na arte através do mecanismo de sublimação, que permite ao próprio sujeito exibir-se ao olhar do outro.

A primeira linha de associação entre esses conceitos demonstra a ideia de agressividade inerente ao narcisismo, que é desenvolvido no Estádio do espelho, por Lacan. Esse texto mostra como esse período mítico de formação do eu pode ser entendido por processos narcísicos e identificatórios ao mesmo tempo, além de explicitar o fato de ser um eu formado por um outro, em que a existência da agressividade em relação a sua gênese e permanência se originariam dessa relação.

No filme, Rebecca não consegue colocar um limite em sua atração irresistível pela morte. Em seu discurso expressa ter sido levada pelo instinto (pulsão de morte). Ao mesmo tempo em que expõe a própria vida flertando com a morte, diz para a filha que a fotografia foi a sua salvação porque acalmava seus sentimentos de ódio (por si – melancolia. Odiar o sistema que produz guerra civil, seria mais suportável que odiar a si mesma).

O sofrimento que faz vacilar nossas referências, no melancólico vai produzir o efeito de torná-lo prisioneiro de sua própria dor, posto que se aliena e se perde na identificação através da incorporação do objeto pelo eu. Aqui não teremos a vivência de uma dimensão maior de alteridade, pois na melancolia o outro é especular, o duplo de si mesmo.

Freud consegue perceber que as autotorturas que o melancólico se dirige é a outro que ele agride e não a ele mesmo. Um outro que no Eu melancólico habita, por intermédio da identificação e da incorporação, sem que sua existência seja reconhecida por ele. Desse modo, o eu é seu próprio torturador, mas tais torturas (recriminações, críticas) somente são possíveis porque não se dirigem contra ele e sim contra um outro/objeto que não se sabe estar presente nele (inconsciente).

Freud (1917) demarca na melancolia juntamente com as ambivalências ódio e amor, sadismo e masoquismo, a presença de um caráter narcisista de escolha objetal, lembrando que o objeto só é conservado no psiquismo devido ao amor narcísico que o eu nutre por ele. No narcisismo o sujeito toma a si mesmo como objeto de amor, como o eu ideal e na escolha narcísica de objeto, o sujeito elege um outro segundo a imagem reflexa do próprio eu.

Nasio (1995) retoma a teoria freudiana da pulsão escópica, em que o jogo das três vozes –  a ativa, a reflexiva e a passiva – é exercido nos três tempos da pulsão: olhar, olhar-se, ser olhado. Quinet (2004) coloca em evidência que a sociedade contemporânea é comandada pelo olhar, com o império da imagem. Nessa perspectiva, uma primeira questão se coloca: por que a pulsão escópica dentre as demais tomou um lugar de primazia na organização do laço social contemporâneo? Uma segunda questão seria: porque Lacan escolheu a pulsão escópica como paradigma da pulsão sexual e qual a função do escópico na estruturação subjetiva e do laço social?

Percebemos que na contemporaneidade a vida cotidiana  tem se tornado objeto de espetáculo. A representação das aparências tem destaque no laço social escópico. A vida privada é virada do avesso e transformada em espetáculo para as massas. Para o sujeito é preciso expor detalhes de sua vida íntima como mercadoria de consumo para o olhar do outro. A pulsão escópica não encontra apoio em uma demanda como as pulsões oral e anal. Não há fase escópica no desenvolvimento libidinal, pois o escopismo é constituinte da libido, do próprio sujeito – por isso a pulsão escópica é paradigmática da pulsão sexual.

O olhar é o personagem principal no mundo narcísico contemporâneo. Marcelo Veras (2018) reflete acerca do olhar da câmera enquanto prolongamento do corpo uma vez que o smartphone está à mão sempre que se deseja o objeto olhar. Para as crianças invadidas pela tecnologia, entra em cena o curto circuito do gozo enquanto patologia do sistema alienação/separação, no qual a alienação resulta na hiperatividade, enquanto que a separação leva ao espectro autista.

O mundo virtual por preservar o anonimato do sujeito, seja do que espia, seja do que se mostra, é terreno fértil para o surgimento da perversão com maior intensidade. A atualidade do tema da escopofilia, bem como a constatação de sua importância na leitura da realidade virtual, na qual a pulsão escopofílica fornece a energia para a curiosidade de apreender o mundo que nos cerca. O gozo escópico é tanto o gozo dos espetáculos quanto do horror conquanto que o olhar somente se ver a partir da cegueira ou do desaparecimento do sujeito, indicando que toda pulsão é também pulsão de morte.  Cabe ressaltar que a psicanálise vai surgir quando o objeto olhar é substituído pela associação livre.

Em Mil vezes boa noite, a personagem principal deseja proteger uma criança da mesma forma que sua família tenta impedir sua própria morte. A fotógrafa de regiões de conflito fala para sua filha que a profissão a salvou. Um paradoxo já que está sempre arriscando a própria vida por uma imagem. Entretanto, lidar com os conflitos internos pode ser ainda mais devastador, por isso ela projeta a própria angústia no mundo externo, na medida em que o registro do conflito exterior não a mobilizaria tanto quanto ter uma vida comum em meio à insistente pulsão de morte.

 

 


REFERÊNCIAS
FREUD, S. (1856-1939). Obras completas. Edição standard brasileira. Rio de Janeiro: Imago: 1980.
______________. (1905) Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. In: Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. vol.7. Rio de Janeiro: Imago, pp. 129-256
______________. (1914b). Sobre o narcisismo: uma introdução. In:Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. vol. 14. Rio de Janeiro: Imago, 1990, p. 83-119.
______________. A pulsão e seus destinos (1915).  Rio de Janeiro: Imago, 1976.
______________ Luto e melancolia, 1917 [1915]. In: Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 14. Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 243-263.
_____________(1920). Além do princípio do prazer. In: Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (J. Salomão, trad., vol. 18, pp. 17-90). Rio de Janeiro: Imago, 1980.
LACAN, Jacques. Seminário XI. Os quatro conceitos fundamentais em psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1964.
MIL VEZES boa noite. Direção: Erik Poppe. Europa Filmes/ Mares, 2013, DVD/BluRay.
NASIO, Juan-David / tradução Vera Ribeiro. O olhar em psicanálise. Rio de Janeiro:Jorge Zahar,1995
QUINET, Antonio. Um olhar a mais: ver e ser visto na pasicanálise. 2 ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004.
VERAS, Marcelo Frederico A. S.  Selfie, logo existo.  Salvador: Corrupio, 2018.

[1] Analista Praticante. Psicóloga. Participante da Delegação Geral Maranhão e Aderente da Escola Brasileira de Psicanálise.