Img 2 ITRAnícia Ewerton*
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“Deixar-se cair e subir no palco”

Jacques Lacan

 

Os conceitos em psicanálise foram construídos por Sigmund Freud a partir de uma prática. Foi escutando, inicialmente, as histéricas que Freud cria a psicanálise e vai construindo seus conceitos, porém, durante todo o seu período de escuta e escrita, Freud vai revendo os conceitos até ali formulados. Em Freud vamos encontrar o termo alemão “agieren” que significa atuação, quase sempre, de caráter impulsivo que rompe com as motivações habituais do sujeito, em inglês “acting out”, que surge na teoria de Freud ligado ao de transferência, esta como motor, mola do tratamento analítico e ao mesmo tempo como entrave de uma análise. O acting out é articulado na psicanálise como um ato no qual o sujeito, em análise, atua, age ao invés de recordar e colocar em palavras uma cena infantil. Esta atuação ou colocação em prática das pulsões, fantasias e desejos de um sujeito, pode ser tanto dentro como fora do consultório de psicanálise.

O ato na construção freudiana não teve uma demarcação precisa, isto é, acting out e passagem ao ato não tiveram suas nuances bem definidas. Jacques Lacan é que vai dar uma grande colaboração, balizando as sutilezas do acting out e da passagem ao ato como situações clínicas distintas. No seminário X, seminário da Angústia (1962-1963), Lacan articula estes conceitos de Passagem ao ato e Acting out, no capítulo IX, mostrando a relação do objeto a com essas duas situações clínica.

Passagem ao ato e Acting out e suas relações com o objeto a

Lacan toma emprestado de Freud a expressão “largar a mão”, expressão esta usada pelo pai da psicanálise ao analisar a passagem ao ato da jovem homossexual. Esse largar a mão, Lacan vai nos dizer que é o correlato essencial da passagem ao ato. Diz, ainda, que a passagem ao ato está do lado do sujeito na medida em que aparece apagado ao máximo pela barra, nesse apagamento o sujeito se precipita e despenca fora da cena em um gesto violento. Jacques-Alain Miller no texto “Introdução à Leitura do Seminário da Angústia de Jacques Lacan”, coloca que na passagem ao ato é o sujeito encontrando-se, sob a barra, fora de cena, com o objeto a, esse objeto da angústia. Em Scillet, Jacques Alain Miller diz que Barra e Corte não são de modo algum a mesma coisa. A barra suprime, a barra apaga, a barra mata, a barra risca, e vem outra coisa. Ao passo que o corte, como marca significante, separa, e deixa um resto. Nesta perspectiva a passagem ao ato não engana, é uma saída de cena que não deixa mais lugar à interpretação, não deixa mais lugar ao jogo do significante, ao deslizamento na cadeia, que sempre está nos reenviando a outro significante. O sujeito sai do logro da cena para a certeza de um encontro identificatório com o objeto a, esse resto. Na passagem ao ato existe uma rejeição da cena e rejeição de qualquer apelo ao Outro.

Miller no texto “Jacques Lacan: Observação sobre seu conceito de Passagem ao Ato” coloca que Lacan faz do suicídio o modelo da passagem ao ato. A Clínica do ato apresentada por Lacan aponta para uma autodestruição do sujeito, assim sendo, o sujeito em seus pensamentos não pensa em seu bem, mas em seu mal. Eric Laurent, no texto “A Vergonha e o Ódio de Si”, lembra que em Televisão Lacan fala, o que conduz o suicídio não é o desespero apontado pela psicologia e sim a “esperança”, pois quando o ideal entra em contradição com a realidade sombria e a esmaga, o sujeito se encontra sem recurso sob a fala do Ideal. Ele se suicida então como apelo ao Ideal esperança.

Por outro lado, o conceito de acting-out trabalhado por Lacan é no sentido de que o acting out é alguma coisa que se mostra na conduta do sujeito. No acting out, destaca-se esse “se coloca na cena para o Outro”. Essa mostração ocorre de forma velada, mas não velada em si, pois, é velada para nós, como sujeito do acting out, na medida em que isso fala, na medida em que poderia ser verdade, na medida que pode se tratar de uma demanda velada de ajuda. Miller vai nos dizer que o acting-out é o surgimento do objeto a na cena, com seus efeitos de perturbação e de desordem, insituáveis. No seminário X, Lacan nos diz que o acting-out clama pela interpretação, porém, devemos saber se esta é possível. Assim como, ele é o começo da transferência, ressaltando que esta é uma transferência selvagem, e que este fenômeno pode ocorrer fora do processo de análise. Contudo, a transferência sem análise é o acting out. O acting out sem análise é a transferência selvagem.

Diante destes conceitos podemos pensar a passagem ao ato e o acting out como uma resposta à angústia? E nessa resposta à angústia na passagem ao ato o sujeito sai de cena definitivamente, deixa-se cair, em uma identificação ao objeto a, este objeto na perspectiva de resto e nessa identificação deixa-se cair. Enquanto no acting out, o objeto se presentifica em direção ao Outro, presentifica-se de forma agalmática, em um transferência selvagem, para que Outro mantenha-se em seu lugar. O acting out é uma atuação simbólica que porta uma mensagem cifrada e nessa atuação o sujeito entra em cena como objeto causa de desejo,

*Participante da Delegação Geral Maranhão

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
LACAN, J. (1962-63) O Seminário, livro 10: A angústia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor
MILLER, J-A. Introdução à Leitura do Seminário da Angústia de Jacques Lacan, publicado na Opção Lacaniana nº 43, maio de 2005,
MILLER, J-A. Jacques Lacan: Observação sobre seu conceito de Passagem ao Ato, publicado na Opção Lacaniana online, ano 5, Número 13.
ERIC, L. A Vergonha e o Ódio de Si, publicado na Revista de Psicanálise “Entrevários”, nº 14