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Sempre me chamou a atenção no atendimento em consultório o número de pacientes que declaram ter transtorno bipolar, a loucura de duas faces. Por vezes, ludicamente falando das variações de humor tão presentes na histeria, outros já com diagnósticos fechados na psiquiatria. Antes chamada de psicose maníaco-depressiva, a oscilação do humor com alternância entre depressão e euforia, com sua nova nomenclatura a partir do DSM-IV, transtorno bipolar, deixou de fora toda a causalidade psíquica.

O que está em questão é a relação do sujeito com o objeto, tanto na melancolia quanto na mania; não há uma relação verdadeira de investimento, em que teríamos o conflito de campos que põe o eu em oposição ao supereu. Na melancolia o eu recoberto pela sombra do objeto perdido, está submetido às duras críticas do supereu, na mania o eu parece estar em harmonia com o supereu onde nenhuma crítica pode mais atingi-lo. A passagem contínua de um estado a outro evoca a estrutura da banda de Moebius, grandeza e culpabilidade coexistem com os mesmos significantes se reencontrando.

Lacan (2015, p.345) no Seminário X, ao tratar da relação do sujeito com o objeto na mania diz: “que é a não função do objeto ‘a’ que está em causa e não simplesmente o desconhecimento; o sujeito não se lastreia em nenhum ‘a’, o que o deixa entregue, às vezes sem nenhuma necessidade de libertação, à metonímia pura, infinita e lúdica da cadeia significante”. Ainda no Seminário X, Lacan situa a melancolia como tendo o objeto ‘a’ mascarado, por trás da i (a) do narcisismo, exigindo que o melancólico atravesse a sua própria imagem a ataque para poder atingir lá dentro o objeto ‘a’ e cuja queda o arrasta; o que triunfa na melancolia é o objeto.

Trago para ilustração um caso comentado por Serge Cottet (2015) de uma paciente de Binswanger, amigo e interlocutor de Freud, vinte anos mais novo que este. O caso em questão apresenta uma clínica de foraclusão e uma clínica do objeto. A paciente é Olga Blum, que tem sua vida estruturada pela alternância de períodos eufóricos e melancólicos. Os pensamentos que ela traz sobre o seu pai comandam seus estados de humor. Quando está em total oposição ao seu pai o mundo lhe parece maravilhoso, milagrosamente transparente, sendo dominada por uma euforia com um saber sobre o mundo sem opacidade. Quando está identificada com ele, não tem o direito de viver, nem de estar em relação com os outros, diz que o pai é um egoísta, constituindo o termo egoísta como significante dessa aversão. Em sua fase maníaca a paciente se encontra claramente identificada com sua mãe, uma mãe idealizada, e se alegra de haver superado a seu pai, objeto de uma verdadeira aversão; torna-se hiperlúcida e vê a vida cor de rosa.

A primeira internação da paciente foi aos 26 anos, já estava divorciada e tinha um filho. Da história sabe-se que aos oito anos falava quatro idiomas; aos dezesseis anos presencia uma crise epiléptica do pai e diz a si mesma que a vida não merece ser vivida; aos vinte e dois anos se casa e após lua de mel tem uma depressão grave, umas semanas depois tudo é novamente maravilhoso e três semanas após a tristeza volta, estando grávida; pouco tempo depois se divorcia. Tem uma conexão delirante com o escritor Goethe, ideal desdobrado dela mesma, e considera que o escritor a dispensou de escrever Fausto. Na sua fase maníaca se sente em sintonia com o gênero humano e se comunica com os animais e as plantas. Da sua relação com o pai ela traz que o seu pai sempre a beijava na boca.

O comentarista do caso coloca que não se pode dizer tal como um clichê psicanalítico, que o ódio ao pai foi precedido de uma atitude amorosa, mas antes que o gozo incestuoso foracluiu o inconsciente e no retorno ao real teríamos o pai egoísta e não o pai-versão (perverso). A sua aptidão para línguas e também a logorreia presente mesmo na melancolia (no caso dela) sugere que o objeto oral alimenta a identificação com o pai.

Podemos dizer que na psicose maníaco-depressiva no que diz respeito ao inconsciente, a identificação e a separação do objeto “a” oferecem-se a observação em estado puro. Uma identificação imaginária acompanhada de gozo puro, e o quanto pode ter sua construção híbrida, no caso acima citado, identificação com o pai e com a mãe.

Silvana Sombra – silsom@hotmail.com


 

 

Referências Bibliográficas
LACAN, Jacques. O Seminário, livro 10: a angústia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2005.
COTTET, Serge. La aversión del objeto em los estados mixtos. In: MILLER, Jacques-Alain y otros. Variaciones del humor. Ciudad Autónoma de Buenos Aires: Paidós, 2015. p. 25-34.