Eduardo Riaviz*

O sinthoma no sintomaSe nos orientamos na lógica da cura, podemos dizer que a entrada em análise se dá pelo sintoma, a “saída” pelo atravessamento da fantasia fundamental, e que, paradoxalmente, há um além do atravessamento da fantasia, que implica, como nos ensina Miller, “a confrontação do analista com o Sinthoma” (confrontação não é desejo do analista). Portanto, no além do atravessamento da fantasia, há um além do discurso analítico. Um além daquilo que sustenta o discurso analítico, ou seja, o desejo do analista. O que implica um além do estatuto ético do inconsciente e, com isto, um além do sujeito como descontinuidade na cadeia de determinações. Isso quer dizer não só um além do sujeito como questão, mas também da suposição de resposta que o sujeito como questão abre. Em outros termos, um além do Sujeito Suposto Saber. Resumindo: um além dos efeitos de verdade mentirosa[2] que o trabalho do analisante, em transferência, produz. Tudo isto implica, como consequência, um além da clínica psicanalítica, à medida que esta é definida, por Freud, por Lacan e acentuada por J. -A. Miller, nos começos dos anos 80, como uma clínica sob transferência[3].

Na proposição do passe Lacan, nos dirá que “no início está a transferência” e no fim a destituição do Sujeito Suposto Saber como consequência logica do atravessamento da fantasia fundamental. Como definir esta “clínica” que se abre após a travessia da fantasia, que está fora das coordenadas que abriam e fechavam o jogo analítico? Como definir esta “clínica” que se apresenta, se nos guiamos por nossas coordenadas, como “pós-analítica”? Talvez estas afirmações permitam dar um marco àquilo que Lacan chamava de um discurso que não fosse semblante, e que Miller, em seus últimos cursos, tenta trazer para a luz, nesses confins não concluídos do ensino de Lacan, abrindo, assim, as portas do Millerismo.

Retomemos nosso argumento para questioná-lo, não todo, mas no seu osso, a sequência logica implicada nele. Parte do sintoma até chegar à travessia da fantasia. Travessia que abre as portas do que chamamos clinica “pós-analítica”. Neste argumento o sintoma é apresentado como uma formação do inconsciente que, como tal, é “um acontecimento de sentido” (Miller), acontecimento este que deve ser interpretado a partir da fantasia fundamental. Analisando o Sintoma, atravessada a fantasia fundamental, abrem-se as portas do Sinthoma, como acontecimento corporal, abrindo assim a ”clínica” do real, a “clínica pós-analítica”.

Questionemos esta sequência, centrada na descontinuidade Travessia da Fantasia-Sinthoma, para dizer que tanto no início como no fim está em jogo o Sinthoma com h. Que o UM está presente na cadeia significante, porque, na cadeia, cada significante é UM (a relação diferencial, da cadeia significante, é secundária). Que o gozo é causa, é “primeiro em relação ao sentido que o sujeito lhe dá e que lhe dá em relação a seu sintoma enquanto interpretável” (Miller). Que, portanto, a “clínica” é contínua. Que a própria “clínica” se desfaz nesta afirmação, porque não há clínica do singular. Que, como diz Miller, a clínica diferencial[4] é preliminar à experiência analítica.

O Sinthoma está no início sob uma envoltura que Lacan chamou, nos Escritos, envelope formal do sintoma. Nesta data, Lacan não tinha ainda cunhado o termo Sinthoma. Por isso, com envelope formal do sintoma queria diferenciar o sentido que habita o sintoma daquilo que escapa ao sentido, seu gozo obscuro, que mais tarde chamará Sinthoma.

Encontrarmos o Sinthoma não só na confrontação última do analista com ele, como também no início da análise, não nos poupa da problemática aberta pelo sintoma e a fantasia fundamental. Só nos indica que, no Sintoma, nem tudo é questão de sentido porque, se tudo fosse questão de sentido, ele teria o caráter fugaz de toda formação do inconsciente. Mas ele não é fugaz, ele se repete, e se repete além das interpretações que decifram seu sentido. Se o sintoma se repete além das interpretações que decifram seu sentido, a causa da repetição não pode ser um sentido recalcado, mas sim um gozo obscuro que escapa ao sentido. Há um gozo obscuro na repetição do Sintoma que resiste à dialética do sentido gozado e nos indica a existência do Sinthoma no Sintoma.

Para concluir: o Sinthoma no Sintoma nos indica que não há clínica analítica, nem clínica pós-analítica, mas, antes, uma experiência singular chamada por Lacan de experiência analítica. Experiência que, na sua trama final, perde a coordenada transferencial e, com ela, o discurso analítico. Trama final que abre a confrontação do analista com o Sinthoma num paradoxal discurso que não fosse semblante. Por tanto, trama final que mantem o apego do analisante ao analista sob o modo parceiro-sinthoma.

*A.P., Aderente da EBP, participante da Delegação Geral Maranhão

  

Referências bibliográficas

Lacan, Jacques. Escritos. R.J.: Jorge Zahar, 1998.O seminário – Livro XI: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988.

Miller, Jacques-Alain. A obra de Lacan. Curso inédito. Paris: 2010-11.

__________.Sutilezas Analíticas. Buenos Aires: Paidós, 2011.

__________.El partenaire-síntoma. Buenos Aires: Paidós, 2008.

[1] Este texto é efeito da leitura do Curso de J-A Miller, A obra de Lacan, mas o efeito é de minha responsabilidade.

[2] Não devemos confundir a verdade mentirosa com o meio dizer a verdade. Quando Lacan fala do meio dizer a verdade nos fala de uma verdade que se mede em relação ao sujeito. Mas como o significante do sujeito falta no Outro do significante, como sujeito é da ordem do recalque primordial, a verdade só pode trazer à tona o recalque secundário. A verdade não pode ser dita Toda, nesta perspectiva; sempre falta algo por dizer, a verdade é Não Toda, se diz a meias. Já a Verdade mentirosa implica a confrontação do encadeamento significante, que se propõe como verdadeiro, com o Sinthoma que é da ordem do  real. É na confrontação com o real que a verdade é mentirosa, é semblante, faz crer que há algo onde não há nada.

[3] As formulações de Miller, no começo dos anos 80, estavam norteadas pela oposição Sintoma-Fantasia que tinha apresentado em seu curso inédito, do ano 1982-83, Do Sintoma ao Fantasma e retorno. Se bem que no fim deste curso, Miller faça referência ao Sinthoma, o eixo do curso está centrado, como o título o indica, na oposição Sintoma-Fantasma. Nesta perspectiva, uma análise começa pelo sintoma e finaliza pela travessia da fantasia; portanto, a clínica analítica era uma clínica sob transferência.   O acento no Sinthoma com H, como tratamos de mostrar, abre outra perspectiva além da transferência.

[4] Dizer que a clinica diferencial é preliminar à experiência analítica é o mesmo que dizer que toda clínica é preliminar à experiência analítica, porque só há clínica estabelecendo diferenças, classificando.