Lenita Estrela de Sá

Que relação com a sexualidade teria um dramaturgo considerado quase sisudo pela maioria das pessoas?

A Renascença trouxe consigo grande exaltação intelectual (traduzida pela recuperação da cultura greco-romana) e sensível declínio da fé (condicionado pela secularização do clero que, já pelo final da Idade Média, preocupava-se mais com as conquistas militares e seus dividendos políticos do que com as questões religiosas, tendência que culminaria nas reivindicações da Reforma protestante, na primeira metade do Séc. XVI). Aponta-se também o acúmulo de riqueza (mercantilismo, expansão marítima) como mais um fator de relaxamento moral. A nova razão e o desenvolvimento econômico da sociedade legitimavam o prazer e o gozo pela vida. Além disso, os humanistas criticavam duramente a conduta pouco comportada de alguns padres e freiras, entregues à permissividade sexual e à corrupção.

O homem da Renascença, para Durant, seria a combinação da liberdade de inteligência com o abandono da moral; ele acreditava menos e divertia-se mais, achava-se sempre em movimento e descontente, impaciente ante os preconceitos; sua imoralidade fazia parte de seu individualismo, deixando-o disponível a todos os prazeres. Era realista, enérgico, vaidoso e substituía a moral pelo senso estético. Segundo o autor citado, jamais a vida fora vivida tão intensamente. A Idade Média dissera – ou pretendera dizer – um não à vida; a Renascença, com todo o seu coração e alma, dissera sim.

A mulher da Renascença, sendo de boa família, devia casar-se. Sua educação, ministrada por professores ou freiras, consista de noções de latim, história da Grécia e de Roma, literatura, filosofia e música. Tingia os cabelos quase sempre de louro e colocava cachos postiços, usava preparados para tirar manchas, polir as unhas e tornar a pele macia e lisa; vaidosa e elegante, abusava dos cosméticos, aplicando ruge no rosto e nos seios, adorava pérolas e pedras preciosas, bem como ricos vestidos, pesados e pouco confortáveis, arrematados por mantos de veludo, seda e pele que desciam sobre os ombros em dobras maciças; os espartilhos, apertados a chave, eram usados por quase todas; os sapatos eram de sola e salto muito altos, a fim de protegerem os pés contra a sujeira das ruas. Apesar da indumentária volumosa, expunha sensualmente o colo, quase a descobrir os seios o que gerava o protesto de alguns sacerdotes e pregadores.

Durant ressalta ainda (e muito apropriadamente) que o arrojado, brilhante e questionador espírito da Renascença era dote de uma minoria intelectual e socialmente privilegiada, permanecendo a maioria da população ligada aos preceitos religiosos herdados da Idade Média. Muitos dos que tinham vida desregrada, passada entre orgias e vinho, riqueza e poder, arrependiam-se no leito de morte, implorando a algum padre que lhes ministrassem a extrema-unção. Isso condicionou a vigência de um código moral ambivalente e maniqueísta, em face do qual a prática da sexualidade ora se inscrevia na esfera do mal – associada ao pecado e à devassidão – ora, na esfera do bem, límpida tradução da intensidade da vida.

Nascido em 1564, é destes homens e mulheres que Shakespeare extrai a alma de seus personagens. Assim é que Hérmia dá voz ao pudor ensinando às moças aristocráticas, resistindo à tentação da proximidade com o corpo de Lisandro, ao dormirem sozinhos num bosque.

Hérmia – (…) Hérmia teria ofendido sua educação e orgulho, se houvesse pensado mal de Lisandro. Mas, querido amigo, por carinho e cortesia, repousai um pouco mais longe, o pudor exige esta separação, que tão bem assenta a um honrado solteiro e a uma donzela (…).

Atrás do manifesto rigorismo moral, entretanto, ouve-se a criada Emília (3) indaga-se: Quem não poria chifres no marido para fazê-lo monarca? Neste ponto, o sexo já é tratado como algo dotado de um poder especial, acima das sanções morais impostas pelo casamento, capaz de determinar acontecimentos políticos, impulso de vida fundamental que é. Vejamos o que diz o Mensageiro (4) a Cleópatra, ao lhe dar notícias de Marco Antônio.

Mensageiro – Livre, minha senhora!? Não, não disse semelhante coisa, está preso a Otávia.

Cleópatra – Por que vínculo?

Mensageiro – Pelo melhor vínculo: a cama.

Cleópatra – Estou ficando pálida, Charmian.

Moral que permitia às mulheres exibirem o colo até quase o bico dos seios, contanto que o resto do corpo ficasse coberto por vestidos gigantescos, também permitia a fruição da sexualidade, contanto que, entre os casais de bem, isso ocorresse por trás de portas muito bem trancadas, como relata Ranum (6) descrevendo um quadro de Fragonard.

Em “O ferrolho”, de Fragonard, o quarto é o lugar onde as paixões se expressam. O homem fecha a porta sem interromper a sedução da mulher. A pressa e a brutalidade do ato sexual íntimo tornam fluida a imagem do leito, cujos lençóis estão estendidos entre os móveis e os corpos.

Sexo à solta, mas a portas aferrolhadas é o que sai da boca de Otelo (3).

Otelo – (Dirigindo-se a Emília) Vai tratar de tuas funções, mulher!… Deixa sós os que desejam procriar e fecha a porta! Tosse e exclama “Oh!”, se aparecer alguém. (…)

É de se imaginar o sucesso destas falas entre aqueles que frequentavam o Globe Theatre para assistir às peças de Shakespeare, às quais, se não faltavam questões profundas como ser ou não ser, não faltavam também, como atestado de sua alta qualidade literária, os importantes fatos pequenos, os grandes acontecimentos da vida cotidiana. Assim veremos o dramaturgo manejar com genial habilidade a circunstância de ter ido parar nas mãos de Cássio (3) um banalíssimo lenço com que Otelo presenteara Desdêmona – banalíssimo, aos nossos olhos, naturalmente. Na época, os lenços, anéis, braceletes, pentes, fitas, pequenos espelhos, colares de pérolas, cintos e ligas eram presentes de amor (6). Otelo, a partir daí, passa sofrer com a desconfiança de que a esposa o trai.

No Séc. XVI, o marido traído sentia-se na obrigação de punir a esposa com a morte, embora a ele ficasse assegurado todo o direito ao adultério (só no XVI…?). No caso de a mulher adúltera ser apenas abandonada e não morta, não poderia casar-se novamente, tendo como último recurso reclamar o dote e voltar desonrada para a casa dos pais ou, então, ingressar em um convento que sempre esperava a doação de seu dote (1). Em face do suposto adultério de Desdêmona, Otelo se encoleriza até causar-lhe a morte.

Desdêmona – Por que falai tão baixo assim? Não estás passando bem?

Otelo – Estou com uma dor na testa, aqui.

Hábil manejador do diálogo, iluminado pelo talento que tinha, Shakespeare intuía o momento exato de usar uma linguagem dura, em consonância com o grau de realidade que a cena exigisse. Desse modo é que o dramaturgo, entre frases farfalhantes e conjecturas poético-filosóficas, animava antológicos personagens que, se falavam das culminâncias do amor e dos impasses do ser, também falavam de sexo. Diante da aura solene e clássica, quase circunspecta, que hoje possui a obra shakespeareana, pode parecer difícil à generalidade dos leitores que, em meio a um drama, ele se refira à sífilis, por exemplo, doença venérea tão repugnante naqueles tempos. Segundo as notas que acompanham os textos, a sífilis fazia cair a abóbada palatina e deixava o doente fanhoso, sendo também conhecida como coroa francesa ou mal francês, mal das Gálias, pois fazia cair também os cabelos, principalmente no alto do crânio, formando como que uma coroa. Vejamos, então como Shakespeare, no curso dos diálogos, trabalha estas informações em Otelo (3).

Cássio – Tocai aqui, mestres (..). (Música. Entra o Bufão).

Bufão – Que é isto, meus maestros? Será que vossos instrumentos estiveram em Nápoles, para que ficassem falando assim pelo nariz?

E no diálogo entre Novelo e Marmelo:

Novelo – Representarei meu papel com tua barba cor de palha (…) ou com a cor da coroa da França, perfeitamente amarela.

Marmelo – alguns vezes, as coroas de França não têm cabelo nenhum, e, deste modo, teria que representar sem barba (..).

A prática do adultério é referida inúmeras vezes pelo uso de uma linguagem realista, que, fora do contexto cênico, poderia parecer chula e grosseira, mas que, manejada por Shakespeare, ganha o estatuto de necessária. Note-se como se dirige Graciano à esposa Nerissa (6) .

Graciano – Eras o ajudante que deveria tornar-me cornudo?

Nerissa – Sim, mas o ajudante não tem intenção de fazer-te tais coisas. (…)

Mais curas ainda, com possíveis intenções cômicas, são as referências ao ato sexual em Otelo, o Mouro de Veneza (3).

Iago – Pela chagas de Cristo, Senhor! (…). Agora mesmo (…), um velho bode negro cobrindo vossa ovelha branca.

Brabâncio – Quem és tu, miserável pagão?

Iago – Sou alguém, Senhor, que vem dizer que vossa filha e o Mouro estão agora formando o animal de duas costas.

Malícia, talento, competência narrativa, consciência dramatúrgica condensam-se na história de Antônio (9). Este mercador, cuja riqueza estava toda em alto mar, a bordo de seus muitos navios, compromete-se como fiador do amigo Bassânio, que estava em sérias dificuldades financeiras. Antônio assina com o judeu Shylock um tratado segundo o qual se obrigava a obedecer aos termos de estranha cláusula:

Shylock – (…) Vinde comigo a um notário, lá assinarei simplesmente uma caução. E, por brincadeira, será estipulado que, se não pagardes em tal dia, em tal lugar, a soma ou as somas combinadas, a penalidade consistirá numa libra exata de vossa bela carne, que poderá ser escolhida e cortada de não importa que parte de vosso corpo que for de meu agrado.

Astuciosamente, até quase o final da peça, Shakespeare permite ao leitor que fantasie à vontade a parte do corpo de Antônio da qual sairia o pedacinho correspondente a uma libra de carne, devida a Shylock. E, só no final, esclarece que sairia da parte mais próxima ao coração.

 

 


REFERÊNCIAS
(1) DURANT, Will. A Renascença. 2ª ed., vol. V. Rio de Janeiro: Record.
(2) SHAKESPEARE, William. O Sonho de uma Noite de Verão. In: Obra Completa. Vol. II. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1989.
(3) _____ . Otelo, o Mouro de Veneza. ______, vol. I.
(4) ______. Antônio e Cleópatra.______, vol. I.
(5) ______. O Mercador de Veneza. _____, vol. II.
(6) RANUM, Orest. In. História da Vida Privada. Vol. III. Org. Philippe Ariès e Roger Chartier. São Paulo, Companhia das Letras, 1991.