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O sociólogo polonês Zygmunt Bauman (2004) em vários de seus livros tem demonstrado que na atualidade, as relações humanas estão cada vez mais difíceis, o mesmo acontecendo com as relações entre parceiros amorosos. Quando são abordados os relacionamentos afetivo/sexuais parece paradoxal que, apesar do acesso a muitas informações e receitas de como comportar-se, muitas pessoas ainda encontram dificuldades de desenvolverem uma vida amorosa satisfatória.

Na clínica psicanalítica, sessão após sessão escutamos na fala dos analisantes a demonstração de que as relações, muitas vezes, como disse Freud (1930/1997), se estabelecem convivendo com o insuportável deste mal estar. Os parceiros amorosos não se compreendem e nem se escutam. Lacan (2007) diz que há um mal-entendido entre os sexos, pois a estruturação da sexualidade masculina difere da estruturação da sexualidade feminina, o que ajuda a levar a psicanálise a realizar uma leitura pessimista e sem “remédios” da presente realidade quando abordada sob o viés do discurso da ciência. Mas pode haver parcerias sintomáticas entre os sexos muito bem sucedidas, o que está longe de haver é a propalada “harmonia” entre os sexos.

Como a Psicanálise é a teoria de uma prática, ela rejeita a normalização e a análise promove uma dessubjetivação e desendentificação e por isto fica longe da noção de cura imposta pelo discurso dominante da ciência. Ela busca promover a produção do novo e no processo de diferenciação da subjetivação, acredita se que os sujeitos sejam capazes de lidar com os conflitos inerentes à vida e às relações amorosas de outra forma, menos sofrida.

Em 1970, Jacques Lacan pronunciou pela primeira vez sua famosa afirmação “Il n’ya pas du rapport sexuel’ traduzida por “não existe relação sexual’. A psicanálise de orientação lacaniana, não se refere aí sobre o intercurso sexual entre as pessoas, mas nega que exista uma relação harmônica entre a posição masculina e a posição feminina. Este fato faz com que o mito de Aristófanes no Banquete de Platão, que relata a divisão do ser humano em duas partes iguais e que, desde então, essas partes aspiram incessantemente encontrar sua metade perdida, não expresse a realidade humana.

A Psicanálise parte do princípio de que a vida de cada sujeito é regida pelas pulsões às quais está submetida, na busca de satisfação. Sigmund Freud e depois Jacques Lacan, mostraram que por ser o sujeito um ser de linguagem, seus instintos (programas biológicos) foram descaracterizadas pela fala à qual ele é submetido pela cultura e por isto, transformaram os relacionamentos afetivos, impregnando-os de mal estares.

Para a compreensão desta visão é necessário fazer uma distinção entre instinto e pulsão. Segundo o Dicionário Priberam (2016), o termo instinto tem como definição: “Impulso espontâneo independente de reflexão; tendência; aptidão inata”. A definição de Pulsão segundo a mesma fonte é:

A força no limite do orgânico e do psíquico que impele o individuo a cumprir uma ação com o fim de resolver uma tensão vinda do seu próprio organismo por meio de um objeto, e cujo protótipo é a pulsão sexual.

É possível afirmar que o instinto faz parte de uma programação biológica herdada e característica de cada espécie e que varia pouco de indivíduo para indivíduo e possui objetivos específicos, como por exemplo, manter a vida do indivíduo (mecanismos de sobrevivência como a fome e sede), e promover a preservação da espécie como o instinto de reprodução que só acontece quando a fêmea está no cio. O instinto tem sempre um objeto externo que promove a homeostase do individuo.

O sujeito da psicanálise não está submetido apenas às programações biológicas, mas também à organização familiar e social na qual está incluso, buscando pela homeostase antes mencionada, o equilíbrio entre prazer e agressividade, amor e ódio, ciúmes, egoísmo e outros fatores internos. Os representantes psíquicos dos instintos – impulsos, tendências, desejos e fantasias inconscientes e conscientes – não sofrem programação pela natureza, mas sim, pela cultura e se encontram afetiva e efetivamente ligados entre si. Como diz Miller (2008), “Na espécie humana não existe instinto nem convergência entre desejo, gozo e amor que conduza ao parceiro apropriado”. Os conceitos de pulsão e de libido trazem importante compreensão do amor para os estudiosos da psicanálise.

A pulsão é uma ordem dinâmica que se expressa numa força motriz que leva o organismo a tender para um alvo, ou como Freud (1997, p. 865) define:

Um conceito situado na fronteira entre o mental e o somático, como o representante psíquico dos estímulos que se originam no corpo – dentro do organismo – e alcança a mente, como uma medida da exigência feita à mente no sentido de trabalhar em consequência de sua ligação com o corpo.

Freud (1997) afirma que as pulsões são o fundamento de toda a atividade, dando ênfase ao sentido de princípio geral do ser vivo, impulso genérico, indeterminado e impessoal. A pulsão é uma força constante que se manifesta através dos afetos, das imagens e, sobretudo, através da linguagem, pois segundo Lacan (2007) as pulsões se estruturam em termos de linguagem. O destino de uma pulsão está associado à busca da satisfação que se caracteriza como um gozo.

Outro conceito fundamental e que está enlaçado com os conceitos anteriores é o de libido. Para Freud (1921) (2007, p. 115):

Libido é expressão extraída da teoria das pulsões. Damos esse nome à energia, considerada como uma magnitude quantitativa (embora na realidade não seja presentemente mensurável), daqueles instintos que têm a ver com tudo o que pode ser abrangido sob a palavra ‘amor’. O núcleo do que queremos significar por amor consiste naturalmente (e é isso que comumente é chamado de amor e que os poetas cantam) no amor sexual, com a união sexual como objetivo.

As fantasias inconscientes e conscientes que estruturam a vida psíquica do sujeito são determinantes para dar sentido aos seus desejos e pela busca dos objetos externos, entre eles os parceiros afetivos. O psicanalista Marco Antônio Coutinho Jorge (2010), afirma que a fantasia é definida como resultante da articulação entre o inconsciente e a pulsão. A fantasia, no entanto, pode ter destinos diferentes: pode servir para promover a nossa homeostase psíquica e, também, levar à criação artística e a grandes inventos, mas pode ao contrário promover sofrimento psíquico e mesmo prejuízos à sociabilidade humana quando serve à fabricação de graves sintomas.

Lacan (2007) fez uma diferenciação fundamental para a compreensão do sujeito ao estabelecer os conceitos de gozo e prazer, pois mesmo sendo formas de expressão de energia psíquica possuem funções diferenciadas. Enquanto o prazer baixa as tensões psíquicas ao menor nível possível e com isto iniciando uma busca, o gozo produz o aumento das tensões provocando uma busca de satisfação destas, através da repetição da descarga explosiva.

Para entender as relações humanas é preciso recorrer a dois outros conceitos lacanianos, o grande Outro e o pequeno outro. O grande Outro é da ordem do simbólico (que abranda a tensão agressiva entre os sujeitos) e pode ser equiparado à linguagem, à cultura e à lei. O pequeno outro é da ordem do imaginário e é um reflexo e uma projeção do próprio sujeito. Se este outro for “igual”, se torna objeto amado, se for “diferente” se torna odiado. Na ordem do imaginário as relações são simétricas e sempre está presente uma tensão agressiva. Na ordem simbólica todo o significante necessita de outro para se tornar significado e por isto, um dos sujeitos da parceria busca ser o que o outro sujeito quer que ele seja, estabelecendo uma relação assimétrica, o que determina a existência de um pedido de amor através da palavra, ou seja, um pedido de reconhecimento.

A terceira ordem é a do real que é o estatuto do gozo. No seu seminário de 1998 o psicanalista Jaques Alain Miller (2008) propôs a fórmula do parceiro-sintoma. Esta abordagem designa o real como um impossível de ser suportado. O real pode se manifestar através dos pensamentos nos sujeitos obsessivos, através do corpo nas histéricas e também por um parceiro da vida amorosa ou familiar. Nesta perspectiva, o parceiro-sintoma pode designar uma mulher para um homem, assim como um homem para uma mulher, ou mesmo um homem para outro homem ou uma mulher para outra mulher.

A Psicanálise não aborda o sintoma como uma simples disfunção que é preciso curar, pois o sintoma contém o traço mais singular do sujeito e o que o diferencia de todos os demais sujeitos. Seu sintoma é sua singularidade, ele é uma solução que, para cada sujeito, supre a relação sexual que não há, por uma formação de gozo originada de seu inconsciente.

O que a Psicanálise, que é oposição à normalização e à submissão da subjetividade presentes no discurso da ciência, propõe para lidar com os conflitos de forças insuperáveis e inerentes à vida? Estando a Psicanálise longe de um ideal de cura, sua prática está implicada na constituição de formas de subjetividade ou modos de existência que sejam capazes de lidar com os conflitos através do vir a ser das subjetividades, produzindo o novo e a diferença em cada sujeito, para que este possa encontrar soluções próprias para seus conflitos.

Partindo-se, portanto, do título que contempla esta breve reflexão, permitimo-nos reforçar o dito de Lacan (2007) de que “Não há relação sexual” evidenciando-se que, como a relação sexual entre humanos é cheia de outros significados secundados pelas fantasias e, portanto, obedecendo a uma absoluta singularidade de cada sujeito, sendo isto que produz o mal estar entre as parcerias, a relação sexual é muito maior do que a mera genitalidade.

 Ernesto Friederichs Mandelli[1]

 

REFERÊNCIAS
BAUMAN, Zygmunt. Amor Liquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio Janeiro: Zorge Zahar Editor, 2004.
DICIONÁRIO PRIBERAM. Instinto. Disponível em: http://www.priberam.pt/.
______. Pulsão. Disponível em: http://www.priberam.pt/.
FREUD, Sigmund. Duas histórias clínicas (O ‘pequeno Hans e o homem dos ratos. Versão Eletrônica da Edição Standard das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. v. 10. Rio de Janeiro: Imago, 2013
_______. Três Ensaios Sobre a Teoria da Sexualidade. Rio de Janeiro: Imago, 1997.
JORGE, Marco Antonio Coutinho. Fundamentos da Psicanálise de Freud a Lacan: a clínica da fantasia. v. 2. Rio de Janeiro: Zahar, 2010.
LACAN, Jacques. O mito individual do neurótico. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007.
MILLER, Jacques-Alain. El Partenaire-Síntoma. 1ª ed. Buenos Aires: Paidós, 2008.

[1] Psicanalista – Participante da Delegação Geral – Maranhão.