Joselle Couto e Lima*

O mal-estar contemporâneoDiscutir o problema do “mal-estar”, apesar de ser um tema que partiu de uma teorização de S. Freud em sua obra “ O mal-estar na civilização” em 1930, ainda é um tema de grande interesse para se compreender os problemas que implicam o sujeito contemporâneo em torno de um novo mal-estar. Considerando as problematizações apontadas por Zigmunt Bauman a respeito de Sigmund Freud, em sua obra “O mal-estar na pós-modernidade”, quando apresenta um problema na forma como Freud compreende o “mal-estar” provindo da entrada do sujeito na cultura, a partir de uma renúncia pulsional, torna-se mais fácil compreender de que “mal-estar” estamos tratando quando nos referimos à contemporaneidade.

Para Freud, a entrada na cultura se dá pela instauração de um recalque representado pela instauração do Complexo de Édipo, ocorrido em dois tempos: a primeira ordem instaurada pela vontade arbitrária do pai, e a ordem pela via da simbolização, erigida através do sentimento de culpa, em substituição da presença do pai, após o seu assassinato.  A cultura na época vitoriana era caracterizada como aquilo que exige uma renúncia em favor dos sentimentos de ordem, beleza e limpeza. O que a civilização exige em função destes sentimentos, sacrifica os objetivos mais originais (princípio do prazer) que estariam na ordem da sexualidade (satisfação pulsional). Aquilo que subverte o princípio do prazer em razão da ordem social seria o princípio da realidade.

Sem querer aprofundar a questão sobre o problema se de fato estamos ou não na pós-modernidade, o que é relevante é que não podemos deixar de concordar, como sugere Bauman, que a sociedade na qual vivemos não exige mais do sujeito um sacrifício e uma restrição ao seu gozo como no período em que Freud tomou como referência para tratar da entrada cultura. Segundo Bauman (1998): “Nossa hora, contudo é a da desregulação, o princípio da realidade, hoje, tem de se defender no tribunal de justiça onde o princípio do prazer é o juiz que a está presidindo.”

A modificação da função paterna do período de Freud para o período no qual estamos vivendo implica uma modificação grandiosa na dinâmica pulsional do sujeito. A transformação sofrida pela cultura ocidental, no seu campo simbólico, com o surgimento do discurso da ciência e do capitalismo, cada vez mais foi se intensificando, provocando uma transformação no circuito pulsional, que agora estaria associado à logica do excesso e não da renúncia.

Enquanto que no período de Freud o “mal-estar” estaria articulado a uma renúncia, a uma restrição de gozo, em função de uma lei moral, representada pela figura paterna, em que levou as mulheres ao consultório com os sintomas histéricos. Do final do século XX ao século XXI, as transformações da ciência e o avanço do capitalismo provocaram uma transformação profunda na forma como o homem pôde lidar com o seu próprio corpo. Isto, segundo Laurent (2000) fez Lacan estabelecer uma relação entre a transformação da civilização feita pela ciência prescritiva e a forma como isto afetou a maneira do homem organizar o seu próprio corpo. A ciência exige algo do corpo que o homem o organiza de uma outra forma para, assim,  suportar a nova civilização científica. É desta lógica que podemos identificar os novos sintomas e a instalação de um novo mal-estar. Há um imperativo de gozo que se impõe para o corpo próprio, transformando-o, sem tréguas em um objeto de consumo. É preciso que a ciência dê um sentido ao corpo, como por exemplo: nomeá-lo, classificá-lo, trazendo novos padrões de beleza, normalidade, moralidade, para assim dar uso aos seus objetos. O mal-estar é sentido como um excesso, há um gozo que impera no corpo, onde o símbolo não suporta representar.

Quando Lacan começa a fazer uma releitura nos textos freudianos, repensa a função da figura paterna, como instituidora da entrada da lei, e acrescenta outra forma de compreender a função paterna, que a partir de então será considerada como uma metáfora que representa a função da linguagem como instituidora da entrada na lei e na cultura. A problemática do Nome-do-pai, vai ser deslocada do campo imaginário para o simbólico onde passa a assumir uma função metafórica. Como significante mestre que produz efeito de significação, ao ser articulado com outros significantes.  A psicanálise lacaniana fala sobre como a palavra modelou o corpo de cada um de nós, de cada ser falante: o sujeito é afetado por uma linguagem. Somos atravessados por uma linguagem que faz inscrição em nossos corpos, o que Lacan chamou de falasser (parlêtre).

Num sentido mais geral, segundo Lacan, a função fundamental do Édipo aparece coextensiva à função paterna. Trata-se, aqui, de uma função que deve ser entendida como algo radicalmente distinto da presença paterna, bem como de suas ocorrências negativas, tal a ausência, a carência e todas as outras formas de “inconsistências” paternas. Esta função é tomada por Lacan como precedente da determinação de um lugar, ao mesmo tempo em que este lugar lhe confere uma dimensão necessariamente simbólica. Da mesma forma, por ser função simbólica, pode prestar-se a operação metafórica. É neste sentido que Lacan encontra um fundamento para interrogar a função paterna nestes termos: “O pai não é um objeto real, então o que é? (…) O pai é uma metáfora. O que é uma metáfora? É um significante que vem no lugar de outro significante (…). O pai é um significante que substitui um outro significante. E aí está o alcance, o único alcance essencial do pai ao intervir no complexo de édipo” (DOR,  1990, p.78)

Deste modo, a queda da metáfora paterna representa um “desarranjo da ordem simbólica, cuja pedra angular, que é o Nome-do-pai, se trincou. A pedra angular que, como disse Lacan, com extrema precisão, é o Nome-do-pai segundo a tradição” (MILLER, 2014).

*Filósofa, participante da Delegação Geral Maranhão

 

Referências Bibliográficas:

DOR. J, Introdução à leitura de Lacan/o inconsciente estruturado como linguagem. Trad. Carlos Eduardo Reis. Porto Alegre: Artes Médicas, 1990.

BAUMAN, Z. O mal-estar da pós-modernidade/ Zigmunt Bauman. Trad. Mauro Gama/Claudia Martinelli Gama. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998.

FREUD, S. O mal-estar na civilização. Trad. Jayme Salomão. v. XXI.

LAURENT, Eric. As paixões do ser. Escola Brasileira de Psicanálise-Bahia/Instituto de Psicanálise da Bahia. Bahia: 2000.

UM REAL PARA O SÉCULO XXI/Ondina Machado, Vera Lúcia Avellar Ribeiro, org.- Belo Horizonte: Scriptum, 2014.