007RESUMO:

Segundo Judith Butler (2002), os corpos somente surgem, somente perduram, só vivem dentro das limitações produtivas de certos esquemas regulatórios, os quais produzem sua inteligibilidade. Tal como os corpos; o amor no Ocidente se constrói como um ideal regulatório de gênero.

PALAVRAS-CHAVE: amor, gênero, Queer, subversão.

 

ABSTRACT:

According to Judith Butler (2002), the bodies only arise, only endure, only live within the productive limitations of certain regulatory schemes, which produce their intelligibility. As the bodies; love in the West, is built as a regulatory ideal of gender.

KEYWORDS: love , sex, Queer , subversion

 

  1. Introdução

 

            O objetivo deste artigo é mostrar o amor enquanto prática regulatória, que produz os corpos que governam, a partir de aparato semiótico e de sistemas de representação que atribui significado, identidade, valor, prestígio, status dentro da hierarquia social. Essa prática regulatória se liga ao processo de materialização e se estabiliza ao longo do tempo para produzir o efeito de fronteira, de fixidez e de superfície, que nos induz a leitura normatizada do gênero, a partir (para os objetivos analíticos deste artigo) de um feminino essencializado e vocacionado ao amor.

A construção semiótica do feminino como sinônimo de amor e ao mesmo tempo como o “irrepresentável […]. O sexo que não pode ser pensado, uma ausência e opacidade linguística” (BUTLER, 1997, p.28) – um ser para o “outro”, está na base do processo de construção da inteligibilidade, dos processos de nomeação e compreensão do que deveria ser o amor no Ocidente e as próprias mulheres.

 

2.1 – Do vazio essencial

Tal como os corpos; o amor no Ocidente se constrói como um ideal regulatório de gênero, para tanto, utilizo-me dos recursos ficcionais (neste caso especifico mitológico) e metafóricos que caracterizam muito da escrita e analítica Queer, como estratégia de compor uma narrativa em que se evidencie que “a simples nomeação da palavra amor tem um destino distinto para um ou outro sexo, pois a mesma palavra significa um efeito de coisas bem distintas para homens e mulheres” (BEAUVOIR apud LIS, 2003, p.15). Isso é possível porque a identidade de gênero é uma ficção da metafisica da substância; um efeito artificial que se reveste de naturalidade e produz uma visão de estabilidade, que só se torna questionável em sua construção, quando se quebra o binarismo de sexo/gênero (BUTLER, 2008) ou quando se consegue mostrar os sujeitos e seus processos de formação, que aqui, inicia-se com a produção de uma metafísica amorosa.

  1. a) DA METAFÍSICA AMOROSA

Segundo Ana Braz (2005), a narrativa épica mais antiga que se tem do amor é a de Hesíodo, composta no século VIII a.C. Nela, o amor, assim como os demais deuses, nascem a partir do Caos (Káos), do vazio essencial, do espaço incomensurável de matéria eterna e rudimentar que pertence à esfera do não ser.

Considero, a partir da perspectiva de Claude Lévi-Strauss (1978, p. 35), que o pensamento mitológico desempenha o papel de pensamento conceptual. Assim, Eros emerge para a civilização Ocidental como uma forma misteriosa e profunda, como algo inexplicável e, cuja universalidade, precisa ser compreendida, a partir do reconhecimento de experiências emocionais passadas ou diferenças em fatos afastados no tempo e no espaço; ensinados e aprendidos (COSTA, 1998, p.13). O que me permite tomá-lo enquanto ideal regulatório que produz um objeto, um corpo e uma subjetividade amorosa ao longo da história (BUTLER, 2002).

É somente com o nascimento da filosofia que o “amor” ganha dimensão humana; compreensível, apenas aos profetas e filósofos, dado o seu caráter ainda metafísico. O trabalho mais importante nesse sentido são os escritos de Platão, O Banquete, possivelmente produzido no ano de 385 a.C.

Destaco em o Banquete (PLATÃO, 2009, p. 65-67) a narrativa de Aristófanes sobre o amor, que fala de três gêneros: masculino, feminino e andrógeno. Os andrógenos eram seres humanos que possuíam uma só cabeça, mas com duas faces, quatro braços com quatro mãos e quatro pernas com quatro pés e tinham as “partes pudendas” duplicadas. Eram seres ágeis, audaciosos e de tão entusiasmados com seus poderes, começaram a preparar uma rebelião contra os deuses. Zeus já havia reprimido uma revolta anterior e extinto a raça de gigantes; não queria repetir o drástico castigo com os andrógenos, então os partiu ao meio criando dois seres humanos pela metade e os espalhou pelos quatro cantos do mundo. Inseguros com sua situação de incompletude e fragilizados, os indivíduos que encontravam suas metades se abraçavam e morriam embolados uns aos outros, na tentativa vã de tornarem-se um só ser. Aqueles que se buscavam também iam se destruindo e se desesperando, abatidos pela impossibilidade do reencontro. Compadecido diante desse quadro, Zeus decidiu colocar os órgãos reprodutores à frente dos corpos desses novos seres, dessa forma eles teriam como se reproduzirem a cada encontro ou em cada nova busca.

Nessa versão destacada, o amor emerge como condição ontológica de sentido, eminentemente humano, onde o vazio essencial já nasceria com todos os seres, uma vez que, ele (o vazio) não seria mais do que a nostalgia de um tempo extremamente longínquo; a lembrança de completude original a ser perseguida pelos sujeitos. Para Anna Lis (2003), a androgenia é a expressão de totalidade de uma fórmula arcaica e universal sobre a existência dos contrários. Além disso, o mito faz referência a uma condição espiritual das origens, do estado de um ser de absoluta plenitude ou pura unidade, sendo compreendida como: a) “um momento” precedente a diferenciação sexual, por isso os amantes encarceram-se reciprocamente para criarem um todo em si mesmo ou, b) uma negação da diferença sexual, como a impossibilidade de amar a outro ser diferente. A segunda perspectiva, Anna Lis se apoia na psicanálise de Julia Kristeva (apud LIS, 2003, p. 63) que vê cada sexo como símbolo do Outro que lhe dá sentido e que tem como tendência a síntese, sendo o amor à categoria que cria o reconhecimento dos signos. Assim, o andrógeno seria uma fantasia que serve para negar as diferenças de gênero ao mesmo tempo em que produz um feminino absorvível, oculto, um falo disfarçado de mulher.

Assim, o mito da androgenia, torna-se um importante elemento da matriz cultural que sustenta as identidades de gênero, pois torna os gêneros inteligíveis, ao mesmo tempo em que exige que certos tipos de “identidades”, como a homossexual, não possam “existir”. Esse jogo de “presença e ausência” pode ser interpretado na simbologia genital, ou seja, a colocação dos órgãos genitais à frente dos seres marca o desenvolvimento de um ideal heteronormativo, falocêntrico e reprodutivo.

A visão de um amor-paixão, mesmo estando presente em quase todas as culturas humanas, conforme o trabalho de Helen Fischer (2006), que em seu levantamento etnográfico, comprova a existência do amor romântico do total de 166 culturas diferentes, presente em 147, quase 90% delas. Ela também realizou análise de componentes bioquímicos, a fim de mostrar que o amor produz substâncias químicas no cérebro, que produziriam uma constelação de emoções; que possibilita compará-lo ao vício.

O amor romântico é um “pico” tão eufórico, porque sua paixão é extraordinariamente difícil de controlar, e porque ele produz ânsia, obsessão, compulsão, distorção da realidade, dependência física e emocional de mudança de personalidade e perda de autocontrole, muitos psicólogos consideram o amor romântico um vício – um vício positivo quando é retribuído, uma fixação negativa horrível quando o amor é rejeitado e não se consegue renunciar a ele. Nosso experimento com fMRI em pessoas apaixonadas apoiam esta proposição: a amor romântico é uma droga viciante. (FISCHER, 2006, p.228).

 

A formulação de um amor como vício tem seu marco teórico no século XIX, com a consolidação do amor romântico (século XVIII), que por sua vez, tem suas raízes entre os séculos XI e XII, na modalidade do amor cortês.

  1. b) DO AMOR CORTÊS À GRAMÁTICA AMOROSA MODERNA.

O amor cortês é definido como um fato sociossentimental (BORODINE apud COSTA, 1998, p. 40), que faz referência a três tipos de amor cortês: o amor-abandono, o amor-cortês (propriamente dito) e o serviço de amor. Esse ethos amoroso tem sua personificação no romance de Tristão e Isolda, que narra o sofrimento implacável, o desencontro contínuo, a determinação do destino e a impossibilidade de manutenção da relação. Esses elementos são representativos do amor-paixão ou amor-romântico, que se modula na idealização da dama, na emulação de um desejo erótico intenso e efêmero, ao mesmo tempo trágico, porque impossível.

Segundo Jurandir Costa (1998), a mundanização do amor e a revalorização da figura da mulher foram responsáveis por um enorme enriquecimento do vocabulário sentimental, pois obrigava os partidários desse amor a narrarem suas experiências emocionais em uma nova linguagem. Além disso, ao dissociar a ideia de amor, tanto de um Bem Supremo (como idealizava Platão) como do vínculo conjugal, o amor cortês preparou as condições culturais para o florescimento do amor romântico; que se estabelece no século XVIII, após a derrocada do modelo Cristão de amor conjugal.

Segundo Jurandir Costa (1998), o amor romântico passa a ter um papel central no Ocidente, na configuração dos sujeitos modernos, mediante a delimitação entre o externo e o interno, e a produção de uma individualidade marcada pela consciência individual, e pela consciência social, no sentido de pertença, reforçado pelos laços de conjugalidade. O amor, desta forma, apresenta-se como um código de comportamento, um modelo de conduta que temos diante dos olhos quando aprendemos a amar. E mais que isso, o amor romântico se estabilizou como norma de conduta emocional na Europa, respondeu a anseio de autonomia e felicidade pessoais, pois se tornou sinônimo de praticamente tudo que se entende por felicidade individual: êxtase físico-emocional socialmente aceito e recomendado; segurança efetiva, parceria confiável, consideração pelo outro, disponibilidade para ajuda mútua, solidariedade sem limite, partilha de ideais sentimentais fortemente, aprovado e admirado, como constituição da família e a educação dos filhos. Portanto, trata-se de um ideal que foi colocado em um lugar exorbitante (COSTA, 1998), impossível de ser alcançado a não ser que um dos amantes seja negado. “Amar e ser correspondido é algo impossível, pois pressupõe uma ideia de sujeito que impede esta possibilidade” (SIMMEL, 1993 apud COSTA, 1998, p. 72).

Além disso, mesmo que esse ideal seja alcançado, sempre se estará sujeito a desgraças da perda do amor. Assim, a impossibilidade do amor, enquanto vivência concreta, cotidiana e eterna, só ganha o tom de grandiloquência trágica, quando olhamos para seu efeito, os amores perdidos, “não correspondidos”, ou seja; o amor sofrimento, pois é nesse momento que se torna evidente que “os sujeitos amorosos não podem abandonar os imperativos da “incomunicabilidade” derivada da maneira como são subjetivados” (COSTA, 1998, 73).

A experiência do amor romântico transformada em amor-sofrimento seria capaz de gerar um questionamento do seu ideal regulatório, entretanto, ele “encena”, performatiza novos significados e condições para que a normatividade se restabeleça. Interpreto que isso é resultado do deslocamento da ênfase do problema do modelo para o sujeito amoroso – É o sujeito que não consegue atingir o ideal, a insuficiente está nele e não na norma. Assim, ele se sustenta a partir de uma ética violenta, baseada na desigualdade de gênero e na negação da alteridade, pois obriga que um dos sujeitos seja anulado para que se crie a performance amorosa. Historicamente, o sujeito negado são as mulheres, pois o ideal regulatório opera pela absorção/negação de um sobre o outro a partir da ideia de fusão amorosa ou pela especialização/complementação binária dos sexos. Assim, atribuiu-se às mulheres o papel de seres emocionais, voltadas ao amor, para a maternidade e para o espaço privado, enquanto os homens seriam a razão, voltados para a conquista e para o espaço público e político. A idealização da mãe é um exemplo desse mecanismo, pois foi integrante da moderna construção da maternidade, e sem dúvida alimentou diretamente alguns valores propagados sobre o amor romântico. A imagem da “esposa mãe” reforçou o modelo de dois sexos das atividades e dos sentimentos (GIDDENS, 2002, p.53).

Ao afirmar que o amor é um fantasma e não uma experiência, Simone de Beauvoir (1967, p. 412), desvelou de forma original e sagaz as implicações e os “perigos” da normatividade amorosa. Seu pioneirismo analítico construiu uma complexa teia, em que elementos da psicanálise, da literatura e da filosofia foram encadeados e tornaram legíveis as dinâmicas de gênero, pois ao se referir ao feminino, ela reconheceu que se falava também do masculino, já que, os dois sexos são vítimas ao mesmo tempo do outro e de si- Os dois perpetram-se. Em uma linguagem butleniana, Simone de Beauvoir, mostrou que o amor, enquanto ideal regulatório cria um lugar de reconhecimento e inteligibilidade a partir de uma normatividade falocêntrica e binária de gênero. Em sua linguagem; o feminino é a imanência do masculino, pois “[…] para os homens a mulher não passa de um valor entre outros, querem integra-la na sua existência e não fundar nela uma existência inteira. Para a mulher ao contrário, o amor é demissão total em proveito de um senhor” (BEAUVOIR, 1967, p.410).

A imanência feminina se reproduz em uma espécie de eterno feminino, ligado a um aprendizado cultural de que para ser feliz é preciso ser amada e que para ser amada é preciso aguardar o amor. Assim, a mulher é a Bela adormecida no bosque, Cinderela, Branca de Neve, a que recebe e suporta, enquanto o masculino é apresentado como aquele que para conquistar sua “dama”, luta contra gigantes, mata dragões. Em uma simples metáfora; o feminino essencializado esta acorrentado, a espera de um príncipe salvador (BEAUVOIR, 1967, p.33), o que permite compreender que o ato amoroso exige das mulheres uma alienação profunda, semelhante ao amor místico, pois ambos conservam a existência abolida no seio do outro, como uma espécie de Narcisismo alienado (BEAUVOUIR, 1967, p.418), pois; na abnegação de si, no sofrimento amoroso é que de maneira perturbadora a mulher assegura para si mesma, os mais deliciosos triunfos; quer se trate de Deus ou de um homem. É a partir da constituição do amor como ideal regulatório, que o gênero se torna ação encarnada, na medida em que produz um modelo falocêntrico de subjetividade, de práticas de si – De assujeitamento.

Segundo Judith Butler (1997) o assujeitamento implica em uma subordinação fundacional, que se produz mediante a linguagem, como efeito de uma voz de autoridade que interpela o indivíduo. A interpelação do sujeito mediante o chamado inaugural da autoridade pressupõe não somente que já se produziu a inculcação da consciência, sendo esta, entendida, como um funcionamento psíquico da norma reguladora, que se constitui em uma operação especificamente psíquica e social do poder, o que leva a compreensão de que o assujeitamento se expressa, como uma paródia do poder, pois se trata de uma relação de ambivalência, já que, o sujeito é formado por uma vontade que se volta sobre si mesma, adotando uma forma reflexiva, o que significa assumir que a modalidade do poder se volta sobre si mesma, sendo o sujeito o efeito do poder em uma espécie de replica. Portanto, a sujeição é ao mesmo tempo subordinação e devir.

Essa perspectiva está presente na análise de Augusto Francisco (2008, p.41), quando este, considera que quando o sujeito está diante da necessidade de repetição do amor como um desempenho socialmente regulado, forma-se um efeito de identidade de amor que exclui o que essa identidade nega, mas que não deixar de ser amor. O amor assim, em sua repetição coativa, é uma materialização de práticas regulatórias, cujo fundamento é o corpo; que dentro dessa repetição se torna mecanismo, superfície de apropriação, território fechado e opaco, inacessível, impensável sem a insígnia do gênero, por isso, ele deve ser tomado como o primeiro espaço de manifestação do poder (SCOTT, 1995); pois, “tornar-se um gênero é um laborioso processo de tornar-se naturalizado, processo que requer a diferenciação de prazeres e de partes corporais, com base em significados e características de gênero” (BUTLER, 2003, p.107).

Portanto, é possível afirmar a produção de um corpo-amoroso, de uma erótica romântica que se revela em certos conjuntos abertos de preceitos e recomendações os quais desenham um corpo amoroso que; localiza seus prazeres em pênis, vagina, seios ou emanam deles e os tornam elementos, focos concebíveis de prazer que se apresentam como ideal normativo de um corpo e já portador de um gênero em especifico (BUTLER, 2003), chamado a performatizar uma determinada erótica.

No século XIX e XX se torna possível localizar na anatomia o destino psicológico-moral dos viciosos e virtuosos, e na medicina, todas as respostas para o desenvolvimento de uma “sociedade saudável”. E nesse sentido, os homens do “establisment”-médicos, filósofos, cientistas – trataram o que ficou conhecido como a “Questão da Mulher”, que aparecia em livros e artigos – “[…] enquanto as mulheres estavam descobrindo novas perguntas e tendo novas dúvidas, os homens descobriam que as mulheres eram a própria dúvida […]” (EHRENREICH e ENGLISH, 2003, p. 17). Segundo Barbara Ehrenreich e Deirdre English (2003) a resposta machista do século XIX-XX sobre a “Questão da Mulher” na sociedade foi simples: São racionais e românticas. A primeira resposta consiste na admissão de que as mulheres na sociedade moderna deveriam gozar de igualdade de posição em relação aos homens, uma vez que, estavam inseridas na condição de humanidade. Assim, tratava-se de uma resposta baseada em um racionalismo sexual, que se construiu ao longo das transformações político-sociais em função das revoluções industriais e dos ideários modernos, o que não significa afirmar que seja um horizonte efetivo de paridade de direitos entre gênero. Mais ainda; temia-se que a mulher se transformasse em uma versão feminina do “homem econômico” e assim, o mundo se transformasse em um lugar sem amor, sem calor humano.

O romantismo sexual que asseguraria que o lar seria o refúgio construído pelas mulheres contra os perigos do mundo externo, nesse está se torna a segunda resposta. Portanto, tem-se o estabelecimento de uma normatividade de gênero, onde segundo Anthony Giddens (1993, p.53-54) as mulheres passam a ser reconhecidas pelos homens como sendo diferentes; incompreensíveis. Entretanto, tendo um elemento de novidade: A associação da maternidade com a feminilidade; interpretadas aqui, como performances de gênero que permitia ao homem exercer o domínio sobre si e sobre sua esposa, governando pela persuasão, enquanto que a mulher seria o império da suavidade, suas ordens seriam caricias e suas ameaças lágrimas – a mulher governaria pela emoção (EHRENREICH e ENGLISH, 2003) e nesse sentido, temos a legitimidade do “poder feminino”, sendo articulado pela emotividade.

Das duas respostas dadas a “Questão da Mulher”, a resposta vitoriosa foi a do romantismo sexual, onde a ideologia dominante do século XIX-XX definia a mulher como uma eterna alienada e o lar como refúgio. Assim a mulher também poderia ser a operária ideal, que aceitava trabalhar por baixos salários, submeter-se, doar-se quando chamada para a indústria e depois voltar sem problemas ao seu lar quando não mais fosse necessária. Portanto, a ideia do amor romântico atua nesse cenário como um ideal regulatório associando as mulheres à subordinação do lar e ao seu relativo isolamento do mundo externo.

Outro aspecto relevante é as formas de sentir as tensões do amor, “para os homens, as tensões entre o amor romântico e o amour passion eram tratados separando-se o conforto do ambiente doméstico da sexualidade da amante ou da prostituta. O cinismo masculino foi prontamente amparado por essa divisão” (GIDDENS, 1993, p. 54). Sendo esta possibilidade inviável para as mulheres; restando a elas: a) A alienação a partir dos romances, que alimentavam a viabilidade do modelo romântico ao mostrar “sapos”, “feras”, que se transformavam em príncipes, parceiros ideais pela grande capacidade transformadora de amar das heroínas românticas ou; b) As enfermidades femininas, que perdurou em meados do século XIX-XX, manifestas sob a forma de “neurastenia”, “prostração nervosa”, “hiperestesia”, “inadequação cardíaca”, “histeria”. Os sofrimentos dessas mulheres eram bem reais, mas apesar disso, tornou-se um ideal, um estilo de vida para uma determinada classe de mulheres. “A senhora delicada e rica, dependente absoluta do marido, criou o ideal romântico sexual de feminilidade para as mulheres de todas as classes” (EHRENREICH e ENGLISH, 2003, p. 119).

A construção da feminilidade como doença, corresponde, ao que ficou conhecido como romantismo mórbido, que criou as bases para que a medicina do século XX definisse o estado normal das mulheres como doentio. Assim, a medicina “descobria” que as funções femininas como a menstruação, eram patológicas. Essa generalização se fazia a partir da total desconsideração de milhares de mulheres trabalhadoras, que por mais cansadas e doentes que estivessem; não tinham tempo e nem dinheiro para manter um culto a enfermidade.

As feministas do século XX denunciaram que o adoecimento das mulheres era uma estratégia de obtenção de lucro pelos médicos sobre as damas ricas. Mas também reconheceram a ambivalência desse mecanismo, pois o culto e a epidemia de histeria entre as mulheres do século XIX-XX, mostrava, um mecanismo psíquico interessante, de que tanto as mulheres aceitaram a “doença” como encontraram nela uma forma de revolta contra o papel de subordinação que viviam na sociedade. Assim, a doença tornou-se uma forma de rebelião feminina (EHRENREICH e ENGLISH, 2003).

A rebelião do corpo feminino doente, leva ao reconhecimento e avaliação de que a “Questão da mulher” não era mais o que ela podia fazer, mas o que devia fazer. Neste momento à ciência dos especialistas depois de legitimarem a ação sobre o corpo feminino passam a atuar em outras esferas como o lar e a educação das crianças, as questões urbanas a partir de políticas higienistas, preocupadas com uma suposta fragilidade dos laços familiares e a necessidade de conversão às normas médicas.

Segundo Jurandir Costa (2004), no processo de formação da sociedade brasileira do século XIX, o dispositivo médico inseriu-se no regime de transformação familiar, compensando as deficiências da lei. Tais intervenções eram feitas a partir de políticas higienistas que ao idealizarem a família, desenvolviam uma nova moral da vida e do corpo. Para legitimar sua intervenção, a medicina converteu o amor em sinônimo de instinto de propagação. Assim, a alma era definida ora como sede de paixões, ora como alvo sensível e vulnerável aos efeitos morbíficos destas mesmas paixões – A alma apaixonada desobedecia à regra médica e por isso deveria ser controlada (COSTA, 2004, p. 65).

A dissertação do médico Leopoldo Porto, defendida em 1908, em clínica psiquiátrica pela Faculdade Livre de Medina e Farmácia de Porto Alegre/RS, sob o título “Da intoxicação pelo amor”, é um exemplo dessa política higienista. Nela, o médico, afirma que na mesma ordem de ideias, dentro dos domínios das obsessões o amor, principalmente ligado ao desejo, é semelhante a uma intoxicação voluntária, perfeitamente comparável a intoxicação pelo álcool, pela morfina, pelo tabaco ou pelo haxixe (PORTO, 1908, p.26). Tanto o alcoólatra, quanto o(a) “apaixonado(a)”, compartilham de um mesmo destino: a morte no hospital, o suicídio ou o asilo dos “alienados”. Segundo Leopoldo Porto (1908, p.35) na etiologia da intoxicação amorosa é possível distinguir duas ordens de causas: predisponentes e determinantes. A primeira, ligada à questão da hereditariedade, onde o alcoolismo atua como um fator de transmissão de degeneração e o segundo adquirido, por influência do meio ambiente, (representado pela pessoa amada). Tanto as causas predisponentes, quanto as determinantes estão presentes nos discursos e concepções êmicas das irmandades anônimas, o que me leva a considerar que o florescimento desses grupos não se deu por acaso, mas pela compatibilidade de valores culturais.

As ações e ideários higienistas, como expresso na nosologia do amor por intoxicação, representam ações biopolíticas que marcam o processo de transformação da governança estatal intervencionista, para a política liberal, que fez surgir uma nova mecânica de governar. “Só depois que soubermos o que era esse regime governamental chamado liberalismo é que poderemos, parece-me apreender que é biopolítica” (FOUCAULT, 2008, p. 30). Isto porque, a biopolítica é uma resposta à questão posta pelo liberalismo de como governar a partir de um governo mínimo em que se parte dos direitos do homem para chegar à delimitação da governamentalidade.

Maria Izilda Matos (2001), a partir do estudo sobre alcoolismo e masculinidades no século XIX em São Paulo, observa que a política higienista de combate ao alcoolismo cria um modelo de masculinidade baseada na produtividade que se torna o contraponto ao ébrio, que quando sob o efeito do álcool, era tomado pelo medo, delírio de perseguição; que o levava a cometer crimes de ciúmes. Assim, a identidade masculina se consubstanciava na ética da justiça e na noção de honra, sendo está definida pela conduta feminina familiar. A mulher nesse sentido ocupava no discurso médico-higienista um papel fundamental – Ela era acusada pelo alcoolismo do companheiro, pois ela teria a obrigação de criar um lar, saudável e acolhedor para o marido, quando este voltasse do trabalho. Era também, a que por conhecer as misérias do alcoolismo, funcionava como peça principal das campanhas antialcoólicas, pois cabia a elas o esforço da regeneração da sociedade.

Portanto, a ação do gênero encarna processualmente no corpo a partir de um aparato tecnológico, que não se produz de maneira fortuita e única, mas por uma dinâmica, que circula; que funciona em cadeia e se manifesta em todas as instâncias da vida. “Nunca está localizado aqui ou ali, nunca está nas mãos de alguns, nunca é apropriado como uma riqueza ou um bem. Trata-se da manifestação do poder que funciona e se exerce em rede” (FOUCAULT, 2002, p.183); como uma espécie de atravessamento, onde os indivíduos não são o núcleo elementar ou átomo primitivo de localização dele, mas é um elemento que se constituem em relação a ele.

Desta forma, observar-se que a normatividade amorosa produz os corpos que governam de acordo com as exigências das dinâmicas do poder, ou melhor; da matriz de inteligibilidade. Portanto, se o amor romântico criou uma nova sociogênese (ELIAS, 2001), que possibilitou a produção da racionalidade moderna, baseada na autocoerção e em uma economia psíquica que funda o individualismo moderno; também produziu sexo, corpo, gênero que deveria atender a normatividade falocêntrica (BUTLE, 2008) no seu ideal inalcançável.

O individualismo, tomado como sinônimo de autonomia emerge com a consolidação do capitalismo de massa que provocou a reformulação da perspectiva amorosa na modernidade tardia (GIDENS, 2002); ao transformar o ideal regulatório do amor em objeto de consumo quando o associa à realização e ao sucesso pessoal, os quais são consumidos como ritos, objetos, que não possuem pretensão à eternidade, visto que o mesmo desejo de se relacionar é o mesmo desejo de manter-se livre. Assim, “em nosso mundo de furiosa “individualização” os relacionamentos são bênçãos ambíguas” (BAUMAN, 2004, p.08), pois na liquida racionalidade moderna, os compromissos duradouros são enxergados como opressão; no engajamento permanente se percebe a dependência incapacitante. Essa reformulação da gramática amorosa moderna nega os vínculos, que não possuam relação com o consumo imediato, que presuma satisfação instantânea; isto porque, a vida consumista favorece a leveza e a velocidade e, também a novidade e a variedade que elas promovem e facilitam (BAUMAN, 2004).

Diante desta configuração, a manutenção de uma identidade amorosa enquanto substância, tal qual a identidade romântica ou a identidade mada, passa a ser um elemento de perturbação e de patologia, pois não corresponde ao ideal regulatório da gramática amorosa da modernidade tardia (GIDDENS, 1993), marcada pelas relações puras e pelo amor confluente. Segundo Anthony Giddens (1993), uma “relação pura” é uma relação em que critérios externos se dissolveram pela retribuição que a ela própria pode dar. No processo de relação pura, a confiança não se estrutura em critérios externos. Nessa relação pura, o amor seria baseado em uma confluência, em uma relação que envolveria um sentido de escolha, autonomia, franqueza e igualdade de gênero; o que não pressupõe exclusividade de parceria conjugal e promessas de amor eterno, mas antes, modos de comportamentos e sentimentos associados à vida sexual e conjugal, que tornam-se móveis, instáveis e “abertos”. Figurariam uma espécie de coquetelismo (SIMMEL, 1993), na sua fugacidade, no jogo da instabilidade, que permite interpretar o amor moderno como marcado pela celebração do fluído, pela excitação do movimento, pois possuir o objeto desejado, significa; deixar de jogar, tornar-se extático, transformar-se em substância (SIMMEL, 1993).

 

  1. Considerações

 

Corpo e gênero são resultados de reiteração de normas, que são anteriores ao agente e que, sendo permanentemente reiteradas, materializam aquilo que nomeiam e nesse sentido temos uma operação complexa, pois essa repetição ou essa reiteração é ato fantasmagórico de aproximação daquilo que se deveria ser e por tal constitua-se em uma engrenagem de poder e sofrimento para os indivíduos.

 

Alcione do Socorro Andrade Costa[1]


 

 

 

Referências

 

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[1] Professora do Instituto Federal do Maranhão – IFMA, Mestre em Antropologia, aluna da Delegação Maranhense de Psicanálise.