Frame do filme Meu melhor inimigo.

Ilnar Fernandes Feitoza[1]
Maria Damiana C. da Silva[2]
  1. Introdução

O filme dinamarquês Meu melhor inimigo (Min Bedste Fjende, 2010), dirigido por Oliver Ussing, aborda o tema bullying. Sabe-se que em ambiente escolar, entre adolescentes e pré-adolescentes, esses atos de intimidação e violência física ou psicológica aparecem com maior frequência. Os protagonistas do filme são Alf e Toke, garotos mais sensíveis que os demais. Ambos colecionam e estudam a vida dos insetos, além disso, o primeiro faz aulas de balé e o segundo tem um coelho de estimação. Suas idades aproximam-se de dez anos.

Na mesma sala de aula, há um garoto chamado Mathias que se mostra forte, por isso é admirado e líder de outros que lhes obedecem e praticam violência, especialmente contra Alf e Toke, que andam sozinhos e apresentam-se infantilizados em relação aos demais. Uma cena do filme mostra os garotos sob o comando de Mathias dando várias pancadas e golpes contra Alf. Torcem-lhe o pé, após ele ter declarado na sala de aula que não mais dançava balé. Fica evidente o constrangimento do garoto em falar diante dos colegas que pratica balé.

O enredo do filme Meu melhor inimigo ilustra bem as teses de Freud a respeito das ações do indivíduo e as modificações dos mecanismos psíquicos quando se está em grupo. No filme, a situação se dá entre pré-adolescentes que se utilizam das estratégias de um líder de ficção Niccolo, herói de uma revista em quadrinhos. Para deixarem a fragilidade do isolamento, Alf e Toke procuram se agrupar visando poder, autoridade e comando com o propósito de enfrentar e revidar às situações de bullying, utilizando-se dos mesmos recursos mentais que caracterizam o fenômeno, como violência física e psicológica.

  1. Em grupo, o sujeito abandona identidade e desejos

Para enfrentar e se vingar de Mathias e seu grupo, Alf inspira-se em Niccolo, herói de uma revista em quadrinhos. Alf lê e aprende as lições dadas por Niccolo, depois procura Toke, para juntos formarem um clube de meninos fortes capazes de enfrentar o grupo de Mathias. Niccolo ensina que, sem aliados, o sujeito estará sempre isolado e fraco. Por meio da revista, Alf explica ao colega Toke que é possível saber, passo a passo, como conseguir poder.

Assim, Alf e Toke abandonam hábitos que acreditam serem os que lhes tornam vulneráveis. Queimam as sapatilhas de balé, os livros sobre insetos e decidem matar o coelho de estimação de Toke, mas não conseguem, por isso o abandonam na floresta. Trocam o visual, passam a usar acessórios chamativos como cachecóis, procuram aliados para o clube e utilizam uma pulseira preta que identificam os integrantes.

Após algumas vinganças bem-sucedidas contra Mathias e sua turma, o clube cresce. Toke é mais velho que Alf, talvez isso explique a maior astúcia, capacidade de liderança, coragem e maldade. Alf, por sua vez, começa a perceber que a violência praticada pelos integrantes do clube está cada vez mais intensa e decide sair, pagando um preço alto para recuperar sua identidade e voltar às aulas de balé.

Freud em Psicologia das Massas e análise do eu (1920) mostra que as escolhas dos indivíduos em grupo diferem das do sujeito isolado. O autor, citando Le Bon, explica que os indivíduos quando agem em grupo apresentam um caráter médio, justificado por três fatores. O primeiro, é que o indivíduo adquire “um sentimento de poder invencível que lhe permite render-se a pulsões que, se estivesse ele sozinho, teria compulsoriamente mantido sob coerção” (LE BON apud FREUD, 1996, p. 85). O segundo fator é o contágio. “Num grupo, todo sentimento e todo ato são contagiosos, e contagiosos em tal grau, que o indivíduo prontamente sacrifica seu interesse pessoal ao interesse coletivo” (LE BON apud FREUD,1996, p. 86). Um terceiro fator é confundir verdade e ilusão. De acordo com Freud (1996, p. 91), para os integrantes do grupo, o real e o irreal se embaralham, pois os indivíduos “são quase tão intensamente influenciados pelo que é falso quanto pelo que é verdadeiro”. Freud esclarece que isso se justifica pela predominância da fantasia e da ilusão que nascem por causa de desejos que não foram realizados. Desse modo: “Um grupo é um rebanho obediente, que nunca poderia viver sem um senhor” (FREUD, 1996, p. 91).

O filme Meu maior inimigo retrata bem a tese do contágio na cena em que mostra o ritual exigido para que alguém seja integrado ao grupo. Quando Frits resolve participar é obrigado a destruir sua coleção de aviões, e Frans a queimar sua roupa de escoteiro e enterrar a faca que ganhou do pai, repetindo as ações dos líderes.

Freud, citando Le Bon (1996, p. 88), caracteriza um grupo como sendo, “impulsivo, mutável e irritável. É levado quase que exclusivamente por seu inconsciente”. No grupo, o sujeito perde sua capacidade crítica, pois, juntos pensam por imagens associadas, são extremistas, repetitivos e sentem-se onipotentes, desconsideram os sentimentos de dúvida ou incerteza.

quando indivíduos se reúnem num grupo, todas as suas inibições individuais caem e todos os instintos cruéis, brutais e destrutivos, que neles jaziam adormecidos, como relíquias de uma época primitiva, são despertados para encontrar gratificação livre” (FREUD, 1996, p. 84).

Freud (1996, p.84) defende que “a vida consciente da mente é de pequena importância, em comparação com sua vida inconsciente”. O autor entende que a mente do indivíduo é formada por três agentes o id, o ego e o superego e que cada um desses possui funções que orientam nossas ações. O id é o próprio inconsciente. O ego é a instância consciente que toma decisões a partir das impulsões do id e, portanto, autoriza ou não o sujeito a agir. Faz isso, levando em conta o superego que tem a função de vigiar as ações do ego e julgá-las como certas ou erradas e, consequentemente, censurá-las ou não.  Dessa forma, o superego impõe ao ego os sentimentos de culpa, a necessidade de punição, o remorso e sentimentos afins. Assim, segundo Freud, a consciência somente esta constituída nos sujeitos quando o superego está “demonstravelmente presente” (FREUD, 1996, p. 139).

Segundo o autor, o sentimento de culpa expressa o medo de alguma autoridade externa. Assim, esse sentimento forma-se a partir da necessidade do sujeito sentir-se aceito e amado por uma autoridade externa. Porém, abrir mão dos impulsos do id, que são expressão dos desejos, causam sentimentos de insatisfação, que predispõe o sujeito à vontade de agir agressivamente (FREUD, 1996)

Para Freud, as neuroses são frutos das negociações entre id, ego e superego e das insatisfações resultantes dessas negociações. Elas surgem devido ao sentimento de culpa e remorso por ações efetivamente praticadas ou só pensadas e desejadas pelo sujeito. Para o autor, também existem neuroses de grupo, nas quais todos os membros encontram-se “afetados pelo mesmo distúrbio” (FREUD, 1996, p. 146). O autor entende que a Psicanálise não pode tratar as neuroses coletivas, uma vez que seu arcabouço teórico-prático é utilizado para lidar com sintomas singulares, a partir da história de cada um.

Por fim, Freud (1996, p.146) afirma que a cultura impõe ao sujeito renúncias a desejos do id muito fortes, que formam o “programa princípio do prazer” a fim de tornar a civilização da humanidade possível. Desse modo, o altruísmo, que é a busca de satisfação coletiva, deve superar o egoísmo, que se trata da satisfação individual. Contudo, o autor defende que o sujeito em seu processo de desenvolvimento apresenta aspectos singulares, próprios dele, que não são reproduzidos ou aprendidos dentro do processo civilizatório.

Nesse sentido, o autor aduz que cada “indivíduo humano participa do curso do desenvolvimento da humanidade, ao mesmo tempo em que persegue o seu próprio caminho na vida” (FREUD, 1996, p. 146). Porém, observa-se que em grupo, o indivíduo perde ou abandona traços da personalidade adquirida pelo desenvolvimento. Isso deve explicar o pessimismo de Freud, em relação à capacidade da cultura para dominar as pulsões mais poderosas do homem, no seguinte trecho:

A questão fatídica para a espécie humana parece-me ser saber se, e até que ponto, seu desenvolvimento cultural conseguirá dominar a perturbação de sua vida comunal causada pelo instinto humano de agressão e autodestruição. Talvez, precisamente com relação a isso, a época atual mereça um interesse especial. Os homens adquiriram sobre as forças da natureza um tal controle, que, com sua ajuda, não teriam dificuldades em se exterminarem uns aos outros, até o último homem (FREUD, 1996, p. 147).

 

  1. Considerações finais

 

Para finalizar, o filme Meu melhor inimigo ilustra vários pressupostos de Freud com relação às mudanças da ação do sujeito quando participa de um grupo ou age sozinho. No enredo, verifica-se que em grupo os comportamentos agressivos brotam com grande facilidade, em indivíduos que antes eram totalmente pacíficos como Alf e Toke. Além da violência física, aparecem mecanismos psíquicos hostis que são reproduzidos por todos os integrantes do grupo. Percebe-se que, entre eles, o fraco se torna admirado e respeitado.

Freud (1996) esclarece que o sujeito é capaz de abdicar de seus mais fortes desejos para obter aceitação e aprovação de uma autoridade externa. O autor advoga que a vulnerabilidade de caráter é mais frequente entre sujeitos que o superego ainda não está estruturado. Isso explica o fenômeno costumeiro do bullying entre adolescentes.

 

 


REFERÊNCIAS
FREUD, S (1921). Psicologia de grupo e a análise do ego. In:_______. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, vol.III. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
_________. (1930 [1929]). O mal-estar na civilização. In: _______. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, vol. XXI. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
MEU melhor inimigo. Direção de Oliver Ussing. Dinamarca, 2010. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=2PZouc6B29c.

[1] Economista, mestra em Desenvolvimento Socioeconômico (UFMA) e participante do curso Transmissão do Ensino de Freud a Lacan, ministrado pela Escola Brasileira de Psicanálise – Delegação Maranhão. E-mail: ilfeitoza@ig.com.br
[2] Pedagoga e participante do curso Transmissão do Ensino de Freud a Lacan, ministrado pela Escola Brasileira de Psicanálise – Delegação Maranhão. E-mail: tutoria.damiana@gmail.com