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Freud ((2012[1932]), p. 28), na Conferência 33 sobre a feminilidade, diz:

Atribuímos, pois, à feminilidade, uma medida maior de narcisismo, que influencia até sua escolha de objeto, de modo que ser amada constitui para a mulher uma necessidade mais forte do que amar. O efeito da inveja do pênis está ainda implícito na vaidade física da mulher, por isso, ela precisa superestimar seus encantos como uma compensação tardia para sua inferioridade sexual original. Quanto ao pudor, considerado um traço tipicamente feminino, é atribuído ao propósito original de ocultar o defeito da genitália.

Segundo Lacan (1972):

a mulher é não toda submetida à lei do significante fálico, não toda submetida no simbólico, onde haveria a possibilidade de um gozo não todo referido ao falo. A mulher compensaria não ter o falo passando a ser o falo, quer dizer, o significante do desejo do “outro”, referindo-se à questão do feminino enquanto mascarada.

Em La naturaleza de los semblantes, Miller (2008) comenta: “embora as mulheres façam uso do semblante, vestindo-se de falo, seja para tamponar a falta, seja para causar o desejo, elas parecem saber mais do que os homens, que o falo não passa de um semblante”.

Vivemos num tempo em que tudo aponta para uma “mostração” imediata e um empuxo ao gozo escópico. O sujeito contemporâneo habita nessa visibilidade permanente, imediata e total, o que deixa pouco espaço para a memória. Esquece-se de lembrar aquilo que a verdade oculta: a castração

Dois grandes enigmas referidos à castração: o da feminilidade e o da velhice remetem-me à inúmeras associações, que por sua vez, convocam-me a dividir com vocês, o espaço do meu cogito e o terreno da minha angústia.

Miller (1997), na Conferência O sintoma e o cometa, questiona: “por quanto tempo o novo permanece novo? Nós bem sabemos a resposta: cada vez mais o novo dura menos; logo está obsoleto.”

O sujeito da contemporaneidade se angustia ante os efeitos dessa aceleração da decadência, quando seu próprio corpo se insere no campo mercantilista, onde o bisturi da ciência intervém, criando uma remontagem especular.

São corpos massificados e padronizados, atendendo ao apelo mercadológico que fornece semblantes prometedores do imperecível da juventude e da beleza.

Confrontados com o real do objeto prometedor, o indivíduo o demanda e, supondo que obterá dele um excedente de gozo , demanda-o mais ainda, sob o ilusório semblante do falo.( LAURENT, 2009).

Partindo dessas considerações, faz-se necessário focalizar a relação dessas insígnias da espetacularização da imagem com o processo inexorável do envelhecimento.

A velhice é determinada em cada época, em cada cultura de forma diferenciada, uma vez que os significantes que tentam nomeá-la incidirão sobre os sujeitos, provocando seus efeitos.

Apesar dos traços próprios de onde cada um possa responder aos significantes culturais e ao mal-estar da cultura em cada época, observamos ser a velhice um efeito do discurso desse “outro”.

Em Radiofonia, Lacan (2003) nos fala que “o corpo do simbólico ao se incorporar nos dá um corpo”; dizemos “temos um corpo, no qual portamos inscrições, fazem-se cicatrizes, inscrevem-se marcas”, marcas essas acentuadas na clínica da atualidade onde esse sujeito está inscrito e diferentemente do corpo imaginário da histérica, é um corpo marcado pelo real.

Que corpo é esse cuja vida acena obrigatoriamente para a morte e cujo desenrolar transita pelo inesperado campo da velhice? Inesperado esse a que Freud (1974, p. 345) se refere em Transitoriedade como “aquilo que ao pensarmos, estamos inserindo o luto sobre a perda, e tentando extrair do real seu caráter inadiável de inesperado”.

Messy (2002, p. 44) afirma: “a velhice é uma ruptura brutal de equilíbrio entre perdas e aquisições”. Essa perda de laços com o outro supõe o luto dos objetos perdidos e a criação de novas vestes para o desejo.

Freud escrevendo a Lou Andreas-Salomé (1970, p. 225) interroga: “a que grau de bondade e de humor não se tem que chegar para suportar o horror da velhice?” E reporta o distanciamento que o tomava sob forma de uma carapaça de insensibilidade em formação, “uma maneira”, prossegue ele, “de começar a se tornar inorgânico”.

Lipovetsky (2007, p.354) relata que nossa época testemunha o ideal estético do corpo magro, jovem, potente e musculoso, impelindo os indivíduos a “trabalhar e gerir seus corpos” e exercer sobre eles as coerções severas de um supereu tirânico em prol da norma do novo e do belo.

Em tempos em que a neofilia se impõe como presente perpétuo e somos obrigados a ser felizes, apesar da dor de existir, tento abordar nesta comunicação o enlaçamento do feminino e o envelhecer, ao mesmo tempo em que através desse fato bordejamos o inominável. Em ambos há um transbordamento de gozo e uma questão excessiva. Sob este viés, observamos nesses dois universos uma face voltada para o simbólico e outra para o real.

 

Tereza Braúna Moreira Lima² – terezabrauna@hotmail.com

 

 


 

Notas:
1.Trabalho realizado para VII Jornada da Delegação Geral do Maranhão – EBP O FEMININO DE FREUD A LACAN
2.Participante da Delegação Geral do Maranhão – EBP. Analista praticante, membro da DG/MA

 

Referências Bibliográficas
ANDREAS-SALOMÉ, L. Correspondance avec Sigmund Freud, in Journal d’une année (1912-1913). Paris: Gallimard, 1970.
FREUD, S. (2012[1932]). “A feminilidade”. In: Caldas, H.; Murta, A.; Murta, C. (Orgs). O feminino que acontece no corpo: a prática da psicanálise nos confins do simbólico. Belo-Horizonte: Scriptum Livros, 2012.
______________. Sobre a transitoriedade. In: Obras completas, vol.XlV. Rio de Janeiro: Imago, 1964.
LACAN, Jacques. O Aturdito. In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003. Ed. Fr. J. Lacan, L’étourdit, Scilicet 4, Seuil, 1972.
_____________. Radiofonia. In: ______. Outros escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003. p. 449-497.
LIPOVETSKY, Gilles. A felicidade paradoxal: ensaio sobre a sociedade de hiperconsumo. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
LAURENT, E. Entrevista com Éric Laurent. Correio – Revista da EBP, São Paulo: Escola Brasileira de Psicanálise, n. 63, 2009, p.09-19.
MILLER, Jacques-Alain. La naturaleza de los semblantes. Buenos Aires: Paidós, 2008.
_____________. O sintoma e o Cometa. In: VII ENCONTRO BRASILEIRO DO CAMPO FREUDIANO, 1997, São Paulo. Anais do VII Encontro Brasileiro do Campo Freudiano. São Paulo: Biblioteca Freudiana, 1997. v. 1.
MESSY, Jack. La personne âgée n’existe pas. Paris: Payot & Rivages, 2002.