Joselle Couto e Lima[1]

A queda do falocentrismo, segundo Marie Helene Brousse, está muito mais para o declínio dos moldes de uma sociedade patriarcal do que propriamente a queda do falo. Fala-se muito mais de um declínio da tradição que de alguma forma incide sob as novas formações familiares, e a maneira como se dá o laço social, em decorrência da progressiva desestabilização das autoridades.

A ausência de ideais consistentes que guiem a vida do sujeito pós-moderno, produz uma série de incertezas que acabam promovendo novas formas de sofrimento psíquico. Em decorrência disso, acusa-se que a falta de um discurso universalisante que oriente a cultura pós-moderna revela uma fragilidade no processo de simbolização, o que trará mudanças para a configuração do mal-estar pós-moderno.

Há de se perceber que Miller (2005) equivale o discurso da civilização pós-moderna ao discurso do analista quando este coloca como agente o objeto a. A partir disso, Miller não deixa de justificar que a psicanálise, de alguma forma, foi a responsável pelo rebaixamento do discurso da civilização em favor da elevação do objeto a. Para justificar isso, toma como referência uma frase de Lacan que diz que o objeto a foi elevado ao Zênite social. Diferentemente do tempo de Freud, a bússola era o discurso da civilização, era o discurso do mestre, em que a psicanálise vinha em contrapartida para tentar fazer ascender aquilo que era da ordem do desejo (objeto a) diante da crueldade da moral civilizada, que segundo Miller (2005) a moral civilizada já podia ser uma reação a uma fenda, a uma brecha que já se ampliava na civilização. Diante disso, a psicanálise, vinha como o avesso da civilização, ou seja, o discurso do analista vinha como um avesso ao discurso da civilização, pois segundo Miller (2005, p. 9) “O discurso do analista podia analisar o discurso do inconsciente e sua potência interpretativa e subversiva tinha de se exercer, a um só tempo, sobre a civilização e sobre os fenômenos das sociedades com os quais se tinha de lidar […]”. Assim, a psicanálise, nesse sentido, seria o avesso da civilização. Contudo, segundo Miller (2005), a psicanálise não é mais o avesso da civilização, mas sim que a civilização atualmente é o sucesso da psicanálise quando coloca o objeto a como sua bússola, impondo um empuxo ao mais-de-gozar que não é sem consequências para o laço social.

A prática lacaniana tem de lidar com as consequências desse sucesso sensacional. Consequências ressentidas como da ordem da catástrofe. A ditadura do mais-de-gozar devasta a natureza, faz romper os casamentos, dispersa a família, remaneja o corpo, não apenas no aspecto da cirurgia estética, ou da dieta-um estilo de vida anoréxica, como dizia Dominique Laurent, ela realiza também uma intervenção muito mais profunda sobre o corpo. Nos dias de hoje, uma vez que se decifrou o genoma, é possível produzir-se verdadeiramente, o que alguns chamam uma pós-humanidade (MILLER, 2005, p.13).

Como se vê, as consequências para o sujeito diante do empuxo ao gozo impõe uma dinâmica de circuito gozoso que não só modifica a estrutura social como os modos de gozo com o corpo próprio, que vai desde o apelo ao corpo como objeto que segue os padrões estéticos do capitalismo, até a uma realização de um modo de gozo com o vazio, quando a partir do mais-de-gozar é regido por um fluxo incessante de satisfação. É por esta razão que Miller (2005, p. 12) afirma que na sociedade atual a não relação sexual é algo mais evidente, diferente da época em que havia a operação do discurso do mestre em que a não relação sexual “era uma verdade recalcada pelo significante mestre”.

 

 


REFERÊNCIA
MILLER, Jacques-Allain. El Otro que no existe y sus comitês de ética. In: Seminário de Jacques-Alain Miller en colaboración com Éric Laurent. Buenos Aires: Paidós, 2005.

[1] Membro da EBP- Delegação do Maranhão.