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Os tempos atuais se caracterizam por uma nova, hiper, excessiva vontade de tudo gozar, de estar afinado com o imperativo categórico hipermoderno: “tenha prazer o tempo todo no maior tempo possível e faça tudo cada vez mais rápido”. Numa propaganda tipo pop-up na tela de meu computador eu lia outro dia: “a pressa é amiga de perfeição”; o avesso do que aprendemos quando crianças, através do velho ditado popular. Por um lado, é um alívio saber que não podemos nem devemos acompanhar tudo, nossa fala tem um limite, os corpos fazem fadings, esvanecimento, o que é muito diferente de uma fadiga muscular – diante das pressões do mercado atual que é feroz e glutão. Essa é uma nova ordem simbólica, a do excesso, do mais-de-gozar, já comentada por Lacan no Seminário XX.

Estará a Psicanálise de Orientação Lacaniana à altura desses novos ideais? A Psicanálise não só foi partidária da queda dos ideais apontando que eles nos faziam sofrer, como de forma subversiva, empuxa a nos defrontar com aquilo que nos é mais singular, o estilo de cada um. Dá trabalho fazer-se aí, criar um estilo. O sintoma é uma formação do inconsciente, mas sinthoma com “h” tem a ver com final de análise, do que se fez com o sintoma que nos levou procurar um analista – enfim trata-se de um savoir y faire com o sintoma que tanto nos atazanava antes e que após o processo analítico, passamos a com ele conviver e ao invés de sofrimento vamos extrair prazer. Algumas pessoas não fazem e nem precisam de análise para ter um Sinthoma. O próprio Joyce não foi analisado e fez um Sinthoma com sua literatura.

Graciela Brodksdy, em “Loucuras Discretas” (2004, p. 74), assim afirma:

Lacan considera que há uma dimensão da palavra que parece impor-se a Joyce. Ele teve uma filha esquizofrênica. Não era uma psicose ordinária. Ninguém duvidaria do diagnóstico de psicose para ela, exceto Joyce, que não achava estranho que sua filha se considerasse telepática. Pensava que podia ler o pensamento das pessoas e para Joyce isso era completamente normal. Isso, diz Lacan, mostra que Joyce se relacionava com a linguagem como se não fosse um dom, mas algo exterior.

Então podemos assim ainda dizer que não é mais necessária a formulação de uma questão dirigida ao analista no século XXI, a quem não se supõe mais ter a resposta, pois o saber está no bolso, na máquina – no oráculo moderno do Google que a quase tudo responde? Qual será a suposição do saber lançada ao analista no terceiro milênio? Primeiro ponto é que ele precisa estar na cidade; fazendo circular o discurso da Psicanálise por todos os cantos da cidade se fazendo presente na rede do CIEN, núcleos entre Psicanálise e Direito, Medicina e quaisquer outras áreas do saber. Em segundo, na clínica do real, orientada para o inconsciente real que tem seu movimento de abertura e fechamento como lhe é próprio posto que é preciso que o sujeito via transferência, possa transformar o seu sintoma (queixa) em um sintoma analítico, onde o saber que advém daí não é universal, pois se refere ao desejo inconsciente de cada sujeito, portando a marca da singularidade.

Ainda hoje, diferencia-se neurose, psicose e perversão a partir dos mecanismos de defesa colocados por Freud: recalque, denegação e foraclusão. A arte do diagnóstico em Psicanálise vai no sentido oposto dos tempos modernos: não tenhamos pressa, e sim cautela! Há na atualidade, profissionais de distintas áreas da medicina, da pedagogia, da psicologia, da psicopedagogia, etc., com um apetite feroz para fazer diagnósticos porque carregam o DSM V como uma bússola, a partir de onde todos os acontecimentos da vida passam a ser patologizados e, por conseguinte, medicalizados por uma Ciência prescritiva.

Podemos dizer que a Psicanálise de Orientação Lacaniana ao fazer a distinção entre primeira e segunda clínica, não descartando ou subsumindo a precedente com a antecedente, pode estar mais à altura dos tempos que correm, pois com Miller fazemos uma releitura de Lacan, o que vai então balizar o trabalho do analista de Orientação Lacaniana. É por essa razão que podemos dizer que fora da escola um analista corre seriamente o risco (com honrosas exceções) de emburrecer ou aborrecer os outros. Ou seja, são pequenos divinos detalhes, que fazem a clínica do real parecer algo desafiador para o analista nos tempos que correm.

Os passes estão diferentes e os analistas estão na cidade. Mas onde se formam os analistas? Não há como pensar o analista, sem o divã; assim como não há como pensar em escola, sem o passe. Tanto a análise como o passe fazem uma passagem pelo outro. Se uma análise fica interminável, devemos nos perguntar se ela teve início. Segundo Miller, o passe é uma forma de continuar falando de sua análise, mesmo depois que ela acabou.

Christiane Alberti (2016, p. 6), no editorial de “Opção Lacaniana”, comenta sobre a Ação Lacaniana:

A ação lacaniana se aloja entre essas duas prioridades (a intensão e o endereçamento ao público), mantida conjuntamente e sem folga, definitivamente elas formam uma só coisa e se ligam ao que constitui a particularidade da formação em nossa Escola. Ela não se faz por meio de ascensão progressiva, segundo um curso, mas assiduamente e por longo tempo na Escola, de se mergulhar nos ensinos, conferências, debates, carteis, jornadas. A imersão é um dado essencial, na medida em que diz respeito à relação com o Outro. Trata-se de criar as condições atuais de imersão a fim de favorecer a inserção da psicanálise no século: em resumo, de considerar o sujeito da civilização contemporânea precisamente para que a psicanálise continue a ser um discurso de exceção que não seja absorvida na racionalidade técnica que visa a normalizar as condutas humanas.

A ação lacaniana nos aponta para o desejo, posto que a Psicanálise é uma teoria sobre o desejo.

Mas afinal, o que é o desejo? O que é desejar nesses novos tempos? O desejo se dialetiza entre uma falta e uma hiância. Freud já apontava para um objeto perdido na experiência de satisfação e com Lacan se diz que o desejo não tem referencia a um objeto qualquer. O objeto “a” causa o desejo, mas não o realiza. O desejo é verbo intransitivo, assim como Drummond falava do amor: o desejo não tem um objeto que o realiza, mas sim o objeto que o causa. Como dizia Diotima em “O Banquete de Platão” (2005, p. 141) “aquele que não se considera incompleto o suficiente, não deseja aquilo cuja falta ele não pode notar”. O desejo depende de uma falta e desejar é preciso para podermos viver. O desejo não tem idade, mas tem ‘’peculiar-idade’’. A Psicanálise nos leva a juntar ação humana com o desejo que a habita.

Na nossa época, o desejo emudece porque o sujeito está atrelado ao regime capitalista onde impera o turboconsumo, que persegue a lógica do mais, mais e mais… O que resulta disto não é um entusiasmo, mas sim, um tédio acachapante. Nos tempos atuais, o modo de gozo faz sucumbir o desejo para se enlaçar aos objetos da Ciência, que vem povoar as prateleiras dos shoppings na hipermodernidade. Não se deve ficar admirando o quê e como o outro faz nestes tempos onde a imitação se presentifica em todas as áreas, mas sim procurar fazer do seu jeito, destituindo-se de seu narcisismo.

Afinal, que ato analítico para tempos hipermodernos? É o imprevisto, mas vem da transgressão da própria experiência. O ato analítico, além de ser imprevisto, é da ordem do “Penso onde não sou, sou onde não penso” de Lacan. Graciela Brodsky (2004), em Short Story, afirma que o ato analítico se apoia naquilo que nunca foi visto nem ouvido. E indica refletir sobre uma citação de Lacan (1969 apud BRODSKY, 2004, p. 153)nunca visto, nem ouvido, a não ser por nós, isto é, nunca assinalado e menos ainda assinalado: o ato analítico”. Assim ela ensina sobre os princípios do ato analítico: “Partamos da surpresa, do inesperado”, e isso deve ser usado como um grito do fundo de nossas vísceras. Portanto, cada analista deve por sua conta e risco, buscar o seu estilo de causar esse inesperado, essa surpresa; apoiado na sua experiência como analisante, na sua análise pessoal, didática que nos coloca diante do real da experiência singular de cada um. O ato analítico é da ordem do imprevisto, mas vem da transmissão da própria experiência. Outro dia, alguém me dizia: eu tinha muita vergonha de falar em publico, mas quando comecei a falar a partir de fatias da minha própria análise, isso começou a mudar.

Então é preciso que haja três eixos na formação de um analista: epistêmico, clínico e o da supervisão presentes quando se é capturado pela transferência analítica. Algo de novo emerge, mesmo quando a pessoa acha que está se repetindo. A repetição não é de modo algum repetição do mesmo, mas sim a repetição do novo. O que se repete é aquilo que não foi dito. Isso é curioso, pois em um mundo onde o culto ao novo é excessivo, lá estão os sujeitos gelificados ou congelados em “uma” cena de suas vidas, falam do passado como se tivesse acontecido ontem! Seria de se supor que hoje as análises não esbarrassem tanto na pedra da repetição: “há uma pedra no meio do caminho, há uma pedra no meio do caminho” – como dizia o poeta; já que esta pedra é a linguagem e não podemos tudo dizer. Algo escapa, desde sempre – e isso que parece um defeito ou erro é a base da constituição humana, onde o inconsciente é a marca desse desacerto e o desejo seu produto.

E o que fazer com o gozo, com isso que é excessivo, nos tempos atuais? Na Psicanálise de Orientação Lacaniana, primeiramente apreendemos a ideia de que o gozo não é o prazer. Prazer está relacionado com harmonia, bem-estar, onde o nível de tensão está baixo e é, portanto, o lugar onde o vivente vegeta. Nós nos mantemos, evitando perturbar o “precário” equilíbrio obtido, para nos opor ao conceito de felicidade dado por Kant “como sendo uma satisfação interrupta do sujeito com a sua vida”.

Até os idos anos de 1950, havia a ideia de um analista sem memória, sem desejo e sem compreensão. Isto é coisa do passado: o analista é animado por um desejo, desejo de ver a experiência de análise se repetir mais uma vez com algum outro. Quem procura uma análise está cheio de respostas e não tem perguntas. É por serem respostas que o sujeito sofre.

Nas entrevistas preliminares, o sujeito questionará o seu próprio sofrimento, levantando questões acerca do que lhe trouxe até ali. Aliás, não é do sofrimento que o sujeito se queixa, mas de um saber que ele supõe existir no outro: por essa razão é que recorre a um analista. A posição do analista é a de abalar o edifício de queixas, identificações imaginárias de quem lhe demanda uma escuta atenta e acolhedora, mesmo que não tenha se instalado aí a transferência com aquele analista em particular, escolhido entre o conjunto de analistas da cidade. Freud falava que seus pacientes preferiam ser escutados, mas isto não significa que o analista tenha de ficar em silêncio. Nas entrevistas preliminares, não pode apenas ficar acusando a recepção daquilo que se ouve. É momento de trabalho, no sentido de ser o suporte que atua no ingresso do sujeito ao discurso analítico. Com perguntas e retificações, cabe ao analista provocar esse sujeito, tornando-o receptivo à escuta do inconsciente.

É necessário que haja a instalação da transferência para que uma análise se inicie. Antes disso, nada poderá ser interpretado ou assegurado ao futuro analisante. Do lado do analista, não há regras, mas sim, a ética da psicanálise. Não existe nenhuma legislação sobre o fazer do analista nas entrevistas, nem durante a análise propriamente dita. Ética essa que, regida pelo desejo do analista, nos leva a pensar sobre o ato analítico. É o analista com seu ato que dá existência ao inconsciente. É como um provedor, que é necessário para acessarmos a internet. O ato analítico estará sempre ao lado do analista na medida em que se situa na posição de causa de desejo. A primeira clínica é importantíssima para dar conta do começo de uma análise. Para a segunda clínica, de conexões, podemos nos acercar do resto sintomático e do Sinthoma de final de análise.

 

Thaïs Moraes Correia[1] – thais@elointernet.com.br


 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALBERTI, Christiane. Opção Lacaniana. Revista Brasileira Internacional de Psicanálise. n. 73. São Paulo: agosto/ 2016.

BRODSKY, Graciela. Short Story: os princípios do ato analítico; Rio de Janeiro. Contra Capa Livraria, 2004.

_________. Loucuras discretas: um seminário sobre as chamadas psicoses ordinárias. Belo Horizonte: Scriptum Livros, 2011.

FREUD, Sigmund. Sobre o início do tratamento. Novas recomendações sobre a técnica em Psicanálise I, (1913). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. v. XII.

PLATÃO. Apologia de Sócrates – Banquete. São Paulo: Martin Claret, 2005.

[1] Psicanalista; aderente da Escola Brasileira de Psicanálise; participante da Delegação Maranhão e Professora adjunta IV do Departamento de Filosofia da UFMA.