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Nos tempos atuais vemos adultos muito diferentes de outrora. Antes, as crianças desejavam crescer logo, a adolescência era uma fase que praticamente inexistia e logo queríamos nos tornar adultos. Queríamos, talvez, com essa pressa de crescer, nos libertar do jugo dos pais, da família, da dependência econômica, da sombra do nosso pai, que nos mostrava ser o dono da potência e da virilidade, o homem da autoridade. Contudo, ao sair da casa paterna, buscando liberdade, acabávamos por encontrar outras prisões, outros deveres, empregatícios, legais, matrimoniais, sociais. Acabávamos por ser o pai que não queríamos ter, mas não do jeito que fantasiávamos ser na infância.

Atualmente, em virtude de muitas transformações subjetivas na História, algumas de longa duração tal como a ascensão do pensamento técnico-científico, a escolarização e o fim do monopólio religioso do cristianismo, e outras mudanças na breve duração tal como as Grandes Guerras do século XX, a Guerra Fria, a Revolução molecular dos costumes nos últimos cinquenta anos, tudo isso contribuiu para uma mudança da reverberação do sintoma nos corpos. O tecido simbólico, que antes era compreensível, torna-se múltiplo, desorientado, opaco, quase ilegível. O lugar da autoridade sumiu, sobrando apenas figuras impotentes que bradam sua autoridade – sinal inequívoco que não possuem mais legitimidade alguma. O lugar da Lei, criada pela linguagem e suas codificações simbólicas, que modela as coisas segundo seus padrões e as direcionam segundo sua gramática, dá lugar a um sistema flexível, múltiplo, de semântica variável e gramática complexa, onde a performatividade e o uso operam. No lugar da Lei Simbólica, o poder e suas forças produzem o Gozo Real. Ao invés do dever, nos deparamos com o prazer sem limites precisos, o divertimento excessivo e o Gozo como imperativo social.

Nesse sentido, ou seja, empurrados por uma dinâmica histórica ou um processo de subjetivação singular e impessoal, não surpreende que o sintoma contemporâneo mais evidente seja o adolescer. Não tanto o adolescer das crianças, onde a adolescência começa cada vez mais cedo, com 13, 12, 11, 10 e até 9 anos – ou seria até menos, tal como os pais de hoje que vestem seus filhos cada vez mais como adultos e desejam que eles se comportem como tal, inclusive em suas neuroses, preocupações, angústias, depressões e exibições. Se o adolescer acontece cada vez mais cedo, por outro lado, ele parece não acabar. Se o fim de um longo processo histórico, ou de um niilismo, como diria Nietzsche, sempre produz sintomas inauditos, um dos sinais mais flagrantes de uma época de declínio como a nossa é, sem dúvida, o fato de que a adolescência se torna cada vez mais o modelo de subjetivação a imperar sobre todo um tecido social.

Não apenas somos cada vez mais tolerantes com comportamentos, discursos e desejos adolescentes entre os adultos, mas, ao contrário, cada vez mais os promovemos, mesmo quando não percebemos. Em nome do Gozo, fazemos gozação com tudo. A cultura do stand up comedy, tipicamente norte-americana, mas que se disseminou com força no Brasil nos últimos 10 anos, principalmente na internet, evidencia a piada com relação a tudo, a agressividade fazendo o luto generalizado de todos os valores. A cultura da ostentação, a necessidade exibicionista de mostrar suas conquistas materiais, objetos caros, viagens e até refeições, nas redes sociais, evidencia como o narcisismo contemporâneo é frágil (Birman, 2014), como a subjetividade de todos nós se assemelha a de um adolescente: em crise com seu corpo, com saudades de um passado irrecuperável, com medo de um futuro incerto e cheio de responsabilidade, muito mais atemorizante que estimulante. Cada vez mais, na atualidade, com o declínio da figura do poder no simbólico e da função da Lei, somos não apenas órfãos, sem pai, sem futuro. Somos todos, acima de tudo, subjetivamente, adolescentes, tal como Lacan descrevia o terceiro momento da metáfora paterna, a privação, quando percebemos que o Pai não tem o falo (Lacan, 1999). Contudo, nós também não temos o falo. Todavia, há alguns dons, que podem ser um semblante de falo e nos conceder um resquício de gozo: uma festa, algum tipo de droga, prescrita ou proscrita, sexo, gozação generalizada, desejos desmedidos, toda uma pulsão mortífera, um mais de gozar que nos impulsiona além de todo limite.

Diante desse cenário, onde todos nós, resto que sobrou do fim da crença na História, seus códigos, suas leis, suas figuras de autoridade, sua legitimidade, no fim do processo simbólico, podemos, todavia, no fim, como restos da História, entender seu sentido, sua finalidade. Pois só quando nos tornamos resto, quando nos encontramos no fim, sem porvir, sem esperança, reduzidos a um puro movimento mortífero de repetição, é que podemos, todavia, dar um novo sentido. Quando não há representação de futuro possível, porque toda representação se esgotou, talvez, possamos, só agora, verdadeiramente criar. Se somos adolescentes, e queremos sê-lo para sempre, talvez seja porque tememos o que virá, a suprema responsabilidade não apenas do Real, daquilo que a psicanálise de orientação lacaniana contemporaneamente mais fala, mas sim da pura repetição, da obra de arte viva, do sinthôme (Lacan, 2007), da criação sem qualquer modelo. Se Nietzsche afirmava que a História era um longo erro, uma longa errância no deserto, onde o espírito sofre três transformações, o camelo, o leão e a criança, somos hoje, talvez, uma transição entre o leão e a criança (Cf. Nietzsche, 2011, p. 27-29).

Outrora éramos todos camelos. Aceitávamos o poder dos que nos adestravam e que utilizam nossa força para se conduzirem. Curvávamo-nos diante de qualquer autoridade, pois acreditávamos que toda autoridade fora constituída por Deus, como dizia o Livro por excelência. Carregávamos todos os deveres, todos os fardos da linguagem, todos os pesos que os lugares sociais nos destinavam. Domados, úteis, dóceis, errávamos segundo uma Lei que acreditávamos que tinha sentido. Seu destino, contudo, era o deserto, a exploração absoluta da vida em si mesma, a Lei vazia girando em torno de si mesma, destruindo a vida que a mantinha no lugar. Caminhávamos, lentamente, sobrecarregados, para o deserto do niilismo, o fim da História, isto é, o fim ou a finalidade de toda escrita, de toda a significação.

Lá, no meio do deserto, sobrecarregados e quase prostrados pelo dever, carregando o Outro nas costas, nossa vontade, nosso espírito que é força, se transmuta, e o camelo se torna leão. Se o camelo dizia um “sim” a todas as regras, códigos e Leis, afirmando em seu corpo a legitimidade do poder, agora, o Leão diz um sagrado “não” a todo dever. O Leão diz “eu quero”. Desde a revolução francesa, desde o século XIX, lentamente se acelerando e se intensificando, culminando com as revoluções do desejo da segunda metade do século XX, todos nós, velhos que éramos, que queríamos imitar nossos pais, avós e antepassados, nós que já nascíamos velhos de valores, nos tornamos leões, ou seja, adultos jovens, cheios de vigor, plenos de vida e desejo, justamente porque nos descarregamos do dever e sua Lei. Dissemos um grande “não” a todos os valores que, durante séculos, nos orientavam: rei, nobreza, clero. Igreja, verdade, poder. Bem, Mal, culpa, ressentimento, pecado. O Leão só quer sua vontade.

Todavia, ainda estávamos muito presos às regras, amarrados à necessidade de lutar e batalhar e, talvez por isso, trocamos a opressão da nobreza e o antigo regime pela opressão da burguesia e do novo regime capitalista e democrático. Como em toda revolução, como dizia Lacan, tudo volta ao mesmo lugar – mudou-se os personagens, mas o lugar do poder permanecia. Por isso, ainda seguindo Nietzsche, o leão terá de fazer sua derradeira Batalha, contra o Dragão, que traz gravada em letras de ouro reluzentes em cada uma de suas escamas, seus esquemas insidiosos de réptil, o imperativo: “tu deves”.

Talvez seja esse nosso impasse do final do século XX e início do século XXI, o adolescer da humanidade. Dissemos “não” a toda Lei, a toda figura de poder, a toda autoridade, negamos qualquer legitimidade, mas mantemos a forma vazia do dever. O Nome do Pai declinou o que garantia o lugar do poder, mas o poder continua tendo lugar em nós, no meio de nós, pois, como dizia Nietzsche, podemos ainda querer o nada, mas nada querer é impossível, pois a vida, o existir, é vontade, querer, desejo. Pode-se desejar nada, mas é impossível nada desejar. Por isso, a derradeira luta do Leão é contra seu avesso e irmão, o Dragão, aquela antiga serpente, sedutora, portadora do bem e do mal, que nos trazia, em sua língua bífida, a dualidade ou o duplo-sentido da linguagem, do conhecimento: o simbólico. Pela Lei, nos tornamos culpados, não pelo que fazemos, mas pelo simples fato de termos sido marcados pelos significantes e sua gramática, mortificadora do corpo. Agora, a velha serpente evoluída, também rejuvenescida como nós, ainda mais forte, se tornou o Dragão que nos acusa, que nos cobra, com seu imperativo kantiano moderno, formalista, democrático e capitalista: “tu deves”.

Tu deves o que? O que o Dragão cobra do Leão, animal rei de si mesmo, que tudo abandonou no deserto para ser rei de sua savana, para afirmar o seu querer? Como o Dragão ainda pode ter poder sobre o Leão? Aqui se mostra a astúcia da linguagem, o simbólico que deixa de ser metafórico e, como dizia Lacan, não afirma mais o significante, mas o traço unário, a letra, não opera mais pela metáfora, mas funciona pela literalidade, a linguagem que opera ao pé da letra (Lacan, 2003; 2009 p.105-118). A velha serpente metafórica deu lugar ao Dragão literal. Com efeito, o Leão nega todos os velhos valores, nega toda autoridade, rejeita todo dever, mas ele mesmo não pode negar o seu valor, sua própria autoridade, o seu dever singular como vivente. Algo ele tem de fazer. O Leão, animal do Gozo, nos revela nosso impasse contemporâneo, a armadilha de sua sombra, o Dragão, e seu imperativo de Gozo: “tu deves”. “Goza!”

Como escapar do Dragão, como matar o Dragão? Talvez, lutando até a morte, até sua derradeira transformação. Tornando-se criança. A adolescência como fenômeno generalizado talvez possa ser tomada literalmente como um processo de rejuvenescimento e florescimento coletivo. Porém com o medo que temos do fim dos padrões, só conseguimos perceber suas cores mais sombrias, nós justamente tão acostumados com as cores sóbrias, tão pouco habituados com a alegria e seu colorido, com a diversidade de tons da natureza e com aqueles que ainda podemos inventar, com cores da vida ainda impensáveis.

Nesse sentido, qual a letra que os adolescentes que somos nós, particularmente os adolescentes mais jovens de nossa contemporaneidade, nos apresentam? Qual a letra que eles nos mandam? Primeiramente, que todo social é uma ficção, que somos todos loucos, fora da Lei, foracluídos, que todo entendimento ou toda significação é impossível. Críamos na ficção da compreensão, mas agora sabemos que só o sentido real, performativo, o uso, que remete a formas de vida como dizia Wittgenstein, ou a modos de Gozar, como afirma Lacan, faz sentido: literalmente. O Real só seria sem sentido na perspectiva do Simbólico, se pensarmos o Real pela metáfora da Lei e suas direções prévias, suas placas fixas de orientação. No registro imaginário, por sua vez, o Real tem sentido: é o corpo. Nosso corpo é o termo de infindáveis relações, o terminal para as forças sem sentido prévio do Real, aquilo que nos faz Gozar. Enlaçados em um corpo, sempre individual e coletivo, transfigurados pelo Real, somos Um-gozo, aquilo que só é sem sentido porque afirma o seu sentido, o seu Gozo, sua singularidade, um resto inapreensível e inarticulável por qualquer cadeia simbólica, aquilo que não tem significação, pois só pode ser sentido. A fuga do sentido só opera quando tomamos o sentido como efeito do significante. O sentido como forças do Real é pura fuga e, por isso mesmo, direção, orientação. O sintoma na atualidade não tem de ser primeiramente escutado, ou interpretado segundo códigos fixos caducos, que não colam mais nos sujeitos, mas sim antes, tem de ser lido, e aprender a ler é aprender a acompanhar o sentido ou a orientação das letras, seguir as linhas do dizer para ver os desenhos que as letras que enviamos produzem na paisagem.

A criança que seremos, a criança que nós fomos, tão fugidia, nos apresenta um mundo rico de possibilidades, um mundo onde a fantasia adulta, social, foi atravessada, e onde só restam semblantes. Estes, contudo, não nos entristecem, como se perdêssemos o chão, como se um mundo sem essências fixas, formas e padrões, nos abrisse um abismo sem direção, sem orientação. O sintoma tem sentido nele mesmo, em sua repetição e sua valência de mais ou menos Gozo, sentido literal, que usa da linguagem como letra. Se o resto da análise, encarnada nos corpos humanos, não pode ser descrito, matematizado, talvez seja exemplificado pelo fato que não há matema do resto da análise e do ensino de Lacan, o sinthôme – pois, não há regra para se adquirir a santidade, ou seja, a saúde. A orientação literal do sintoma em psicanálise, que aprendemos acompanhando os impasses do adolescer na contemporaneidade, que nos manda sua letra, seu recado, nos aponta para uma psicanálise outra, não mais encerrada no matema, mas que se abre ao poema.

 

Marcio José de Araujo Costa[1]
marciojacosta144@gmail.com

 

 

Referências bibliográficas:
BIRMAN, J. Outro lugar para o analista. Em: HERZOG. H. e PACHECO-FERREIRA, F. De Édipo a Narciso: a clínica e seus dispositivos. – Rio de Janeiro: Cia de Freud: UFRJ; Brasília, DF; CAPES PRODOC, 2014, p. 79-94.
LACAN, J. Lituraterra. Em: Outros escritos. – Rio de Janeiro: Zahar, 2003.
LACAN, J. O Seminário, livro 23: o sinthoma, 1975-1976. Rio de Janeiro: Zahar, 2007.
LACAN, J. Seminário, livro 18: de um discurso que não fosse semblante. – Rio de Janeiro: Zahar, 2009.
NIETZCHE, F. Assim falou Zaratustra: um livro para todos e para ninguém. – São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
[1] Filósofo, Psicólogo e Psicanalista integrante da Delegação Geral do Maranhão da Escola Brasileira de Psicanálise. Doutor em Psicologia Social pela UERJ. Pós-doutorado em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Professor adjunto do Departamento de Psicologia da UFMA.