Reprodução de Mulher Sentada em um Jardim, Picasso, 1938

Tereza Braúna Moreira Lima[*]

Ovídio (apud BRANDÃO, 1989, p. 177-178), em Metamorfoses, fala-nos do mito de Narciso, de onde recorto esses fragmentos:

Deitou-se e tentando matar a sede, outra mais forte achou…/enquanto bebia, viu-se na água e ficou embevecido com a própria imagem / julga corpo, o que é sombra, e a sombra adora! Extasiado diante de si mesmo, sem mover-se do lugar. Narciso parece uma estátua de mármore de Paros /em sua ingenuidade deseja a si mesmo/ a si próprio exalta e louva /inspira ele mesmo os ardores que sente. […]  Crédulo menino, por que buscas em vão, uma imagem fugidia? O que procuras não existe/ não olhes e desaparecerá o objeto do teu amor… A sombra que vês é um reflexo de tua imagem […].

De qual lugar, atualmente, em nosso mundo contemporâneo, responderá nosso Narciso púbere quando os objetos mais-de-gozar se oferecem cada vez mais ao apetite dos consumidores em forma de Latusas, prometedoras de completude?

Lacan (2003, p. 411) assinala esse momento “como a ascensão do objeto ao zênite social”, fato esse que se presentifica quando ideais e marcas simbólicas estão desvalorizados a tal ponto que surge “como a época do Outro que não existe” (Miller ; Laurent, 1998). O momento da adolescência ocorre, com efeito, através da reconfiguração do Narcisismo e, assentindo com Miller (2015), a adolescência é uma construção, um artifício significante.

Vamos demonstrar nos moldes da articulação entre o “eu ideal, Ideal do Eu” em Freud, na Introdução ao Narcisismo, bem como no esquema L de Lacan, nos Escritos. E, diante dessa construção, observar os efeitos sócio-teóricos que tais contingências influenciaram no modo de gozo desse adolescente na contemporaneidade.

Lacan (1949) propõe que o estádio do espelho envolve para o infante uma transformação de si mesmo, uma unificação, quando assume uma imagem – o que implica uma identificação. Trata-se de uma identificação à imagem do semelhante e à percepção de sua própria imagem.

Inserindo nosso adolescente numa revisita ao estádio do espelho, já que a adolescência é uma refiguração do Narcisismo, vejo-o mirando-se nas águas de uma modernidade líquida e fragmentada, onde este Outro sem consistência não poderá confirmá-lo com seu olhar, nem testemunhar sua identificação.

Cogito e questiono se o eu ideal não funcionaria como Ideal do Eu, revestindo esse corpo adolescente num registro imaginário, que o faz claudicar frente à difícil subjetivação da função fálica. E nesse crucial momento há o máximo de pulsão numa unidade corporal formada pela prematuridade da criança e do desamparo do adulto.

Lacan (2003, p. 557) em seu prefácio à peça O despertar da primavera de Wedekind, lembra-nos, com Freud, “que em sua matéria o artista sempre o precede (…) desbravando-lhe o caminho”. E constata que “o despertar da sexualidade na adolescência faz um furo no real, do qual ninguém escapa ileso”. Eclode a angústia. Surge o impasse de apresentar-se na cena do Outro como causa de desejo. Que fazer com sua libido? Qual a saída para o gozo excessivo que o parasita?

Miller (2014, online) ao apresentar o Seminário VI, de Lacan (1958) enfatiza que “o desejo não é uma função biológica nem coordenado a um objeto natural; que seu objeto é fantasístico”. Não há pontes para atingir o corpo do outro, e essa contingência aponta para a inoperância dos recursos simbólicos e imaginários com os quais o adolescente tenta dar conta do real em jogo; o que desestabilizará sua virada subjetiva nessa metamorfose.

Lacan ([1959] apud MILLER, 2015, online) “refere-se à placa giratória, no campo da fantasia, tal uma encruzilhada, cuja interpretação é a de um ponto de confronto no qual o sujeito teria que decidir um rumo”. Seria o momento de reorientação da fantasia, que certamente apaziguaria e organizaria seu empuxo pulsional em direção a objetos que estão fora do circuito conhecido da infância. Onde o significante desfalece, Lacan imagina a solidão de um sujeito montado sobre uma placa giratória que lhe oferece destinos. Destinos de pulsão, segundo Freud (1915).

O significante perdeu sua força dentro do software – Complexo de Édipo que ligava o homem ao mundo. O declínio da sociedade paiorientada tem como consequência o surgimento de um sujeito atrelado à falta de ideais e paradigmas, sob a égide da forma descompleta da subjetivação e potencialmente irresponsável.

Há uma desorientação no seu modo de satisfação, o que Lacan, em sua segunda clínica chama de “curto-circuito do gozo” e Forbes nomeia como “momento do gozo ilógico e desregrado”. Uma modalidade de gozo explícito, obsceno e excessivo!

Nosso Narciso dos tempos líquidos está imerso na desestruturação dos filtros do saber, vítima da neofilia, sofrendo a sobrecarga de novos significantes que chegam até ele sem cessar e logo se tornam obsoletos.

Com esse referencial de mundo, aportam na clínica atual as mais diversas formas de sintomas que se inscrevem e, diferentemente do “corpo imaginário da histérica”, aparecem num corpo “marcado pelo real”.  É o corpo dos fenômenos psicossomáticos, dos transtornos alimentares, das adições, da síndrome do pânico, da depressão, do fracasso escolar, da passagem ao ato, onde o adolescente é lançado ao campo do “sem palavras”, no qual o UM do corpo é só o que há!

 

 


REFERÊNCIAS
BRANDÃO, J. S. O mito de Narciso e Eco. In: Mitologia Grega. Rio de Janeiro: Vozes, Vol.3, 1989.
LAURENT, Éric; MILLER, Jacques-Alain. O outro que não existe e seus comitês de ética. Belo Horizonte: EBP-MG, n.12, p. 4-18, set. 1998.
MILLER, J.-A. Apresentação do Seminário 6: o desejo e sua interpretação, de Jacques Lacan. Opção Lacaniana online nova série. Ano 5, n. 14, jul. 2014. Disponível em: <http://www.opcaolacaniana.com.br/pdf/numero_14/  Apresentacao_do_seminario_6.pdf.> Acesso em: 24 ago. 2018.
MILLER, J._A. Em direção à adolescência. Belo Horizonte, 06 mai. 2015.  Disponível em: <http://minascomlacan.com.br/ publicacoes/em-direcao-a-adolescencia/>. Acesso em: 24 ago. 2018.
LACAN, J.  O estádio do espelho como formador da função do Eu tal como nos é revelada na experiência psicanalítica. In: Escritos. Trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
________. Prefácio a O despertar da Primavera. In: Outros Escritos. Trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro. Jorge Zahar, 2003, p. 557 – 559.
­­­­­­­­­________. Radiofonia. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar; 2003. p. 400-447.

[*]Psicanalista, participante da Delegação Geral do Maranhão – Escola Brasileira de Psicanálise.