1.O que a psicanálise lacaniana tem a oferecer ao sujeito contemporâneo, como tratamento do seu mal estar? (Thaïs)

Para início de conversa, essa pergunta me fez lembrar da entrevista de Miller “As profecias de Lacan”, na seguinte passagem: “No fundo, no inconsciente, o gozo de vocês não é complementar àquele de ninguém. Construções sociais mantinham todo esse imaginário no lugar. Agora, elas vacilam, pois o empuxo do “Um” se traduz sobre o plano político pela democracia a mil por hora: o direito de cada um a seu próprio gozo torna-se um “direito humano”. Em nome de quê meu gozo seria menos cidadão que o seu? Isso não é mais compreensível. É também porque o modelo geral da vida cotidiana no século XXI é a adição.”

O momento atual é esse e a experiência analítica tem o que dizer, ela está autorizada a transmitir que quando as referências de uma época se apóiam no gozo em detrimento do significante, a pulsão silenciosamente vai exigir sua satisfação mais perto dos corpos, do que dos ideais. E de fato, nossa clínica confirma, que a pulsão não se cura, portanto, lidamos hoje com sintomas que trazem a prevalência do gozo no corpo. Nesse cenário, que podem os analistas?

Podem, segundo Lacan, ser “compensatórios” – ou seja, trabalharem para que “não falte o ar” –,  operadores da subtração, abrindo furos na  ordem de ferro “para todos”, visando que cada um encontre sua forma singular de aliança.

Desde sempre, a psicanálise recolhe seus efeitos exatamente por destituir a crença na solução universal, nos imperativos da tradição, no pensamento único, diluindo as identificações em massa e sustentando a vitalidade de um furo operante. É tarefa dos analistas, no ponto em que vigora o sufoco da fórmula “para todos”, realizar a subversão necessária, para dar lugar à solução de cada um. Operar como “pulmão artificial”, nas palavras de Lacan, implica abrir lacunas para  dar passagem no falar de um gozo singular, assegurar o direito dos sujeitos se manterem vivos, ao diluir o poder asfixiante e normatizador que rege os dias atuais. Trata-se de convidar a falar, a praticar a associação livre inaugurada por Freud, visando liberar respiradouros ante as “avalanches das exigências do mestre contemporâneo”. A aposta é a de que, por essas aberturas, possa emergir a potência inventiva e subversiva que advém do mais singular de cada um.

 

2.O que tem a dizer sobre a formação do analista hoje? Algo mudou? O que tem a comentar sobre a Psicanalise em intensão e em extensão? (Thaïs e Thereza)

Não diria que algo mudou na orientação lacaniana quanto a formação do analista, mas que hoje, mais do que nunca, estamos esclarecidos quanto ao real que conta e participa dessa formação, exigindo dela estar engendrada aos impasses de sua época.

Em 20 anos da Escola Brasileira de Psicanálise, testemunhamos o vivo de sua experiência desde lá onde um psicanalista está, ou seja: no único dos relatos de passe; na confidência entre dois parceiros no particular da clínica; quando um analista toma sua parte de responsabilidade nas instituições cuja casuística e sua posição nos projetos clínicos permitem verificá-la; ou infiltrada como passageira clandestina nos tecidos discursivos da cidade.

A presença modesta e ativa de analistas da Escola, infiltrados em conversações clínicas ou debates sobre questões de sociedade, desde então, abrem respiradouros onde a ordem de ferro de uma época desconhece o poder subversivo das invenções singulares.

Podemos afirmar que a EBP é, hoje, uma experiência, como propôs Lacan,  “cujos membros não reclamam da sociedade nenhum privilégio de extraterritorialidade, mas de agirem na vida cotidiana e na vida intelectual de seu tempo para fazer passar o que, da política lacaniana, é susceptível de transmitir a todos e de ter uma incidência real”.

O uso do termo política, aqui, é aquele de Lacan na “Direção da cura”, concernido, precisamente, ao fim da análise. Pois só existe uma psicanálise para os lacanianos:  é a que se pratica e se dá ao testemunho nas condições de crítica e de controle, no âmbito de nossa Escola, conforme preconizou Lacan. Uma psicanálise que se mostra a partir do que se passa pelos poros das paredes da experiência analítica, do que alí se infiltra do húmus da cidade, do que dalí se exala e se propaga.

A experiência do passe, em nossa Escola,  transmite e confirma que no percurso de formação do analista vão se erodindo as defesas, suas paredes tornam-se porosas e permeáveis ao que se passa e ressoa no corpo falante enganchado ao impacto da brutalidade opaca de seu tempo. Da contingência desse enganche extraímos a força da psicanálise. Portanto, não convém à política que praticamos, reduzir a psicanálise a compartimentos separados,  do tipo:  “psicanálise que se aplica à cidade” ou “psicanálise que se pratica no consultório”. A dispersão vem a galope quando não consideramos a dobradiça que as enoda à um eixo único, em uma só psicanálise.  Cuidar desse enlace, dessa ação dobradiça, é cuidar da formação do analista e da sobrevivência da psicanálise, como disse Eric Laurent:

“O psicanalista é aquele que afirma ter obtido da experiência o que dela ele podia esperar, que afirma, portanto ter transposto, como Lacan nomeou, um passe. No passe ele atesta a superação de seus impasses. A interlocução pela qual ele visa obter um acordo sobre essa travessia se faz em dispositivos institucionais. Ela se inscreve, de modo mais profundo, na Grande Conversação da psicanálise com a civilização.”

 

 

3. Qual o papel do analista no campo do Outro Saúde Mental? (Silvana)

A clínica das psicoses inaugurada por Lacan desfaz definitivamente a idéia de uma hierarquização entre as estruturas. Desmistifica a concepção de que a “loucura” seria um degrau menor da humanidade, esclarecendo de forma retumbante que “todo mundo delira”. A clínica da psicose de Lacan nos permite tomar o falasser como uma resposta, uma forma de laço social –  um sinthoma.  É com isso que cada um faz seu laço, a partir das palavras que tocaram seu corpo,  da relação com os objetos destacados de seu mundo, do que lhe foi falado, das contingências da sua vida. A contingência do encontro entre a pulsão e o Outro é o que faz de cada um único, a forma como o Um se enoda e se amarra nesse mundo. E, se cada um é um, não há hierarquia entre os corpos falantes.

O analista de orientação lacaniana, no campo da saúde mental, cuida para que haja lugar, nesse campo, para instalação de uma clínica orientada ao detalhe singular com que cada falasser arranjou suas amarras, um por um, permitindo aí uma ampliação do cuidado e do acesso aos recursos de tratamento do que desamarra em si e corre solto: a loucura de cada um.

Por isso mesmo é fundamental, para o analista lacaniano, dar lugar ao saber de cada um, seu saber fazer, sua arte e artifícios. A clínica nos ensina que o que orienta a direção do tratamento é o saber que o sujeito tem sobre a sua loucura, sobre esse resto irredutível fora da lei, e as formas singulares de sossegar/enredar isso, que não cessa, ao convívio. Tarefa viva que vai do necessário ao impossível.

A presença da psicanálise no campo da saúde mental oferta àquele que sofre condições de encontrar no dizer uma forma de expressar sua desordem.  Isso abre-alas pra que cada um possa inventar e transmitir suas soluções.

Com a Lei 10.216, podemos dizer que se instalou, no Brasil, uma política pública que procura ampliar os recursos de tratamento da loucura de cada um, dispensando as soluções segregativas. Cada um vai fazer uso desses recursos à sua maneira. A presença de um analista, aí se instala,  para que “a sua maneira” seja uma orientação, caso a caso.

 

4. O que a Psicanálise tem a contribuir, em sua prática nas instituições, para otimizar a convivência com o adolescente? (Moacir)

Concordamos com Miller quanto ao fato de estarmos numa época onde recolhemos os efeitos do enfraquecimento do nome do pai; a relação dos adolescentes com os adultos não se faz, predominantemente, pela via da identificação ao pai, como nos tempos freudianos. Tal situação incide diretamente sob a forma como a transferência aí se apresenta.

Em programas e instituições dos quais a orientação lacaniana participa, hoje, recolhemos relatos sobre o que se passa nos encontros entre adolescentes e adultos em oficinas, atividades criativas e conversas. Ali acontece uma transferência que não opera da mesma forma que aquela que supõe um saber ao Outro. É uma transferência de trabalho que, conforme ensina Lacan, induz que o corpo aí se implique, numa parceria que consente a uma satisfação singular, quando um saber fazer autêntico aí se revela.  Não se trata de fazer igual ao mestre, mas de fazer passar pelo furo aí inscrito, a substância que faz andar o fazer de cada um à sua maneira. São encontros onde ao fazer juntam-se as palavras – não se faz sem conversar. Uma orientação lacaniana!

Ao franquear a palavra, abre-se ali um intervalo que produz deslocamentos, desviando a pulsão do seu fim, num circuito ampliado que desenha um enquadre para que o que corria solto possa andar articulado. A intrusão da psicanálise aí, como passageira clandestina do discurso de várias políticas e práticas institucionais com jovens na nossa cidade, joga sua partida.

Cito aqui, Daniel Roy: “Se pode ser vantajoso que se acrescente às meninas e meninos ‘a psicanálise’, é porque esta, se apoiando sobre as fontes do discurso, permite desatar as amarras das coerções modernas e lhes fazer signo de que, se eles estão irremediavelmente sós para se confrontar com o real do sexo, eles não são, apesar disso, os únicos a ter que se virar com isso…”

 

Com Fernanda Otoni Brisset – Psicanalista, membro da EBP e AMP e Diretora de Secretaria