Iteração – Que lugar tem a psicanálise nesse mundo pós moderno?

F. Coutinho – A psicanálise foi inventada para tratar o mal estar de sujeitos de uma era (ou de um mundo) conhecida como vitoriana, na qual, apesar da “morte de Deus”, da queda das monarquias e impérios europeus ou como ficou mais conhecida por nós, psicanalistas que seguem a chamada orientação lacaniana, da era do declínio da autoridade paterna, ela produzia efeitos de “cura”.
Mais de um século depois do estabelecimento da psicanálise, num mundo onde o lugar de Deus, dos reis e do pai, foi ocupado pelo mestre invisível do discurso capitalista, apoiado num outro discurso, dito da ciência, o ser falante continua a padecer de um mal estar que continua reclamando um tratamento.
Seria possível esperar que para essa nova era, com sua forma inédita de sofrimento, pudéssemos recorrer ao mesmo método da era passada?
Sim e não, sou tentado a responder.
Sim, se reinventarmos o método e enriquecermos a doutrina de Freud, com a indispensável contribuição do ensino de Jacques Lacan e da orientação de Jacques-Alain Miller.
Não, se persistirmos em seguir obstinadamente e de olhos vendados a invenção genial que revolucionou os costumes de todo um século, mas sem nada nela mudar, concorrendo assim para a sua falência.
Conclusão, a psicanálise ainda tem um imenso lugar em nosso mundo pós moderno desde que se disponha a responder às questões específicas desse mundo.

Iteração – Este ano está em pauta o tema do Congresso da EBP, trauma e violência. Como você vê esse quadro na contemporaneidade?

F. Coutinho – A humanidade sempre conviveu com a violência. Não precisamos ir muito longe no tempo para constatar essa afirmação.
O século XX, que para nós todos ainda faz parte de nossa contemporaneidade, foi um dos séculos mais violentos de que se tem conhecimento. A primeira grande guerra foi responsável por uma carnificina que devastou um continente.
O século XXI, já se iniciou, no 11 de setembro, com uma violenta catástrofe de proporções gigantescas.
Os grandes centros urbanos mundiais atuais são sinônimo de perigo à solta.
Entretanto, o novo para nós psicanalistas talvez consista em articular essa característica humana até certo ponto pública com uma experiência privada, sempre singular, a do trauma do contato com a língua, a do trauma da entrada no universo do simbólico, articulando assim uma situação de pura violência física com sua ressonância simbólica e imaginária.
Certamente não é dessa violência apenas física, que atinge o corpo como organismo, que nossa psicanálise se ocupa e sobre a qual está se debruçando, fazendo dela o tema de um Congresso.

Iteração – Quais os campos do conhecimento que você julga terem melhor interlocução com a psicanálise?

F. Coutinho – Talvez a pergunta não seja quais campos do conhecimento, pois na verdade, qualquer campo do conhecimento humano pode oferecer a ocasião de uma feliz interlocução com a psicanálise, tudo depende da forma como for abordado. Finalmente, toda produção de conhecimento não seria uma produção do inconsciente interpretável, defesa contra o real?
Além dos campos do conhecimento, porque não pensar também na abordagem dos objetos de arte, estes sim, ainda mais próximos daquilo que não se interpreta, mas que talvez possa vir a ser abordado por uma leitura?

Iteração – Qual o diálogo possível entre psicanálise e neurociência?

F. Coutinho – Esse diálogo vai exigir das duas “ciências” a admissão de um campo específico para o encontro, que só consigo vislumbrar na admissão por ambas de um sujeito constituído pela fala.

Iteração – O que você entende por iteração?

F. Coutinho – Pergunta de difícil resposta. Porque não pensar no real, no que se repete sem nenhuma possibilidade de representação, no que se repete, sem dúvida alguma, mas sempre fora do sentido, no que se repete apenas como manifestação do puro acaso?

 

Rio, 29 de julho de 2014

Fernando Coutinho Barros