Na clínica universal do delírio, que não é o delírio que tratam os psiquiatras, o que você poderia dizer que há de novo nas psicoses ordinárias na contemporaneidade? (Thaïs Moraes Correia)

Se acompanharmos Lacan o desenvolvimento de seu ensino, o veremos enfatizar a orientação clínica ao real e ao aparelhamento do gozo. Nessa via, passou à clínica borromeana, indo mais além da clínica estrutural, que distingue neurose e psicose a partir da presença ou ausência do Nome-do-Pai. Esse desenvolvimento nos leva além da foraclusão do Nome-do-Pai para foraclusão generalizada, nos fazendo questionar o que mantém juntos os três registros. R.S.I. Assim, aporta uma clínica continuísta e o que a guia é localizar “isso” que num certo momento se desengancha na relação com o Outro. Dessa maneira, deslocou a visão do Nome–do-Pai que aparecia em sua unicidade como aportou Freud para a pluralidade de Nomes-do-Pai e em seguida alojou-a no Outro e na língua, que se encarregam da nomeação do gozo. Essa via dá acesso à todas as possibilidades de tratamento de perturbações da linguagem.

Há casos que pertencem ao campo da psicose, sem desencadeamento típico, fazendo acomodações e suplências possíveis que encobrem os signos precursores da psicose, que chamamos psicose ordinária. Trata-se, então, de verificar neles a questão do sujeito com a própria língua, assim como um progressivo desenganche do Outro.

Hoje, no tratamento deve-se ajudar ao sujeito psicótico a “fazer-se um nome”, a dar conta de estabelecer uma significação nova após a invasão de um gozo impossível de dizer. Isso não quer dizer levá-lo a identificar-se a um nome ideal, mas sim se refere ao fazer do analista de acompanhá-lo a realizar um trabalho de tradução da língua, conduzi-lo à encontrar alívio numa tradução constante, possibilitando um tratamento a esse gozo inominável.

Esses aportes nos permitem repensar o tratamento psicanalítico da psicose, não como expandir ou reduzir o delírio, mas como resituar o sujeito na língua a partir a da linguística de nosso tempo. Enfim, devemos caso a caso conduzir à uma tradução orientada a partir do que é o inominável do gozo.

No que tange as psicoses ordinárias, qual o lugar da Interpretação nas  neoconversões, onde a palavra não cede ás intervenções significantes ou á argumentação lógica?  (Tereza Braúna).

Primeiro é preciso situar as neoconversões como fenômeno do corpo não histérico, não interpretável a maneira de Freud. Esses fenômenos aparecem no corpo, fazem sintoma, mas sem lesioná-lo, o que nos leva a constatar que a parte subjetiva da conversão, ligada ao desejo, se localiza em relação a um Outro não barrado.

Vemos aí as novas manifestações sintomáticas que mostram a transformação da função paterna e a fragmentação da autoridade, conduzindo que o uso que se faz do corpo já não está marcado pela castração do Outro.  Isso implica a valorização do Outro da imagem e do saber absoluto.

Como, então, “lidar com”, interpretar, os pacientes que portam o objeto literalmente no bolso, grudados a gadjets que lhes dão a ilusão de que tudo podem saber? Como lidar com as diversidades de formas apresentadas pela economia do gozo na atualidade, que revelam modos de corporificação dos sintomas que escapam à decifração do inconsciente? Muitas dessas modalidades (toxicomanias, anorexia, entre outras) encobrem os signos da psicose, tornando nossa tarefa mais desafiante.

Na época do Outro que não existe, com essas novas modalidades sintomáticas que não passam pelo inconsciente transferencial, o analista tem que estar à altura de sua época, enfrentar o desafio de decifrar, traduzir, orientar o paciente a fazer-se um nome, tentativa de nomear o gozo inominável acompanhando os avatares da transferência. Esteja frente a qualquer estrutura, neurose ou psicose, empresta seu corpo para fazer ressonância aos rumores do significante, podendo ocupar o lugar do Outro diferente daquele que seu paciente conhece, assim como se utilizar da interpretação enquanto corte, mas sempre sustentado no desejo do analista. Enfim, faz ato.

O que tem o analista a dizer sobre a questão dos transgêneros tão presente no discurso atual? (Silvana Sombra)

Temos que fazer um passeio pela nova ordem simbólica que tem se revelado inoperante para falar da desordem do real. Por isso, no momento atual, o falasser tem se caracterizado por falar com o corpo, das mais variadas formas sintomáticas. O mais de gozar foi elevado ao zênite social, como diz Miller, constituindo-se, assim, o impasse ético pela promoção do supereu como ordenador de um excesso de gozo. Por consequência, surge uma brecha na estrutura, por onde o falasser, no empuxo de cada vez mais fazer valer sua vontade de gozo, faz emergir atuações de todo tipo.

Tal configuração traz como efeito pensar que a liberação sexual, que a exposição corporal a todo tipo de inscrições, cortes e recortes, tornam a imagem organizadora da sexualidade. Isso é desconhecer que a subjetividade desafia esse suposto poder da imagem sobre o corpo, é pensar que as identificações imaginárias podem fazer existir a relação sexual.

No seu texto Biologia lacaniana e acontecimentos de corpo – J.-A. Miller comenta que “costumamos identificar, de modo imaginário, o corpo como ser do vivo. No falasser, entretanto, o corpo não é da ordem do ser, mas do ter, por isso, o falasser precisa, narcísicamente, identificar-se à imagem do seu corpo” e acrescenta: “a imagem do corpo é envelope de todos os fantasmas possíveis do desejo”.

Nesse sentido, temos que ter certa precaução ao utilizar esse significante trangênero, pois parece haver um equívoco em pensar que a transformação do corpo biológico define o gênero. Para psicanálise o que está em pauta é a posição de objeto que cada sujeito foi para o Outro e o destino que cada um dá a isso na fantasia. O efeito será a identificação sexual e a escolha de objeto.

O termo gênero que é uma palavra gramatical, só vai valer para os psicanalistas se designar uma posição subjetiva em relação ao ser sexuado, designando um modo de ser além de toda norma comportamental. Isso é fácil de confundir porque sempre se organizou a relação sexual com as identificações masculinas e femininas, mais ou menos dentro dos padrões, assim se articulava um saber para regular o gozo. Agora ressaltarmos o falasser na sua relação com o gozo, aí introduzimos uma clínica mais além do Édipo

Para isso é preciso que a operação de separação se reatualize para que o falasser, marcado pela ausência de saber sobre o real do sexo, sobre o “não há relação sexual”, seja convocado a ir além do falo, na condição de servir-se dele. É somente através da nomeação do objeto que o falasser será capaz de se aproximar da inexistência da relação sexual como um trauma subjetivável, evitando assim cair de volta na deriva que o deixa a questão sobre o sexo e a existência.

Na nossa época hiper-mediatizada, as telesessões, via telefone ou vídeo-chamada , são fenômeno comum nas psicoterapias. Há alguma possibilidade de se estabelecer um “setting psicanalitico” frutífero numa cyber-análise ?  É mesmo necessário a presença de um analista encarnado para que a transferência aconteça.  O esvaziamento da presença física não estende de maneira exagerada o domínio do imaginário? (PetrosStasinos)

Sabemos que o simbólico tornou-se um aparelho de semblantes, ameaçando excluir o desejo do analista e, por consequência, facilitando os desvios mais diversos da prática analítica. Contudo, o analista lacaniano, engajado no movimento da hipermodernidade, está advertido do caráter artificial do laço social, das crenças e da pluralidade das significações da nossa época.

O falasser sustentado nos poderes sombrios do supereu, na confluência do discurso capitalista, do discurso tecnológico e da ciência, atua, que ao contrário de levá-lo a encontrar a sonhada autonomia, geram novas modalidades de sintomas e denunciam a sua maneira perversa de fazer uso do simbólico para se defender daquilo que habita o âmago do seu sinthoma, se defender do gozo opaco que o habita.

Essa conjuntura promove uma rejeição do laço social, privilegiando o mais de gozar que influi de forma direta sobre os corpos e o modo do falasser viver a pulsão. Em outras palavras, incitamos a uma substituição ilimitada de objetos, que deixa o falasser sem lugar, assim, ao invés do alivio, temos o horror de se ver errante, na busca desenfreada pelo objeto impossível de encontrar. Nessa via, os vemos se colocarem cada vez mais, a procura de algo que não conseguem traduzir em palavras, mas, que lhes invade o corpo, e o que resta é um estranhamento devastador, traduzidos no silencio e na solidão, dessa forma não dando mais importância ao fato de serem seres de fala, levando a sociedade a navegar em um verdadeiro oceano de gozo.

Frente a esse panorama, entendemos a clínica psicanalítica, hoje, como uma clínica orientada para o indizível de cada um, que não prioriza mais a decifração do sintoma, tampouco tenta dissolvê-lo através da interpretação, assim como não prioriza a imagem. A clínica lacaniana, cuja orientação é ao real, privilegia o UM-corpo, mas continua sendo uma pratica de fala, sustentada na transferência cujo pivô é o Sujeito Suposto Saber. Visa zelar pela eficácia do discurso analítico, no qual o analista faz semblante de objeto a, ressaltando a presença e o desejo do analista que o sustenta. A importância do “en corps”, implicíto na função do analista, ao consentir fazer ressoar os significantes do paciente abre uma brecha para a experiência de satisfação corporal.

É dessa forma que não desconhecemos valor experiência psicanalítica de hoje, ao contrário, buscamos renovar o seu sentido, mas sem abandonar seus princípios,

O que a psicanálise de Orientação  Lacaniana tem a oferecer ao sujeito contemporâneo, como  tratamento do seu mal estar? (Thaïs Moraes Correia)

O falasser da modernidade é múltiplo para ele próprio. As identificações que o apoiam são frágeis, tendo em vista o declínio da função paterna. Sonha com o Um, todavia, é um ser múltiplo pelos significantes que o representam junto à multiplicidade de outros. Em função dessa fragilidade, suas identificações são verdadeiras armaduras egóicas e se apegam cada vez mais às oportunidades de gozo. Em outras palavras, na contemporaneidade nos organizamos ao redor de um ponto opaco de gozo, heterogêneo a qualquer organização governada pelo significante do Nome do Pai. Nesse sentido, cada falasser é servo desse ponto do gozo, estranhamente familiar que a oferta excessiva de objetos tenta camuflar.

Essa atual configuração desafia o analista, convocando-o à invenção de um paradigma clínico fundamentado em uma orientação ao real. O ato analítico deve incidir para desmontar as novas defesas contra o real, a fim de ocasionar o advento de corpos habitados pelo desejo, com seus equívocos e sua possibilidade de invenção.

É preciso, então, passar da clínica da articulação significante, do sintoma, à clínica do sinthome – na qual a psicanálise localiza o mais singular do gozo, aquilo que o torna incomparável ao outro. Assim, passa da clínica da decifração, da escuta do sentido à clínica da leitura, do escrito, visando o não sentido. É a clínica do uso singular da letra de gozo do sinthoma.

Trata-se, portanto, de inventar um modo de viver a pulsão, um saber fazer aí, que nos demonstra que a psicanálise é um “viés prático para se sentir melhor na vida”, como diz Lacan no Seminário 24, no que podemos acrescentar: melhor consentindo com o corpo que se tem.

Nessa perspectiva, o advento do “melhor na vida” é consequência de um viés prático, que se apoia no ato analítico. O analista se faz presente, aí, como marca de uma abertura inédita à experiência de satisfação corporal.