Com Analícea Calmon –Psicanalista Membro da EBP /AMP, conselheira da Delegação Geral Maranhão

COM O DECLÍNIO DA FUNÇÃO PATERNA E A QUEDA DO FALO, OS SEMBLANTES DE CRENÇA NO PAI FICAM ABALADOS. COMO FAZER COM QUE OS SEMBLANTES POSSAM FAZER FRENTE AO GOZO COMO EXCESSO, NA CONTEMPORANEIDADE? (Thaís Moraes Correia)

É uma pergunta bastante interessante e oportuna, mas, para desenvolve-la, cabe um esclarecimento inicial: não é o falo propriamente dito que cai, e sim o falo como centro, o que acompanha o declínio da função paterna e a consequente pluralização dos Nomes-do-Pai.  O significante queda, foi enfatizado por Laurent, referindo-se, numa perspectiva  metafórica, às quedas do Muro de Berlim e das Torres Gêmeas. Tais quedas trazem uma ideia de desabamento, o que remete à detumescência, trazida por Lacan no Seminário 10, para subverter a hegemonia do órgão sexual masculino como representante fálico de autoridade e poder. Assim sendo, o que se configura é uma problemática do patriarcado. Esta problemática aparece desde o período germinal da obra de Lacan quando, ao escrever sobre os “complexos familiares”, ele se refere ao declínio da Imago paterna, o que podemos ler como uma queda da autoridade simbólica. Na contemporaneidade, esta queda pode ser observada, por exemplo, nos movimentos feministas, que não mais se referem às mulheres em si, tendo como objetivo fazer frente aos homens enquanto dominadores. No campo da ciência, observamos a adoção da pílula da obediência, para crianças hiperativas e da pílula da felicidade, para crianças deprimidas. Sobre a segunda parte da pergunta, não saberia dizer exatamente como fazer, mas posso dizer que o que se tem feito para barrar o gozo como excesso é uma substituição do Nome-do-Pai e do falo pela Nomeação, o que Lacan, no Seminário 24, chama de “ordem de ferro”, designando-a como um novo lugar para ordenar o gozo, que só a mãe pode realizar. O modo como isso é feito fica por conta da singularidade de cada um.

AS DISCUSSÕES SOBRE A QUEDA DO  FALOCENTRISMO E SUAS CONSEQUÊNCIAS PARA A PSICANÁLISE ESTÃO, A CADA INSTANTE, FICANDO MAIS VIVAS DENTRO DA EBP. ESTAMOS TOMANDO COMO REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA PARA NOSSOS ESTUDOS, OS TEXTOS DE FREUD, LACAN, MILLER E OUTROS COMENTADORES DO CAMPO FREUDIANO. LEVANDO EM CONSIDERAÇÃO AS ARTICULAÇÕES DE FREUD E LACAN, VOCÊ PODERIA NOS DIZER COMO ESTES DOIS AUTORES ABORDAM A QUESTÃO DO FALO AO LONGO DE SEUS ENSINOS? (Anícia Ewerton)

Uma resposta na íntegra, a esta pergunta, certamente ocuparia todo o espaço da revista; por isso vou tentar respondê-la de forma bastante resumida, destacando os principais pontos da abordagem teórico-clínica desses dois autores. Começo por dizer que esta questão continua a anterior, na medida em que refere à queda do falocentrismo e suas consequências para a psicanálise. O que se pretende hoje é dar um tratamento teórico- clínico a este termo que, desde os primeiros pilares da construção da psicanálise, tem sido usado socialmente para criticá-la. Este tratamento vai começar em 1900, quando a noção de falo aparece pela primeira vez na obra de Freud, no seu texto sobre A Interpretação dos Sonhos, como representação simbólica do órgão sexual masculino. Continua sendo apontada no Ensaio sobre a sexualidade infantil, em 1905, até que alcança maior desenvolvimento entre os anos 1923 e 1925, quando Freud escreve sobre a organização genital infantil nas crianças e sobre as consequências da distinção anatômica entre os sexos. Tal organização culmina na idade adulta sob a consideração de que, para ambos os sexos, há uma prevalência do órgão genital masculino, do ponto de vista anatômico, o que remete a uma primazia simbólica do falo. Já no final de sua obra, estudando algumas lendas e mitos que traziam o elemento fogo, Freud comparou o calor à excitação sexual e a forma da chama a um símbolo fálico. Referiu-se ao fato do homem primitivo tentar apagar o fogo, como uma luta pessoal entre falos. Por fim, considerou que a destruição do fogo pela água significa a castração. Lacan continua Freud, relacionando o falo à castração numa perspectiva imaginária. Nessa oportunidade, porém, a parte do corpo comparada ao falo não é o órgão masculino e sim a boca, em direção a uma articulação com o desejo. Cito um comentário de Lacan sobre a imagem do sujeito no espelho:

“Se vocês inclinam o espelho, a própria imagem muda. Sem que a imagem real mexa, pelo simples fato de que o espelho muda, a imagem que o sujeito, colocado do lado do espelho esférico, verá …, passará de uma forma de boca a  uma forma de falo, ou de um desejo mais ou menos completo, a esse tipo de desejo a que eu chamava há pouco, despedaçado” (LACAN, J. 1954/1985. p. 176)

Alguns anos depois, ao transmitir o seu 5º seminário, As formações do inconsciente, Lacan estava interessado em abordar o inconsciente estruturado como uma linguagem, promovendo, assim, uma articulação mais incisiva entre o corpo e o significante. Em 1958, numa conferência sobre A significação do falo, Lacan faz uma marcação bem contundente, dizendo que é somente com base em fatos clínicos que essa discussão poderá ser fecunda. E o que os fatos clínicos mostraram, foi que a referência à relação entre os sexos não seria a anatomia, que ele depois preferiu considerar morfologia, e sim o falo. Nesse sentido Lacan subverte a concepção freudiana de que a incompletude convém à menina e a completude ao menino, argumentando que se fossemos seguir a linha morfológica, a completude estaria do lado da mulher, visto que esta tem o aparelho reprodutor e o homem não. Assim sendo, Lacan segue sua argumentação pelo caminho de uma lógica, tomando o falo para além de um objeto, na perspectiva de um significante. Assim, a relação da castração com o desejo vai podendo ser entendida como a relação do desejo com o significante. E, nessa perspectiva, Lacan vai poder dizer que é na relação entre os sexos que se encontra a mais profunda função do significante fálico, o que se sustenta até o final de seu ensino, que é orientado pela inexistência da relação sexual. É sob esta lógica que, nos anos 70, ele constrói as fórmulas da sexuação, atribuindo ao homem a posição de castrado, por estar todo submetido à lógica fálica; e à mulher uma posição ilimitada, por estar não toda submetida ao gozo fálico. Vemos, assim, que é a significação do falo que promove o encontro com a inexistência da relação sexual e, ao mesmo tempo, quando, no último ensino de Lacan, o falo é reduzido à categoria de semblante, é, justamente, do semblante fálico que os sujeitos se servem para dissimular e encobrir o que não há.

QUAIS SÃO AS CONSEQUÊNCIAS DA QUEDA DO FALOCENTRISMO NO CAMPO POLÍTICO E SOCIAL? (Thaís Moraes Correia)

A queda do falocentrismo atinge a cada indivíduo na sua singularidade, como sabemos. Entretanto, considerando que remete o indivíduo à sua condição originária de desamparo, produz ressonâncias em seus diversos  campos de atuação, tais como o político e o social, tornando líquidas as relações e os laços verticalmente sólidos. Em consequência, os sujeitos buscam construir relações horizontais, criando grupos por afinidades, como por exemplo: grupo de anoréxicas, grupo de toxicômanos, etc. como uma forma de solucionar a condição de desamparo em que se encontra. Novas configurações familiares começam a surgir. A maternidade passa a ser mediada pelas leis e pelo mercado, fazendo, assim, do filho, uma mercadoria, um objeto de compra. A sociedade dos gozos que não passam pelo falo prolifera-se de modo excessivo. Prolifera a oferta dos gadgets como objetos complementares, da qual fazem uso as crianças do Um, quando não conseguem se alojar no Outro. A consequência dessa produção incessante é que em lugar de serem consumidos, estes objetos de gozo acabam por consumir o próprio sujeito

SE A EXPERIÊNCIA ANALÍTICA É UM MODO DE DERRUBAR O PODER DOS IMPERATIVOS, COMO INTERROGARR NOSSA PRÁTICA A PARTIR DA ÊNFASE NOS PODERES SEM PAI, DA RELAÇÃO AMOROSA EM QUE FALTA E FALO SÃO RAREFEITOS E NOVOS SINTOMAS SE PLURALIZAM? (Tereza Baraúna)

A experiência analítica, de fato, é um modo de derrubar o poder dos imperativos, visto que analisar significa separar. Assim sendo, a análise se abre a um outro trabalho do íntimo, o que leva cada analisante a um percurso que vai da extimidade à existência, a partir da função “intimante” da regra fundamental. Esta condução é orientada por um princípio lacaniano segundo o qual, na medida em que o que está fora – exterior – falta,  o que está dentro – íntimo – sobra. É disto que a experiência analítica se ocupa.

COMENTAR A CLÍNICA PSICANALÍTICA IMPLICA FALAR DA PRÓPRIA EXPERIÊNCIA COMO ANALISTA E PACIENTE. IMPLICA INTERROGAR SOBRE SUA EFICÁCIA E SOBRE O MODO DE OPERAR O SOFRIMENTO PSÍQUICO. O SINTOMA COMPARECE EM SUA DIMENSÃO SIGNIFICANTE E NOS INSTALA NO CAMPO DA CLÍNICA COMO ENTRADA E SAÍDA. PERGUNTO: COMO PENSAR O SINTOMA NO FINAL DA ANÁLISE? (Suely Simone)

Falando da experiência analítica, sabemos que no seu início, nas entrevistas preliminares, o sintoma é endereçado, sob transferência, na forma de um sofrimento, um mal-estar. O analisante busca construir um sentido diante do enigma causado quando o sintoma perde o estatuto de resposta. Um percurso guiado pela suposição leva ao atravessamento da fantasia fundamental, fazendo chegar ao acontecimento de corpo, que consiste num choque do significante de alíngua, fora do sentido, sobre o corpo, o que Lacan chamou de sinthome. Se a única identidade que se sustenta é a identidade sintomal, ao final da análise, pensa-se numa transformação do sinthome, evidenciada pelo surgimento da invenção na palavra e guiada por um percurso em que o analisante perde o que o mantinha enlaçado ao Outro, para encontrar o que o enlaça ao UM

Com Analícea Calmon –Psicanalista Membro da EBP /AMP, conselheira da Delegação Geral Maranhão