1-O que você teria a dizer sobre a experiência de em terra tão distante à sua, fazer a transmissão da Psicanálise de Orientação Lacaniana?

É uma experiência muito gratificante. Encontro com colegas de contextos culturais diferentes, mas com referenciais teóricos comuns. Essa é uma das maravilhas da Escola (ligada à Associação Mundial de Psicanálise): pertencer a comunidades de trabalho em que o saber se acumula e se compartilha. A barreira do idioma é um obstáculo. Mas com toda a dificuldade, nos põe à prova no desejo de fazer uma ponte. Tenho ( ou melhor Tendo?) sido convidado a falar sobre o amor, e não é estranho este tema à conjuntura a que cada um “dá o que não tem”, pondo à mostra, até o limite, a castração à qual nos expõe o exercício de cada uma de nossas línguas.

E nessa interlocução, ao final nos reunimos. Quero dizer que finalmente triunfa o desejo! E falando disso… a alegria! A boa onda de meus colegas brasileiros que impregna e contagia a cada momento de trabalho…

2-Sobre essa palestra que você veio fazer aqui no Maranhão, o que pode dizer sobre os problemas do amor nos dia de hoje?

O problema que está caracterizando este século, a respeito do amor, é a sua banalização. Não se trata só dos desenvolvimentos de Zigmunt Bauman ou de Baudrillard que testemunham respectivamente a “liquidez” e o simulacro dos vínculos. Como disse em outro momento. A novidade que advém com a Psicanálise está em advertir que o modo estrutural com que gozamos é autista. Não se necessita de nenhum outro para gozar. No vazio que a Psicanálise produziu ao demolir a fé nos discursos estabelecidos, se instalou a economia de mercado. A mão da Ciência nos propõe insistentemente permutar o corpo do outro com aparatos que não se queixam da falta de amor. Uma empresa japonesa promove pequenas máquinas de masturbação com a frase: “ela não vai te pedir presentes, nem que a convide a entrar em cena.

3-O que é a Psicanálise de Orientação Lacaniana, sobretudo no século XXI?

É uma pergunta de alto calibre.  Nem mais, nem menos se trata do esforço continuado de orientação que nos emite Jacques Alain – Miller há mais de trinta e cinco anos. Mas eu posso dizer que na proporção direta à emergência de novas formas de sofrimento humano, se trata de uma orientação na direção da invenção. O amor mesmo – que em absoluto é natural – é uma invenção relativamente moderna. E como sabemos, a invenção floresce sobre o horizonte de extremo impasse, que em nosso jargão chamamos de “o real”. Mas deve uma invenção que carregue o peso de um saber que outros utilizarão com êxito.

Como dizia Nietzsche, temos que ser como um camelo para suportar isso; logo agir como um leão, para animar-se a questioná-lo e finalmente uma criança, para fazer surgir algo novo.

 

4-Desde 2013, você vem realizando um trabalho de transmissão, da teoria psicanalítica, junto à Delegação Geral Maranhão, onde foram discutidos alguns conceitos como: transferência, interpretação, pulsão, violência, angústia, feminilidade, etc. Sabe-se que a formação de um analista está sustentada em um tripé, análise pessoal, estudo teórico e supervisão. Qual o valor da supervisão nessa forma, hoje? 

Não encontro uma maior diferença ao que classicamente  temos sustentado sempre. Supervisionar foi e segue sendo uma coisa de valentes. Expor a própria prática é um exercício de castração imaginaria que mantêm em  forma o desejo de analista. Quiçá possamos destacar hoje o traço de invenção que exige do praticante e estar à altura das formas contemporâneas do sintoma, que nos obrigam ao uso prudente do sentido. Para isso não é conveniente arriscar-se sozinho.

Trata de ir contra – com a ajuda de pequenos outros- (a) inércia de sempre: confrontar-se com o já foi aprendido, na tentação de anular qualquer novidade para refugiar-se no conforto do já aprendido.