Moacir Col Debella*

Entre sintomaQuando lemos Eric Laurent em “A ordem simbólica no século XXI – Conseqüências para o tratamento” encontramos um exemplo de alguém marcado pela cena de ter observado “atividades eróticas dos pais”. Os posteriores cenários do personagem que procurou o analista podem simbolizar o que a prática clínica nos propõe em cada impasse. Os impasses que cada analisando confronta. No caso do personagem citado pelo autor, há “a contemplação fascinada de sexos desvelados de maneira pornográfica”. Pergunta Eric Laurent: “Quanto tempo a fixação escópica do sintoma o manterá ao abrigo da constatação de que nunca retornou da atribuição da mulher proibida, inacessível?” E remete à necessária passagem do significante mestre ao furo na linguagem.

O mestre Freud ensinava que o destino das pulsões, são o recalcamento, a fantasia e a sublimação. Nasio articula a lógica do pensamento freudiano, demonstrando que as pulsões que ultrapassam a barreira do recalcamento se expressam nas Formações do Inconsciente, sonhos, atos falhos, laços afetivos, ou são sublimadas através de manifestações socialmente relevantes tais como as obras de arte, o que seriam artifícios / sintoma sem conflito, ou através das fantasias. Os objetos fantasiados da pulsão, fantasias inconscientes subjacentes como o polegar, as fezes, o falo, a mãe, o pai… São sempre meros simulacros do prazer. O prazer total jamais será atingido já que o prazer total só aconteceria no impossível do incesto.

Por sua vez as pulsões que não ultrapassam a barreira do recalcamento retornam ao inconsciente e se multiplicam em novas pulsões o que entendemos como a base para a dinâmica da repetição. A repetição que caracteriza o sintoma. Este volta ao mesmo lugar e retorna ao mesmo acontecido. Repete-se na dinâmica da adicção, por exemplo, “a raiz do sintoma que é feito da reiteração inextinguível do mesmo UM” (Miller). Mas sempre é preciso na Psicanálise ver cada caso como um caso.

Adicção e não adição. Adição é o desejo que quer sempre mais um. Mais um celular, mais uma roupa, mais um objeto na busca de tamponar o que produz a própria essência do desejo, ou seja, estar sempre insatisfeito. A adicção, por sua vez, está fora do sentido, porque é um mesmo acontecimento inexplicável, é um acontecimento de corpo e não sendo mais um é o mesmo UM que volta a acontecer toda vez. É o que se constata na estrutura do vício. O viciado em craque repete sempre o mesmo ato. Não está fumando mais uma dose, mas sempre a mesma dose, o mesmo UM do vício. A observação da cracolândia no Rio de Janeiro é o retrato contundente do UM que se repete. Cada viciado está pouco ligando para qualquer coisa que não o seu cachimbo, absorvido com incontinência no mimetismo do pequeno universo em que ele se isola. Nada mais importa de tudo à sua volta. E se fôssemos buscar alguma saída para este grave problema social de pouco ou quase nada adiantaria remover o objeto do gozo, subtraindo a droga. A subtração da droga não remove o problema talvez o agrave, por se tratar mais de ato policial do que de ato humanitário. Tão logo ele, o viciado, retorne do isolamento de sua terapia como ato de intervenção, reincidirá na busca e reencontro de seu gozo. Que saídas, o que a Psicanálise pode oferecer diante dessa irrupção do real?

Ao observarmos o que estabelece Freud sobre as definições do inconsciente sob diferentes pontos de vista: dinâmico, descritivo, ético, econômico e sistemático nos remetemos à grande significação dada ao inconsciente. Na 1ª. Tópica o pré-consciente e o consciente como meros epifenômenos do inconsciente. Toda a vida psíquica é inconsciente. E pergunta Miller: ´O inconsciente é real?’ Não… o inconsciente é uma hipótese…é o resultado de uma dedução”. Mas uma dedução que nos possibilita o retorno de lembranças que “residiam em algum lugar” (in Ler o sintoma).

E o inconsciente não é real porque é ético, Lacan Seminário 11, e, portanto, relativo ao desejo do analista.  E o desejo produz um efeito de verdade que demanda uma interpretação. Só que a interpretação não extingue o sintoma e leva o analisante, depois da travessia da fantasia, a confrontar-se com os “restos sintomáticos”.

E conclui Miller: “Sob o nome de restos sintomáticos, Freud chocou-se com o real do sintoma, com o que, no sintoma, é fora de sentido”.

Como podemos passar da escuta do sentido à leitura do fora de sentido? Como podemos interpretar o fora de sentido do que se repete, do que volta ao mesmo lugar?

Estará nosso analisando neste impasse ou o que o acomete obedece à lógica do desejo que se repete não mais no UM e sim no mais um?

Ou ainda, em que medida o analisando pode “obedecer” a cenários distintos que intercalariam sintoma com sinthoma? Ou seja, mesmo que esteja atravessado pela transferência e que busque um sentido para a sua questão vai assim supor no analista o saber suposto (SsS) e no sintoma aquilo que é da ordem da disfunção – poderia ele, o analisando, ser “possuído” por momentos em que aquilo que não funciona, o sintoma, é na verdade a única coisa que funciona – o Sinthoma?

A resposta nos vem de Miller em Ler um sintoma: “Para tratar o sintoma, é preciso passar pela dialética móvel do desejo, mas também é necessário se desprender das miragens da verdade que essa decifração aporta e apontar mais além, à fixação do gozo, à opacidade do real”.

Estar diante do analisando é antes de tudo escutar o que não é falado e ler o que foi escrito. Nos ensina Gorostiza:  na prática (analítica) a interpretação aponta, não ao decifrado de um saber sempre hipotético, como o inconsciente semblante, mas a alcançar a potência do sintoma como sintoma-gozo. É algo do gozo que não passa pela castração. É o acontecimento corporal e o fora de sentido, ou seja, o gozo obscuro ao sentido, sem lei, o encontro imprevisto, contingente, que perturba que desregula. É o fora de sentido que quando se repete passa do real para o necessário.

Pergunta Goroztiza: Como conceber uma prática analítica na qual os semblantes com os quais a psicanálise se produziu (o pai, o Édipo, a castração…) puseram-se a tremer?

São os impasses da análise, porque o que interessa à análise é o resto, o que não encaixa o que faz efeitos disruptivos. Só é material da análise o que está no lugar de outra coisa.

Na análise acolhe-se o imaginário, o que faz sentido e age-se sobre o simbólico em sua interseção com o real e na medida em que ocorre essa interseção modifica-se o convívio com o real. Como o real é aquilo que surpreende e é o que volta sempre ao mesmo lugar, a saída para o impasse posterior à análise pode estar exatamente na reconciliação com o próprio Sinthoma. Reconciliar-se com o próprio sinthoma, ou seja, com a singularidade, não desfaz o impasse em que o analisante se encontra após o atravessamento da fantasia, mas permite avanços na análise que sempre começa com a surpresa e termina com a repetição.

Diz Miller que o sinthoma é uma resposta que já está lá. É a substância gozosa, o modo absolutamente singular, irredutível, resto absoluto, que é fundamentalmente desestruturante e que apaga as fronteiras do sintoma e da fantasia, da neurose e da psicose.

E para simbolizar o necessário “reencontro” do analisando com seu Sinthoma na especial dinâmica da descoberta da própria singularidade, somente possível através da análise, vejamos o que o poeta, ainda em 1976, já versejava sobre o sinthoma, embora ele não tivesse esse nome:

 

O que será que me dá
Que me bole por dentro, será que me dá
Que brota à flor da pele, será que me dá
E que me sobe às faces e me faz corar
E que me salta aos olhos a me atraiçoar
E que me aperta o peito e me faz confessar
O que não tem mais jeito de dissimular
E que nem é direito ninguém recusar
E que me faz mendigo, me faz implorar
O que não tem medida, nem nunca terá
O que não tem remédio, nem nunca terá
O que não tem receita
O que será que será
Que dá dentro da gente e que não devia
Que desacata a gente, que é revelia
Que é feito uma aguardente que não sacia
Que é feito estar doente de uma folia
Que nem dez mandamentos vão conciliar
Nem todos os ungüentos vão aliviar
Nem todos os quebrantos, toda alquimia
Que nem todos os santos, será que será
O que não tem descanso, nem nunca terá
O que não tem cansaço, nem nunca terá
O que não tem limite
O que será que me dá
Que me queima por dentro, será que me dá
Que me perturba o sono, será que me dá
Que todos os ardores me vêm atiçar
Que todos os tremores me vêm agitar
E todos os suores me vêm encharcar
E todos os meus nervos estão a rogar
E todos os meus órgãos estão a clamar
E uma aflição medonha me faz suplicar
O que não tem vergonha, nem nunca terá
O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem juízo

Composição: Chico Buarque

*A.P. filósofo, professor universitário UNDB, participante da Delegação Geral Maranhão

LACAN, Jaques. O seminário – Livro XI:  Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988.

Miller, J.A. – Perspectivas dos Escritos e outros Escritos de Lacan – Entre Desejo e Gozo. Zahar – Rio 2011.

Miller, J.A. – Ler o sintoma – texto. 2011.

Goroztiza, Leonardo.  Ressonâncias de “Uma Fantasia” A invenção da prática lacaniana. Texto 2011.

Laurent, E. A ordem simbólica no século XXI – Conseqüências para o tratamento. Texto 2010.

NASIO, J.D. – Introdução às obras de Freud, Ferenczi, Groddeck, Klein, Winnicott, Dolto, Lacan. Jorge Zahar Editor. Rio de Janeiro, 1995.

NASIO, J. D. – O Prazer de Ler Freud. Zahar Editor, Rio de Janeiro, 1999