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O que nos é tão singular e intransferível que se torna por vezes inexplicável? Sinthome é o nome do incurável? Se assim for que caminho trilha-se na experiência analítica para chegar à apreensão dos elementos que não podemos explicar, justificar ou mesmo significantizar? Estaria à clínica borromeana em oposição à Clínica Estrutural? Em ambas há a questão do inconsciente como incurável? Será possível suportar o mais irredutível de sua subjetividade e aprender a viver com isso a partir disso?

Após refletir essas questões e leitura de alguns textos sobre a primeira e a segunda clínica em Lacan, considero pertinente retomar, ainda que em rápidas pontuações, alguns conceitos sobre sintoma em Freud e Lacan, assim como sobre a sua contextualização; como interpretável, curável, onde é dada uma dimensão de sentido etc (…) ao do sintoma cuja dimensão é a do gozo do analisante, fora do sentido, onde – ele – o analisante, através da sua experiência analítica caminha para uma identificação ao seu sintoma, podendo dizer: Ele, o sintoma, sou eu.

Nos estudos sobre histeria, dizia Freud (1895) (2015, p. 309): “você irá convencer-se de que é grande o ganho se conseguirmos mudar sua miséria histérica em infortúnio ordinário”. “Com uma vida anímica restabelecida você poderá defender-se melhor dele”.

Presenciamos a psicanálise, nesse momento histórico, tendo por objetivo curar ou pelo menos minorar o sofrimento neurótico. Com Freud o sintoma é uma mensagem a ser decifrada, uma metáfora, uma formação do inconsciente que expressa, como no sonho e nos lapsos, um sentido mascarado. É um texto escrito de modo disfarçado, que pede interpretação por parte do analista.

Sintoma como formação de compromisso onde o sujeito se arranja para lidar com a castração. É uma das formas em que este se organiza frente às limitações do seu corpo e as interdições da cultura.

Em “Os caminhos da formação do sintoma” Freud (1917) (1980a, p.421) esclarece que:

Pelo caminho indireto, via inconsciente e antigas fixações, a libido finalmente consegue achar sua saída até uma satisfação real – embora seja uma satisfação extremamente restrita e que mal se reconhece como tal.

Freud (1913) (1980a, p. 422) ressalta ainda:

Que o sintoma repete a forma infantil de satisfação, deformada pela censura que surge no conflito, via de regra transformada em sofrimento e mesclada com elementos provenientes da causa precipitante da doença.

Nesse contexto, o sintoma é concebido então como um mecanismo de defesa expressado pelo recalque, baseado num trauma que é parte da realidade psíquica do sujeito e a castração para Freud é a realidade final.

Mais adiante, a partir de experiências clínicas, Freud conclui que o trauma poderá ser suposto ou inferido e, abandonando a teoria do trauma, instaura a concepção da teoria da fantasia.

O sintoma é o lugar paradoxal onde o sujeito,sem que ele o saiba, tem a sua satisfação sexual e, também, o seu sofrimento.

Em “Inibição, Sintoma e Angústia”, Freud (1926) apresenta o sintoma como “um sinal e um substituto de uma satisfação pulsional que permaneceu em estado jacente” e em “O Mal Estar na Cultura” – Freud (1930) postula a autonomia e prevalência da pulsão de morte, sendo essa responsável pela repetição, lugar de sofrimento e desprazer, o qual proporciona uma satisfação paradoxal, para além do princípio do prazer, que faz o sujeito gozar do seu mal estar (Apud DIAS, 2006, p. 401).

E no curso de suas investigações, na conferência “Angústia e vida pulsional” Freud (1933) (1980b, p. 106) concluiu:

Parece, com efeito, que a geração da angústia é o que surgiu primeiro, e a formação dos sintomas o que veio depois, como se os sintomas fossem criados a fim de evitar a irrupção do estado de angústia.

Com Lacan podemos distinguir dois momentos em que são produzidas novas concepções metapsicológicas do sintoma, abaixo:

Na década de 1950, os textos são marcados pela prevalência da ordem simbólica. Lacan (1953, apud DIAS, 2006, p. 402) define sintoma como “o significante de um significado recalcado da consciência do sujeito” e afirma também que “o sintoma se resolve por inteiro numa análise linguageira, por ser ele mesmo estruturado como uma linguagem, por ser a linguagem, cuja fala deve ser libertada.”

Seguindo a pista de Freud de que o sintoma persiste mesmo após a sua interpretação e dando conta da limitação produzida pela mesma, Lacan avançará no sentido de conceber que além da rede simbólica, algo mais rege o sintoma. A isso ele dará o nome de gozo, como algo que resta e ainda que o neurótico demande a cura, não a quer, aferrando-se ao gozo de seu sintoma.

É o sintoma como gozo articulado à pulsão, onde o sujeito, mesmo após ter o seu sintoma ‘decodificado’ pela interpretação, não renuncia a ele. No Seminário: a Angústia de Lacan (1962-1963) (1998, p. 134) concluiu:

O sintoma em sua natureza é gozo, – gozo encoberto sem dúvida… é algo que vai em direção à Coisa, tendo passado a barreira do bem…quer dizer do princípio do prazer, e é por isto que este gozo pode traduzir-se por unlust…desprazer.

No final de sua obra, sobretudo, nos seminários R.S. I (1974 -1975) e Le Sinthôme (1975-1976), Lacan define sinthome como função de letra f(x), um signo isolado da cadeia significante, uma cifra de gozo. É o objeto “a” inassimilável pela articulação significante, é o centro do irredutível, onde a psicanálise é uma práxis orientada para o núcleo do Real (apud DIAS, 2006, p.404).

Nesse núcleo, nesse caroço, reside todo o singular do sujeito. O gozo do UM, onde o sintoma é o escoadouro da sua inadaptação com o dois. Será necessário um certo acordo com seu modo de gozar, sendo parceiro de seu infinito particular, num acordo maior com a vida e o mundo.

Como conclusão gostaria de enriquecer este trabalho com uma poesia de minha autoria:

Sinthôme

“Meio a meio

Acho-me inteira no mundo

Divisa em mim de todos em cada um

Ruindo em silencio ruidoso

Entrego reticente

O viés do meu avesso

Inverso

Invenção

em verso “

 

Tereza Braúna Moreira Lima[1]
terezabrauna@hotmail.com

 


 

REFERÊNCIAS
DIAS, Maria das Graças Leite Villela. O sintoma: de Freud a Lacan. Psicologia em Estudo, Maringá, v. 11, n. 2, p. 399-405, mai./ago. 2006. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/pe/v11n2/v11n2a18.pdf.
LACAN, J (1962-1963). Seminário: a angústia. Publicação interna da Associação Freudiana Internacional. 1998.
SIGMUND, Freud. Estudos sobre a Histeria (1895). São Paulo: Companhia das Letras, 2015.
________. Os caminhos de formação dos sintomas (1917). J. Salomão (trad). Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas . v. 16. Rio de Janeiro: Imago, 1980a.
_________. Angústia e vida pulsional (1933). J. Salomão (trad). Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas . v. 22. Rio de Janeiro: Imago,1980b.
[1] Psicanalista participante da Delegação Geral do Maranhão –Escola Brasileira de Psicanálise.