REVISTA DIGITAL ITERAÇÃO DA DELEGAÇÃO GERAL–MA

*Thaïs Moraes Correia
thais@elointernet.com.br

O objetivo de uma revista de Psicanalise é transmitir o saber, saber esse que não pretende preencher o seu furo. No mundo cibernético temos a prevalência do objeto” regard” e a pergunta é inevitável: somos lidos? Estamos a fazer juz do verbo iterar, que põe em movimento uma escrita? O que nos move senão o desejo de pôr em movimento uma transmissão da Psicanálise de Orientação Lacaniana? Se não o fazemos de forma direta pelo que mostramos com o que escrevemos, enviamos o artigo para a comissão científica movido por uma transferência de trabalho à causa analítica, e mais especificamente ao modo que a tornamos vivificada na EBP-AMP. Atribuímos o desejo do analista aos efeitos como causa. Quem aqui escreve está movido por esse desejo, afinal a Psicanálise é o advento do desejo do analista.

Começamos nosso III numero de Iteração com uma entrevista muito preciosa com Fernanda Otoni Brisset, atual Diretora de Secretaria da EBP, psicanalista membro da EPB e AMP e que com pena afiada responde aos questionamentos meus, de Silvana Sombra, Moacir Col Debella e Tereza Brauna, com maestria. Com ela aprendemos a questionar: “O momento atual é esse e a experiência analítica tem o que dizer, ela está autorizada a transmitir que quando as referências de uma época se apóiam no gozo em detrimento do significante, a pulsão silenciosamente vai exigir sua satisfação mais perto dos corpos, do que dos ideais. E de fato, nossa clínica confirma que a pulsão não se cura, portanto, lidamos hoje com sintomas que trazem a prevalência do gozo no corpo. Nesse cenário, que podem os analistas?”

Temos um Comentário de Filme de Anicia Ewerton, psicanalista, participante da DG/MA, cujo filme é produzido no Canadá por um jovem que é ao mesmo tempo ator, produtor, roteirista e diretor Xavier Dolan – Trados. Esse filme, semi-biográfico foi escrito quando este polivalente diretor tinha 16 anos e precisava externar seus sentimentos, daí podemos entender como ele se joga à cinematografia de forma tão contundente. Ele encena, escreve, produz e o faz de forma profunda e tocante.

E em seguida vem os nove artigos que compõe nossa revista. Com meu artigo sobre Adolescência, podemos ver que é pedido ao adolescente na contemporaneidade que ele tome uma posicionamento no mundo: não há formulas, nem receitas para viver de forma melhor com seus conflitos pois aí ancora – se uma pulsão não educável e um gozo sem lei. Com Márcio Costa, psicanalista e participante da DG/MA que escreve sobre a literalidade do sintoma na atualidade no mundo adolescente, aprendemos que “a subjetividade de todos nós se assemelha a de um adolescente: em crise com seu corpo, com saudade de um passado irrecuperável, com medo de um futuro incerto e cheio de responsabilidade, muito mais atemorizante que estimulante”. Sobre Masoquismo vamos ter um tratado sobre o assunto, realizado pelo psicólogo grego que sempre freqüenta nossas atividades e contribui com palestras quando está no Maranhão. Tereza Braúna Moreira Lima – participante da delegação geral Maranhão – vai falar com delicadeza sobre o sintoma como nossa “carteira de identidade” a partir do título “O sintoma sou eu” e faz poesia com seu texto. Joselle Couto e Lima, filósofa, psicanalista e participante da DG/MA, vai abordar aspectos fenomenológicos do delírio a partir da obra de Schreber que nos ensina com Lacan a relação que se dá entre a pulsão inconsciente e a homossexualidade na paranóia. Flávia Bonfim que nos envia esse artigo sobre autismo de Niterói, nos convida a entender que os autistas ensinam a si mesmos, portanto não conseguem escutar o que temos a lhes dizer: o tratamento não visa então mudar os comportamentos dos autistas que se caracterizam por estereotipias, objetos autísticos e dificuldades em mudar a rotina, mas sim o de seguir em frente, o que vai lhe permitir de encontrar uma maneira singular de estar no mundo. Ernesto Mandelli, psicanalista da DG/MA vai nos falar do mal estar na cultura trazendo instigante tema para o mundo contemporâneo, traçando assim um paralelo em como surge a vida pulsional e como fica o gozo em excesso nos dias atuais. Alberto Saul, psicanalista membro da EOL nos presenteia com uma produção brilhante em sua língua mãe – o espanhol – que aborda o adolescente em sua placa giratória tramitando entre a crueldade e o desejo. Para finalizar, temos como aperitivo, um texto literário primoroso da escritora Lenita Estrela de Sá que nos fala sobre o prazer como bem supremo a partir de Fernando Pessoa. Bom apetit!

O psicanalista não existe: fica evidente que algo se constrói do lado da extensão, onde, por exemplo, ficam as revistas, os livros… Isso que se inventa está submetido a um princípio de verificação que se instaura pelo viés do testemunho do um a um; que como eu dizia no inicio faz apelo ao desejo do analista – a um princípio de verificação da falta inerente à psicanálise em intensão.

 São Luís, 11 de novembro de 2016