002Lacan, no seminário 3 diz que não é por uma simples satisfação de nosógrafo que ele busca a diferenciação entre neuroses e psicoses, mas que esta distinção é mais que evidente. Segundo ele é preciso aproximar as neuroses das psicoses com o propósito de se estabelecer uma diferenciação. Esta diferenciação justifica a forma como se dá a experiência da castração nas neuroses e nas psicoses para, a partir disso, saber se o que esteve em jogo foi uma Bejahung ou uma Vewerfung.

É da clínica diferencial que se está tratando inicialmente, é daquilo que podemos considerar o que é clássico na psicanálise freudiana e o que Lacan reflete no “Seminário 3” (1955-1956) que é o cuidado em diferenciar essas estruturas clínicas.

Seguindo as indicações de Lacan, para iniciar esta compreensão, o texto de Freud “A perda da realidade na neurose e na psicose” (1923-1925) aponta duas etapas fundamentais dessas estruturas na sua relação com a realidade. A princípio, a realidade da qual se trata é aquela que se depara com a castração. Então, as etapas fundamentais seriam as seguintes, segundo Freud:

  • Arrastar o ego para longe da realidade.
  • Reparar o dano causado e restabelecer a relação do indivíduo com a realidade às expensas do Id.

Segundo Freud, as neuroses e as psicoses possuem uma reação contra a realidade. Enquanto que na neurose, nesta primeira etapa, pode-se falar de um processo de fuga da realidade, na psicose trata-se de um ato de repúdio, uma espécie de rejeição. Nas neuroses há um processo de supressão do Id, em virtude de sua dependência da realidade. Ao passo que nas psicoses essa condição causaria a predominância do Id. Dessa forma, o modo de reparação dessa realidade ocorre de maneira diferenciada nas neuroses e nas psicoses.

A rejeição inicial das psicoses é sucedida de uma fase ativa de remodelamento da realidade. Esse remodelamento se dá através de um processo de substituição, uma recriação que ocorre de modo autocrático, e que depende da sua realidade psíquica interna. Enquanto que nas neuroses há um esforço para um ajuste na medida do possível para a satisfação do sujeito. Algo que muitas vezes pode fracassar, pois nas neuroses podemos dizer que se trata muito mais de um processo de reconciliação do que de um processo de ajuste.

Segundo Lacan, ainda no Seminário 3, para falarmos das neuroses temos que partir da noção de traumatismo, entendido como a causa da sua estruturação. Outra coisa é falar de uma ruptura com a realidade que acontece nas neuroses. A partir daí, Lacan propõe pensar de que realidade de fato se trata? Seria uma realidade exterior ou uma realidade psíquica? Pois no desencadeamento das neuroses a realidade que é eliminada e que se esconde é a realidade psíquica. O processo de simbolização torna-se um recurso necessário para tentar ressurgir a realidade obscurecida no processo da castração. Ao passo que nas psicoses, o recurso está no real. Os buracos da realidade para o psicótico são sanados através da fantasia psicótica, é aí que se instala a alucinação e o delírio.

Mas não podemos perder de vista que Lacan, no capítulo 11 do seminário 3, demonstra que Freud, ao tratar da verwerfung, deixa suposto que aí também está em jogo uma verneinung. Não é da verneinung das neuroses, mas como isto se dará nas psicoses, para que se possa compreender sobre a rejeição do significante primordial “em trevas exteriores”.

A verneinung neste sentido se refere a um processo primordial que traria a noção da realidade pondo à prova uma noção de exterior pelo interior. Nas psicoses podemos dizer que esta noção não se instituiu pela ausência de um significante primordial que segundo Lacan seria o seguinte:

É no interior desse corpo primordial que Freud supõe se constituir o mundo da realidade, como já pontuado, já estruturado em termos significantes. Freud descreve então todo o jogo da aproximação da representação com esses objetos já constituídos. A primeira apreensão da realidade pelo sujeito é o julgamento da existência, que consiste em dizer-Isso não é meu sonho ou minha alucinação, ou minha representação, mas um objeto. (1988, p. 178)

É esta noção que faltará aos psicóticos demonstrando assim a ausência significante desde este nível primordial. Faltará então um significante primordial. Segundo Lacan “trata-se de um processo primordial de exclusão de um dentro primitivo, que não é o dentro do corpo, mas aquele de um primeiro corpo de significante” (1988, p. 178).

Enquanto que nas neuroses pode-se falar de recalcamento, nas psicoses fala-se de uma rejeição que reaparece sendo projetada novamente para o mundo exterior, uma distinção preciosa feita no Seminário 3 por Lacan. A partir daí podemos situar: a bejahung, uma afirmação ao processo de castração, e a vewerfung, a negação radical da castração, onde há uma rejeição do significante mestre em que o campo do simbólico não é articulado em virtude da ausência de uma bejahung. Algo que é próprio da psicose.

Tudo o que vai traduzir todo esse aparato que na linguagem freudiana se refere ao Complexo de Édipo, como uma lei fundamental ab origine, para Lacan é simplesmente da lei da simbolização de que estamos tratando. Então, quando se diz que nas psicoses algo não foi recalcado, mas rejeitado, é para dizer que “alguma coisa de primordial do sujeito não entre na simbolização, e seja, não recalcado, mas rejeitado”. (LACAN, p. 100, 1988). É por isso que é preciso insistir que nas psicoses alguma coisa que não foi simbolizada vai reaparecer no real, mesmo que não se refira a uma clínica orientada pelo Nome-do-pai.

É através de uma dialética entre a experiência clínica com as psicoses e diante das novas conceituações da teoria da psicanálise que hoje, podemos dizer que há uma nova categoria epistêmica para compreendê-las.

O encontro de Antibes, por exemplo, se propôs a fazer um aggionarmento da elaboração teórica da psicanálise para assim avançar nos estudos sobre as psicoses. Diante do que os psicanalistas se deparam com diversos casos clínicos que não se adequam mais ao standart proposto por Lacan na sua clínica estrutural. Foi daí que o próprio Lacan, em sua última clínica, faz uma orientação para seguirmos em torno da questão do real e do aparelhamento do gozo, em que o Nome-do-Pai não é mais o operador.

Sem deixar de se valer da clínica estrutural, essas novas orientações acabam por dar conta de uma quantidade de casos clínicos que não se enquadram mais no que poderíamos chamar de uma clínica pai-orientada. A necessidade de uma atualização é resultante de uma dialética necessária entre a experiência clínica e os quadros conceituais da psicanálise que obrigam um revisionamento dos conceitos da clínica estrutural lacaniana. É daí que vem o termo aggiornamento, que é dar um novo adorno, atualizar os conceitos estruturais lacanianos, tais como: o conceito de desencadeamento, de fenômenos elementares, em virtude destes novos casos clínicos que só podem ser analisados a partir da orientação da clínica borromeana que é nomeada como clínica do real.

Segundo Miller (2012), é preciso saber identificar na clínica o que em um dado momento faz “desligamento” em relação ao Outro. Isso para que seja possível saber o que fez “ligamento” para esse sujeito, possibilitando um tratamento no sentido de um eventual “religamento” (e novas conexões). Para aquelas variantes clínicas consideradas “atípicas”, essa forma de identificar os desligamentos não se torna algo tão simples, a leitura destes sintomas não é uma tarefa fácil ao analista.

Esses casos se referem àqueles em que não acontece de forma fenomênica a eclosão de fenômenos elementares como nos casos clínicos clássicos de psicose, como o paradigma do “ Schreber”.

Enquanto que no “Seminário 3” Lacan demonstra uma grande preocupação com a fenomenologia das psicoses, hoje, é quase que habitual na clínica se deparar com casos em que não há desencadeamento como nos casos clássicos, mas novas formas de amarrações que se apresentam de forma confusa ao psicanalista. Por isso, houve a necessidade de reformulações conceituais que possibilitaram o surgimento de uma categoria epistêmica desenvolvida por Miller denominada de psicoses ordinárias.

Por uma suposição teórica, esses casos são analisados a partir da identificação de que não há significação fálica, pois não estão associados à operação da presença ou da ausência do Nome-do-Pai, por isso não é possível um desencadeamento clássico, já que esse exigiria um encontro com um furo insuportável que causaria em certo momento da vida do sujeito um desencadeamento em que: “O sujeito parece experimentar o buraco como tal, e o que se manifesta é o desfalecimento radical de todo aparelhamento significante de gozo” (MILLER, p. 24, 2012).

Embora não podendo abrir mão da clínica diferencial, o que se tem como orientação à clínica contemporânea que denuncia o declínio do pai, é ter o devido cuidado na leitura das entrelinhas, de caso a caso, sempre considerando os efeitos da contemporaneidade incidindo nas estruturas.

 

Joselle Couto e Lima – joselle.mcl@yahoo.com


 

REFERÊNCIAS

 

BATISTA, Maria do Carmo Dias; Laia, Sérgio (Organizadores) A Psicose Ordinária/Maria do Carmo Dias Batista e Sérgio Laia. Belo Horizonte: Scriptum Livros, 2012.

FREUD, Sigmund. Obras Completas. Volume 16. O EU E O ID,”AUTOBIOGRAFIA” E OUTROS TEXTOS (1923-1925).Tradução: Paulo Cesar de Souza. Companhia das Letras.

LACAN, Jacques. O seminário: as psicoses, 1955-1956/Jacques Lacan: texto estabelecido por Jacques-Alain-Miller [versão brasileira de Aluísio Menezes] 2. ed. revista. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.