Thaïs Moraes Correia*
thaismoraescorreia@gmail.com

1315_3201842861828_908034581_nSem olhar para trás para aprender com “as histéricas de Freud”, não poderemos inventar um futuro da Psicanálise. Assim como também, faz se necessário uma reformulação da questão da histeria, a partir da Orientação Lacaniana. É com o Lacan (2007) de 1977 que aprendemos a fazer um estudo da histeria pelo avesso.  Nesse período, quando ele constrói o conceito de falo como semblante, é que pode se pensar a histeria fora da metáfora paterna como era usual.  O sintoma histérico era visto como um sintoma que fala, endereçado, portador de um sentido. Não mais, pois a histérica rígida apresenta a histeria sem o sentido, o que faz com que não a compreendamos mais. O que vemos hoje é que a (o) histérica (o) não se autoriza mais no ‘Nome do Pai’, posto que a constituição do sintoma histérico não se baseia mais no amor ao PAI como no passado.  Laurent (2013) sinaliza que é precisamente isso que está em questão em nossa época; por isso precisamos conceber o sintoma não com base na crença no Nome-do-Pai, mas baseado na efetividade da pratica analítica. Sobre a histeria rígida desses novos tempos, esta se caracteriza por ser aquela que é saudosa do Pai e de ser um modo do sujeito viver sem a necessidade do Nome-do-Pai, sofrendo assim um abalo dos norteadores clássicos onde se buscava o sentido. A histeria rígida é uma histeria sem este interpretante que é o Nome-do-Pai, é uma histeria que se mantém inteiramente sozinha.

Quando Freud começa a Psicanálise, está fundando um novo campo do saber para tratamento do inconsciente, o que hoje sabemos ser uma experiência analítica onde se formam novos analistas. Freud dizia a seus pacientes: “antes que eu possa lhes dizer algo, conte-me a respeito de si próprio”. A essas alturas Freud já havia recebido em seu consultório uma senhora de nome Emy Von N. Num determinado momento Freud interrompe o relato dessa paciente para indagar-lhe sobre a origem de certos sintomas, pergunta-lhes por que sofre de dores gástricas e de onde elas provêm. A resposta dela, dada a contragosto, é de que não sabe. Freud pede que se lembre até o dia seguinte. Ela então, responde em claro tom de queixa, que Freud não deve perguntar de onde provém isso ou aquilo, mas que a deixe contar o que tem a dizer. Nasce aí a técnica da associação livre, quando o analista põe o analisante a trabalhar; marcando um ponto onde a análise deve começar quando a transferência esteja instalada. Do lado do analista, dizia Lacan, nada de regras, mas sim ética do inconsciente, regido pelo desejo do analista. Está aí o que se chamava de limpeza de chaminé, a talking cure, que hoje podemos assimilar como uma faxina, jogar para fora aquilo que já não serve para nada. Nas palavras de Marcus André Vieira (2008) encontro:

“Faz sentido que Freud tenha tido como primeira a histérica, já que a manobra da HISTERIA consiste justamente em nos fazer crer que o responsável pelo mal-estar do sintoma existe; de que teria sido vítima, entre outras coisas, de alguma agressão sexual em tenra idade, e que bastaria retornar ao evento, numa experiência de rememoração bem aristotélica – chamada por Freud e Breuer de ab-reação catártica -, para se livrar dele de uma vez por todas”. (pág. 72)

Diferentemente da medicina, na psicanálise o corpo é defini­do pela sua organização libidinal. Em psicanálise, portanto, é do corpo erógeno e não do biológico do qual se trata e foi isso que Freud pôde apreender e descobrir com as histéricas. Os sintomas histéricos causavam per­plexidade e desafiavam o saber médico, já que desobedeciam às leis anatomofisiológicas e não “encaixavam” no modelo científi­co vigente. Freud abriu a possibilidade de se deparar com uma nova anatomia, a anatomia fantasística.

A Psicanálise então não se baseia na idéia de que o corpo fala, mas sim inventa uma experiência analítica que vai por esse corpo para falar. Do que se trata então o sintoma analítico? Do que trata esse dispositivo que põe o corpo para falar? É de algo que está na fala mesma daquele que sofre. Ninguém vai ao médico dizendo: “estou com medo de dirigir”, ou: “não consigo falar em público”, ou “não sei como agradar meu marido” etc., pois estas são claramente queixas dirigidas a um psicanalista quando colocado na posição de suposto saber, o que vai permitir que a queixa inicial se transforme em um sintoma analítico.

E o que dizer do sintoma histérico? Sabemos que a histérica tem dificuldade de lidar com a assunção corporal. Não se trata aí de corpo imaginário ou simbólico, mas aquilo que afeta o corpo como acontecimento. Acontecimento esse que tem a ver com o destino do sujeito, com um gozo que não volta jamais ao zero. Há de se diferenciar sintoma conversivo histérico de sintoma como acontecimento de corpo, posto que este é o que não se decifra, pois está no inconsciente real.

Antes a clínica da estrutura, do Édipo, da NP, da primazia dos significantes, do continuísmo; hoje a clínica da conexão, da ironia, do pós estruturalismo, do pós edípico, a clínica do detalhe, onde a ênfase não é dada na rememoração; onde o passado não tem uma estatura privilegiada e o tempo presente é visado, uma clínica com uma nova pérè-version, nova versão do pai. A psicanálise não é uma religião, nem confessionário, pois não absolve ninguém. Cada um terá que encontrar por conta e risco a “salvação”. Como disse Miller (2013) em Opção Lacaniana 66, é sabido que a Psicanálise reúne o que de melhor tem o humanismo e a religião, para tratar do mal estar na civilização. Essa é a aposta.

Aqui se faz necessário dizer que a segunda clínica subsume com a primeira, mas é preciso relembrar do ‘primeiro’ Miller (1988) quando ele narra um caso clínico de uma moça que se consolava desde muito jovem com a fantasia que lhe servia como forma de obter excitação sexual. Miller assim nos fala de sua paciente que define como alguém talentosa em sua relação com o inconsciente e que assim relata ao analista: “É o seguinte: ser uma lavadeira, amar um sacerdote, arder queimada como uma bruxa”.

Miller observa que essa paciente não tinha sintomas de que se lamentar, e que o essencial nesse caso é que a pequena estória – ser lavadeira, amar um sacerdote, arder queimada – é uma formulação completamente separada do resto de seu discurso. Apesar de ser aquilo que se apresentava em todo o romance familiar, era também o mais oculto, da ordem do objeto e não da ordem do sintoma.

Lembramos desse caso, para nos fazer pensar sobre a clínica de hoje.  Há uma distancia entre enunciado e enunciação. Como nos lembra Laurent (2013) “o sujeito não sabe quem é, não pode absolutamente responder sobre nada concernente á sua identidade, suas lembranças, sua família, de onde vem… mas em compensação, pode muito bem aceder aos saberes que adquiriu: línguas estrangeiras, o manejo das máquinas complicadas…”

Quais os enigmas acerca do feminino nos tempos atuais?  Enigma ainda presente, posto que no feminino o todo não faz Um. Se todos estamos no gozo fálico, a mulher hoje tem a possibilidade de um outro gozo. Como nos lembra Nora Gonçalves (1996):

“A posição do gozo feminino dá acesso a esse outro modo de gozar, o que Lacan chamou de Outro sexo, possível também para um homem de aí se colocar. Isso permite que a posição feminina tenha acesso ao gozo do Outro, que arrebata o corpo feminino, gozo complementar, um a mais, aquele que foi dividido pelo gozo fálico e que vai além, infinito. “Enquanto o gozo fálico, masculino, pode ser dito, o Outro gozo é o inominável”. (pág.20)

“O que quer uma mulher?” cinge e borda em torno desse enigma, uma resposta que em cada época, será diferente, mas levando em conta que com a feminização no e do mundo cada sujeito terá que se a ver com sua feminilidade de uma forma muito singular. Essa singularidade é visada pelas mulheres de hoje: serão necessárias condições inéditas para o sujeito inscrever-se na sua própria ficção.

Finalizo com uma música de Vital Farias, para pensarmos sobre a questão da histeria:

“Prá você gostar de mim / Vital Farias”
           Vou comprar dois automóveis
            Um para mim outro pra ti
            Vou comprar mais dois imóveis
            Um pra mim outro pra ti           

            Mas isso não constrói nada
            Porque o que você precisa
            Não se pode comprar
            Porque o que você precisa
            Não se encontra num bar
            Porque o que você precisa
            É muito sim, é muito singular

            Mas sou teimoso
            Eu Vou comprar dois automóveis
            Um para mim outro pra ti
            Vou comprar mais dois imóveis
            Um pra mim outro pra ti 

             Vou jogar toda esperança
             Numa conta de poupança
             Prá você gostar de mim 

             Mas isso não constrói…            

             Vou levar você prá copa
             Vou lhe mostrar toda Europa
             Prá você gostar de mim…

*Psicanalista praticante, Aderente da EBP; Participante de delegação Maranhão, Professora adjunto II do Departamento de Filosofia da UFMA.

 

Referências Bibliográficas:

 (2008) Vieira, Marcus André

Restos, uma introdução lacaniana ao objeto da psicanálise. Rio De Janeiro: Contracapa

(1996) in Nora Gonçalves, texto: Posição feminina e gozo suplementar: Psicanálise: Problemas ao feminino / Jorge Forbes (org.) -Campinas, SP: Papirus

(1988) Miller, Jacques Alain

Percurso de Lacan uma introdução/ Jorge Zahar Editor – O campo Freudiano no Brasil

(2012) “O feminino acontece no corpo – A prática da Psicanálise nos confins do simbólico”

Org. por Heloisa Caldas e Claudia e Alberto Murta / Belo Horizonte: Scriptum livros

(2013) Laurent, Eric – Falar com seu sintoma, falar com seu corpo. (in Facebook, acesso em 2014

(2007)Lacan, Jacques – O seminário, livro 23: o sinthoma 1975-1975 – texto subestabelecido por Jacques Alain Miller – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.

(2013) Opção Lacaniana – revista psicanalítica brasileira internacional –São Paulo, SP:  Edições Eolia