Reprodução fotográfica do quadro da artista Marina Gondim, 2013.

Thaïs Moraes Correia[2]

1 INTRODUÇÃO

Este artigo sobre anorexia será baseado na minha experiência como psicanalista na clínica do real, com fundamentação teórica, ancorada na Psicanálise de Orientação Lacaniana.

No dicionário Aurélio (On-line, 2016), anorexia é redução ou perda de apetite; inapetência. Na literatura médica, a anorexia é muito mais comum em mulheres do que em homens.

A primeira questão que os médicos costumam se fazer diante da anorexia é a ausência de outros “sintomas”, além da enorme perda de peso, o que pode levar à morte: há uma perda de peso autoinduzida por restrição alimentar que acontece de forma insidiosa sem a presença de febre, dor ou qualquer fraqueza. Esses casos servem bem para pensarmos a diferença ente sintoma médico (que faz alarde, anuncia que algo não vai bem) e do sintoma para a Psicanálise – insidioso e cifrado por entre as palavras: serve como ponto de significação.

No ponto de vista psicopatológico, anorexia é a distorção da imagem corporal; apesar de muito emagrecida, a paciente percebe-se gordo, sente que algumas partes de seu corpo como o abdome, as coxas e as nádegas estão “muito gordas”. O pavor de engordar persiste como uma ideia permanente, mesmo estando a paciente com o seu peso bem abaixo do normal (DALGALARRONDO, 2008).

Na teoria psicanalítica, especialmente nos idos 1940 e 1950, tinha-se uma visão de que a anorexia enquanto histeria de conversão simbolizava o repúdio à sexualidade. Alguns psicanalistas falavam em fantasias de gravidez oral.

Com Lacan, podemos compreender a anorexia de outra forma. A teoria psicanalítica que se apóia na clínica do real é basicamente uma teoria sobre o desejo e, de certa forma, o apetite é o primeiro nome do desejo. A clínica da anoréxica nos permite pensar sobre a questão da incorporação do pai, já que dizemos que uma das definições do que é um pai é a de dar apetite ao filho, no sentido de que este possa degustar da própria vida, coisa que falta na anorexia, pois há uma demonstração de uma não abertura ao outro, um fechamento ao dom do amor. Efetivamente o amor ao pai parece não ter consistência de armadura que Lacan lhe atribui. É comum ouvir na clinica das anoréxicas a famosa frase: “nunca se falou dele em casa”. Há, então, na recusa anoréxica, uma relação especifica entre feminilidade e função paterna.

As dificuldades alimentares são muito presentes e frequentes na clínica de mulheres que, por estarem presas a uma ditadura da magreza, satisfazem-se comendo o “nada”. É o que explica a frequente obsessão com a imagem especular nas anoréxicas, havendo uma clara distorção da imagem corporal o que leva uma pessoa extremamente magra ver-se no espelho como gorda. No caso das anoréxicas, 5 a 10% chegam a óbito se não forem tratadas por uma equipe multidisciplinar. É sobre a evolução do termo e breve histórico deste sintoma que vamos tratar a seguir, na fundamentação teórica.

Cabe lembrar qual é o conceito que o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5, 2014, p. 329) declara sobre a anorexia: “Restrição persistente de ingesta calórica que leva a um peso corporal significamente baixo (no contexto do que é minimamente esperado para a idade, sexo, trajectoria do desenvolvimento e saúde fisica”. Enquanto para a medicina a anorexia é um transtorno mental constituído, uma doença, portanto; para a psicanalise trata-se de um “novo sintoma contemporâneo”, que ao lado das bulimias e toxiconomias pedem um deciframento e manejos do analista diante dessas novas formações do inconsciente, que são refratárias à palavra.

2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

Para a Psicanálise de Orientação lacaniana, nos casos de anorexia há uma demanda muda, silenciosa que deve ser acolhida. O paciente mantém uma relação anormal com a comida, sabe que arrisca sua vida, mas mantém esse saber fora da dimensão discursiva. Isto porque na anorexia há uma recusa dos deslizamentos significantes como se o desejo estivesse fragmentado pela fala – daí a deslibidinização que geralmente surge na adolescência. Dafunchio (2016, p.16) diz o seguinte acerca dos sujeitos anoréxicos:

Esses sujeitos são obcecados com a materialidade do objeto alimentar, dificultando sua incorporação a ponto de tornar-se impossível nos casos extremos, nos leva a perguntar sobre as condições em que se opera essa transmutação do objeto, que alcança o estatuto de mistério na religião cristã ao fazer-se presente no sacramento da comunhão, em que se trata da substancialização do corpo de Cristo em hóstia.

Lacan (1975) em sua “Conferência na Columbia University” já havia feito essa relação quando afirmou que o Pai é uma função que se refere ao real, e não necessariamente a verdade do real. O modo de existência do pai se mantém no real e na anorexia é o único caso em que real é mais forte que a verdade. Haja vista a questão da distorção de imagem tão relevante nos casos de anorexia. Ali, o real é mesmo mais forte que a verdade.

No caso da anorexia, o que se passa no corpo, não passa pelo discurso. O fato de a pessoa ser escrava do não-comer também a leva a outra escravidão: do não-dizer. Há então uma fixação auto-erótica, o refúgio do sujeito num gozo suplementar.

É necessária uma intervenção para que o sujeito pare de gozar com o nada da sua existência. Cuspir significantes faz o sujeito trocar um gozo mudo por palavras. E de que a anoréxica goza? Exatamente de não comer nada, do (re) encontro com o nada.

Tanto nas toxicomanias como no FPS (Fenômenos Psicossomáticos) e nos transtornos alimentares há um ‘gozo suplementar’ equivalente à pulsão da morte como se a dimensão do desejo estivesse esvaziada.

Numa análise, na vertente do amor de transferência, o sujeito pode encontrar o desejo que vai lhe permitir recusar o gozo excessivo. Assim é que podemos afirmar que o sujeito anoréxico insiste no seu gozo comendo nada. O sintoma anoréxico, mais do que todo sintoma, contém um gozo que denuncia um apetite de inércia e morte. Desse modo, a demanda do anoréxico é muda, pois o Outro materno o esmagou pela engorda, empanturrando-o. Diz o ditado popular: “De boca cheia, não se fala (…)”. Pode até acontecer de a função materna se restringir à função de alimentar a criança, quando sabemos que não só de pão vive o homem. As crianças se alimentam também de sopinhas de palavras, dos significantes que as rodeiam – que vão servir de alimento que lhes dão um lugar no mundo, diz o que elas são no desejo do pai ou da mãe.

Há uma fixação oral pela via do sujeito anoréxico? Fixação é um sujeito agarrado a um modo de gozo, quando ele deveria ultrapassá-lo, substituir por outro modo de gozo. Uma análise vai provocar mudança inclusive na complexidade das pulsões: de mais de gozar a objeto causa de desejo.

Do que trata, afinal, o sintoma da anorexia? De acordo com Soler (1998, p. 17) “é isto que o sintoma faz: dada a falta do parceiro adequado de gozo, um sintoma coloca alguma outra coisa no lugar; um substituto, um elemento adequado para encarnar o gozo”. Essa operação de substituição fixa o modo de gozo do sujeito.

Se a concepção de sintoma que vigorou até recentemente está fundamentalmente articulada, em Freud e Lacan, à palavra, as novas formas do sintoma se apresentam mudas, segundo Miller (1997). Essas se fazem presentes no corpo de forma mais direta, podendo causar-lhe danos, pois estão referidas ao corpo fisiológico e não ao corpo funcional. Aquilo que não é simbolizado, verbalizado, aparece no real do corpo.

Acerca dos novos sintomas, Miller (1997, p. 9) comenta:

A que nível introduziria algo novo? Falando simplesmente, pode – se introduzir algo novo no nível do desejo e não no da pulsão (…) O novo introduz-se sempre ao nível do que Freud denominou sublimação, onde há realmente novo. No nível do gozo pulsional domina o repetitivo.

Na anorexia há um horror provocado no outro desse corpo magérrimo. As mães dos anoréxicos são totalizantes e o que a pessoa anoréxica faz é “esburacar” a mãe.

Os sujeitos anoréxicos se questionam sobre o assunto da masculinidade-feminilidade nos dias atuais mais do que qualquer outra época. Há um massacre que aponta para um ideal de eu encarnado por esqueléticos tops models. Esse então é um drama moderno? Podemos então dizer que a forma como o sujeito lida com o nada é a forma como ele produz seu sintoma. É importante lembrar aqui que a anorexia pode se apresentar tanto na estrutura neurótica, como na estrutura psicótica. Aprendemos com Lacan que as estruturas apontam para o lugar que o sujeito ocupa frente à falta.

O falo como significante da falta nos aponta para uma castração, enquanto que o objeto-mais-de-gozar nos aponta para o nada. Apesar de ambos abordarem a negatividade, eles estão em oposição. Como uma análise caminha no sentido de fortalecer o recalque, haverá um esvaziamento de gozo que condicionará uma dessubjetivação – falta-a-ser – oposta, então, à nadificação que os anoréxicos usam como emblema das suas vidas.

Aí estão os principais pontos com os quais podemos tratar do conceito de anorexia, tomando como referência teórica a Psicanálise. Tendo em vista que a sexualidade humana remonta a própria história da vida do sujeito, como bem nos disse Freud (1995) nos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, é na prevalência da fase oral, onde os cuidados prestados à criança são imprescindíveis à sua sobrevivência, que temos o cerne da montagem desse sintoma re-significado pelo complexo de Édipo.

A mãe, enquanto função, tem como tarefa alimentar a criança com comida, garantindo sua sobrevivência através de um objeto que supra a necessidade vital. ´È imprescindível também oferecer e nutrir o bebê do alimento que ele não tem, transmitindo o que Lacan denominou dom de amor, dado a partir do apelo que o sujeito faz a esse cuidador e nutridor. Tal oferta revela uma falta no Outro e, ao mesmo tempo, enquanto condição de possibilidade, um desejo.

Na anorexia, o objeto de necessidade se mantém fixado enquanto moeda no campo das trocas e é a oferta concomitantemente feita pelo Outro primordial. Dizer isso é afirmar que a mãe, na sua recusa de se mostrar faltosa, impede que o sujeito trilhe um caminho próprio, rumo ao desejo. Assim é que o alimento recorrentemente não sai da esfera da necessidade para a do desejo pela via da demanda. Deste modo, “no lugar daquilo que ele não tem”, o Outro “empanturra-a com a papinha sufocante que ele tem”, confundindo “seus cuidados com o dom de amor” (LACAN, 1998, p. 634).

Assim, Lacan (1998, p. 634) afirma que: “É a criança alimentada com mais amor que recusa o alimento e usa sua recusa como um desejo, no caso da anorexia”. Por mais paradoxal que essa frase possa parecer, ela diz a meia verdade do sujeito que porta o sintoma da anorexia nos tempos opacos da contemporaneidade.

 

 


REFERÊNCIAS
DAFUNCHIO, Soria Nives. AMP Scilicet dos Nomes do Pai. Textos preparatórios para o Congresso de Roma, 2006.
DALGALARRONDO, Paulo. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. 2ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2008.
DICIONÁRIO DO AURÉLIO ON LINE. Significado de Anorexia. Disponível em: https://dicionariodoaurelio.com/anorexia. Acesso em: 16 de out. 2016.
DSM-5 – MANUAL DIAGNÓSTICO E ESTATISTICO DE TRANSTORNOS MENTAIS. Definição da anorexia. Maria Inês Corrêa Nascimento; {et.al], (Revisão). Porto Alegre: Artmed, 2014.
LACAN, Jacques. Escritos. Vera Ribeiro (trad.). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
_____________. Seminário inédito RSI (1975). In: A trindade infernal de Jacques Lacan e a Clínica Psicanalítica. Primeiro Encontro do Seminário de Marcus André Vieira. A trilogia lacaniana. Realizado na EBP, Rio de Janeiro, 2009.
[LINK CONSULTADO]: www.freudonline.com.br. Acesso em: 17 de out. 2016.
LEFORT, Rosine; LEFORT, Robert. Nascimento do Outro. Salvador-BA: Fator, 1984.
MILLER, Jacques-Alain. O sintoma e o cometa. Opção Lacaniana. n. 19. São Paulo: Edições Eólia, 1997.
SOLER, Colette. A Psicanálise na civilização. Rio de Janeiro: Contra Capa,1998.

¹ Trabalho apresentado no Seminário de Psicopatologia Lacaniana – DG/MA da EBP com Analícea Calmon –membro da EBP / AMP – junho 2018.
2 Analista Praticante, Psicóloga, Professora Adjunto IV do Departamento de Filosofia da UFMA, participante da Delegação Geral Maranhão e Aderente da Escola Brasileira de Psicanálise.