Img 9 ITR*Thaïs Moraes Correia
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Começo pensando no subtítulo dessa belíssima película “À céu aberto”, de Mariana Otero acerca do autismo numa Escola de Educação Especial – Le Courtil – onde diz : “cada criança é um enigma”. Temos de considerar que as crianças autistas não nos endereçam seus enigmas e não nos dirigem questões. No entanto é avassaladora  a quantidade de questões que nos colocamos quando atendemos na clínica crianças com esse diagnóstico. Hoje é freqüente nas reuniões clínicas das instituições que acolhem crianças autistas, os diversos profissionais se interrogarem sobre o que dizer e o que fazer para se dirigirem a essas crianças sem invadi-las. Esse esforço fica bem claro neste filme, onde a condução dos profissionais é de dar limites já que as crianças não têm recursos para tal, vivendo numa espécie de “presente eterno” e com clara dificuldade em aprender a cuidar de si mesmas. No filme, as pequenas encenações, o faz-de-conta serve para emergir dali uma fala, onde algumas coisas possam minimante ser ditas. Numa das cenas primeiras do filme que mostra o garotinho Evanne que goza fazendo rodopios, a tentativa é de levá-lo a fazer perguntas ao invés de marear – se no corpo e se perder em um gozo que o invade por completo. Há um gozo que invade o corpo, como um júbilo, mas ele também  deixa algo no seu calção: o cocô como um jogo de “aparecer e desaparecer”: um prazer que se transforma em desprazer porque é vivido de forma excessiva. Seu mundo imaginário não se sustenta; então, vaza porque não tem recursos, não se segura. Esse trocinho que cai (seu cocô) é o objeto a, causa de desejo. A escrita tem um lugar: o de colocá-lo para falar e ele faz rabiscos ininteligíveis – o que representam grande avanço para Evanne, à medida que com esses rabiscos vai podendo simbolizar parte do que foi vivido. É então importante a escrita e fazer cortes ou pausas. O chocolate e o leite transbordam do copo quando está sozinho, exatamente por falta de alguém que lhe diga “pare, já tem o suficiente”. Por parte dos profissionais do Le Courtil há uma tentativa de contabilizar o gozo: “quantas colheradas queres”? O difícil é saber o ponto onde parar para essas crianças que tem o inconsciente à céu aberto.

O que preocupa as crianças autistas”? Pergunta Rosário Collier do Rêgo Barros em seu texto “A questão do autismo” (2012). Laurent diz que os autistas têm muito a nos ensinar. Ele nos diz que o número de autistas pode dobrar, dependendo dos itens considerados pertinentes. Lembra que um expert no assunto afirmou que no futuro, dentro do espaço de 10 anos, em cada 50 crianças, uma será considerada autista. Em conferência sobre o assunto na sessão Rio da EBP, Laurent retoma suas elaborações sobre os fenômenos clínicos no campo do autismo, à luz do que tem sido destacado por Jacques Alain-Miller sobre a maquinaria do Um do gozo, o que é uma baliza para entendermos o que preocupa as crianças autistas. Rosário Barros (2012) assim comenta:

 “Que o autista está na linguagem é um fato que verificamos em nosso encontro com ele e que Lacan nos indicou ao dizer que o autista se defende do verbo, ao tapar os ouvidos, para não ouvir a fala do outro (cena vista no filme). A fala se reduz a um ruído, quando não consegue ser interpretada. A incidência do significante sobre o corpo produz um gozo que nem sempre é possível de ser simbolizado.”

O autista faz uso do objeto voz de múltiplas formas, através de canções, mutismo, solilóquios incompreensíveis, fala sem afeto e monólogos sem endereçamento. Demonstram assim, um prazer solitário com a língua; às vezes inventam uma “vida privada”. Há encapsulamento do autista que recusa o olhar. A sensibilidade não é auditiva, mas alucinatória. Podemos lembrar aqui de um caso citado no livro “Autismo e atualidade: uma leitura lacaniana”, de uma criança que tapava os ouvidos quando avistava um avião a dez mil pés de altura, como se o avião estivesse ao seu lado. Neste livro também há o relato de caso de uma criança onde o sentido das palavras é rígido, não flexível. Ele diz: “quando eu imagino que um amigo está deprimido, me imagino na cavidade do número seis, se alguém foi intimidado, me imagino ao pé do número nove”.

Aqui vale a pena diferenciar que na clínica há um gozo autista, autoerotico que não se confunde com o autismo, mas se mostra cada vez mais presente em nosso mundo contemporâneo, nos lembra Laurent. Ele diz que a investigação sobre o autismo, interessa não apenas aqueles que, em sua prática trabalham com esses sujeitos, mas de modo mais amplo a todos aqueles que se implicam com a lógica das respostas e dos impasses do sujeito, desde sua chegada ao mundo, como sua relação com seu corpo, ou com o corpo do Outro. Há então, por estrutura, no autismo um querer gozar que domina o querer dizer, e nessa perspectiva, sair do autismo é questão para todo o sujeito. Hoje fala-se em “autismo generalizado”. Mas aqui vamos falar da clínica de orientação lacaniana e o que ela tem a dizer sobre esse tema.

O autismo, na orientação lacaniana, está articulado ao campo das psicoses. O sujeito psicótico é invadido pela presença do Outro e de seus objetos, e ele se protege dessa invasão de diferentes formas. Ele se protege como vimos no filme sob a forma de passagem ao ato, ironia, distância, encapsulamento ou paralisia catatônica. Como no caso da menina Allysson, a que come plantinhas e que usa as canções para organizar as coisas. Ela afirma que os tiques vão lhe acompanhar “até o casamento”. “Eu não vou parar de beijar, ou de coçar”, ela afirma – fazendo sempre barulhos sexuais com a boca como ao chupar uma tangerina e fazer crer que está tendo um orgasmo. Às vezes, grita bem alto: “Sexo”, ou apenas se esfrega nas portas. Aqui o objeto escondido se revela pouco a pouco: “gosto de escavar” diria ela, ao brincar com a terra e onde aparecem as minhocas que tanto detesta. O jogo de quebra-cabeças a acalma, enquanto “botar a mão na massa” na cozinha lhe dá nojo, mas não a impede de continuar. A produção no forno não é o que interessa Allyson, mas sim fazer o recheio e massas, para esquecer seu problema de gordura. Não tem ataque de pânico, mas seu olhar fica aterrorizado (seu corpo fica gelado, com frio ou dor de cabeça), e tem medo de aranhas e minhocas, apesar de ser contra-fóbica porque vai ao encontro daquilo que mais teme. Caminhou com 26 meses e faz bem pouco tempo que ela corre. Manifesta a psicose aos 6 anos  e chega ao Le Courtier aos 8 anos. Aos 6 anos ela berrava e dizia palavrões. Ela procura marcas que se transformam: ri ou grita quando observa a gordura de seus braços, vê o osso de seu braço cair no chão, e tudo que acontece sob a pele pode obsedá-la. Os profissionais então acham que se ela se mantiver com as mãos ocupadas, o toc vai diminuir. Uma das especialistas diz que “essa menina está aos pedaços”: ela vê o corpo despedaçado. De que modo podemos ajudá-la, se pergunta o psicólogo e/ou psicanalista na supervisão de casos. E divaga dizendo: “um olhar exterior faz seu corpo “permanecer unido”. Ela engorda nesse novo espaço, e para o psicótico o peso faz crer que o corpo existe. Em um outro caso, o garoto enfaixa o pé, e uma pergunta lhe é feita: “O que está ferido mesmo?”Ele responde: “meu sono está quebrado”. Como solução faz uma cabana para dormir na tentativa de encontrar o objeto para sempre perdido. Seu corpo o subjuga, ele põe as mãos nos ouvidos para não escutar a fala dos outros. Incrível é saber que ele chega ao Le Courtil usando cadeiras de rodas quando isto não se fazia necessário. Ele diz que precisa de muletas, mas dizem que estas não existem ali. Rapidamente ele não se queixa de dor nas pernas, mas as endurece como se tivesse com dor. Ele queria um curativo apertado e adequado que iria do joelho ao tornozelo; mas não poderia se manter preso a essa idéia. Quando come pão, ele diz que a mão treme. Tomava respidal para parar o tremor nas mãos. A profissional que o atende afirma: “eu não vejo nada, somente você vê isso”, o que o alivia bastante. Com 7 anos começa com respidal, escutava vozes e falava sozinho no seu quarto. Tem 15 anos e usa fone de ouvido permanentemente e se atrapalha com as datas. Pode ficar em estado de crise se alguém o incomoda. É bom em programar vídeos games. Há um presente eternizado, onde tudo é simultâneo, tudo acontece ao mesmo tempo. “Eu não gosto quando alguém me irrita, estou farto de ser contrariado”. O que te perturba? “Quando eles me chamam de retardado”. Quando criança tinha ataque de raiva, birra. “A minha cabeça me incomoda e me cansa, também quando eu aprendi a ler”. Quando tiver 18 anos, Jean pensa em ir para um apartamento supervisionado, perto de Calais, onde sua mãe mora por perto… Ele faz personagens no computador. Ele se torna um desenhista, e faz também  histórias em quadrinhos. As coisas as vezes ficam concatenadas: “sou grande agora: não vou ligar para minha mãe!”

Há um outro caso de um menino que se auto-mutila  desde os 2 anos e não tem medo de nada. Chega ao Le Courtil aos 4 anos porque não consegue acompanhar a escola tradicional e em todas as tentativas de inserir-se nela, volta a se auto-mutilar. Há algo ali que não se enquadra, esse é o seu parceiro-sintoma.

No caso da entrada na linguagem, neuróticos e psicóticos entram nela de forma diferente. A entrada na linguagem é sempre traumática, mas cada estrutura o faz de uma forma. Pensemos num meteorito que se encontra no universo e que chega à terra e onde algo aí se perde. É correlativo ao que podemos dizer sobre o choque entre o corpo e a linguagem, encontro sempre traumático. Por isso é importante tentarmos não demandar nada a ele. A reação será a de nos bater, porque não quer ser o objeto, ou então se torna o objeto dejeto. O neurótico está sempre no mundo procurando esse objeto para sempre perdido (“a”) e não o encontra. O psicótico não perdeu o objeto, por isso Lacan diz que “ele o tem no bolso”. Dessa forma, o mundo gira em torno do sujeito. Na psicose a criança não sabe que seu corpo é seu corpo, ela não tem certeza de que seu corpo não é aquele de um outro. O neurótico tem a noção do que é um corpo, faz de seu corpo algo inteiro e precioso, ao lado do objeto. Na psicose há uma quebra, sem a consciência do corpo como um todo. Há uma imagem sem a sensação de corpo vivo. É uma forma de ver o corpo de uma maneira diferente. Um psicótico não sabe que o mundo quer algo dele.

Assim comenta sobre essa questão Rosário R. Barros: “A anulação própria à simbolização não produz o lugar vazio que ordena os significantes e o jogo de permutação e repetição que daí decorre”. É como diz Jean: “minha cabeça fala o tempo todo e eu fico cansado”. Precisamos ler então em cima dos recursos que o autista nos dá: nesses casos, o objeto não tem função de fazer borda e exerce sua força de forma imperativa, beirando a destrutividade.  Podemos dizer que os autistas fazem parte de uma nova subjetividade? Vou lançar mão de um recorte clínico para entendermos melhor sobre o que está sendo falado até então: Zeca se jogava no chão reiteradas vezes e se batia. Em uma dessas vezes o psicanalista faz com giz um contorno de seu corpo no chão. Ao levantar, Zeca olha para aquele traço que contorna o vazio e se surpreende. A partir dali ele não se joga mais no chão e sua fala não mais se reduz ou se fixa em um palavrão. Passa a falar sem sentido, o que o clínico se propõe a escrever. Essa modalidade de encontro pela escrita é procurada por Zeca cada vez que chega à instituição. É uma fala que vai deixando marca no papel que permitiu Zeca cavar um lugar para o corpo, que ele pode por fim, nomear. Depois ele mesmo procura fazer seus traços. O efeito disso é que o sujeito pode aliviar-se do peso invasor da voz do outro indecifrável e usar sua própria voz para se dirigir ao outro. É para isso que serve uma experiência analítica para crianças autistas.

 

 *Psicanalista praticante, aderente da EBP, participante da DG/MA, Profa. Adjunto III –DEFIL / UFMA
Notas Bibliográficas:
Murta, Alberto; Calmon, Ana Licea e Rosa, Márcia (organizadores): Autismo(s) e Atualidade: uma leitura lacaniana – BH. Scriptum livro 2012.