“Amamos nossas mães inconscientemente, e só nos damos conta do quanto esse amor é profundo na separação final”

“Amamos nossas mães inconscientemente, e só nos damos conta do quanto esse amor é profundo na separação final”

O cinema tem contribuído para colocarmos a psicanálise na cidade. “Eu Matei Minha Mãe” teve seu roteiro escrito, em 2006, pelo canadense, Xavier Dolan. O filme nos faz mergulhar nos relatos afetuosos e ao mesmo tempo, atroz, da combinação explosiva de amor e ódio na relação entre um filho (Hubert) e sua mãe (Chantal) . Xavier, não só escreve o roteiro, como também produziu, dirigiu e protagonizou o filme. Esta semi-autobiografia teve sua estréia em 2009, recebeu três prêmios na Quinzena de Realizadores e na Mostra Internacional de São Paulo.

O filme nos apresenta as inquietações vivida por um adolescente de 16 anos. Mas, o que é a adolescência? O sentido que se vem dando à adolescência é um sentido novo, Freud, na construção da teoria psicanalítica, não faz uso desse termo e sim puberdade. Miller em seu texto “Em direção à adolescência” nos diz que esta é uma construção e como construção pode ser desconstruída. É nessa construção e desconstrução que muito se diz do que seja uma adolescência, para alguns é um momento de ambivalência e rebeldia, porém, é ainda o momento de reconfiguração do narcisismo.

É submerso na ambivalência que Hubert vai se reinventando na sua relação com a mãe. Suas fantasias vão perpassando entre o amor e ódio, velando seu desejo. As identificações que conseguiu sustentar na infância com sua mãe, foram perdidas, não se reconhecendo mais naquela relação e assim diz: “não sei o que se passou… não posso ser seu filho”. Contudo, a adolescência é um momento onde o sujeito resignifica essas identificações perdidas. Assim sendo, é na figura da professora Julie, que Hubert vai encontrar outros pontos de identificação, foi na contramão das normas institucionais que Hubert e Julie falam das relações conflituosas mantidas com seus genitores, das suas leituras e escrita.

Neste momento da adolescência, para além das novas identificações, vai ocorrer, também, uma reatualização das eleições de objetos, pois Freud disse que no período da infância foram feitas certo números de eleições, no entanto, não foram estabelecidas de forma definitiva, sendo reatualizadas na puberdade. É no encontro com Antonin que Hubert faz sua reatualização da eleição de objeto, uma eleição homossexual. O gozo que na infância era autoerótico muda neste período de estatuto e passa a ser um gozo novo, estrangeiro, que se desloca e se liga a um objeto exterior.

Na errância dessa relação entre o gozo, os objetos e o Outro, esse adolescente vai reinventando-se, procura dar sentido para sua vida através da pintura, da escrita e dos vídeos onde grava seus sentimentos de amor e ódio por sua mãe. Nessa sua errância vai experimentando as drogas ilícitas na tentativa de dar conta dos seus conflitos mais profundos e ao mesmo tempo nostálgicos de uma infância feliz vivida com a mãe. Em suas lembranças o pai não se faz presente, a ausência do pai também acontece na sua adolescência.

A adolescência também é um instante em que o distanciamento e o desligamento da família é buscado. Freud nos diz no texto Mal-estar da Cultura que: “Separar-se da família torna-se uma tarefa com que todo jovem se defronta,…”, a tentativa feita pelo jovem Hubert, para distanciar dessa mãe, com a qual não conseguia estabelecer uma relação harmoniosa, foi frustrada naquele instante, levando esse jovem a dar outro sentido para aquela convivência, assim fazendo um novo giro passa da agressividade para a ternura, que logo fracassa diante da instabilidade histérica de Chantal.

A família de Hubert é uma família bem contemporânea, pois é uma família sem pai, comandada por uma mãe, onde a figura paterna só aparece em momentos específicos para disciplinar o adolescente rebelde mesmo com todo o rigor que possa aparecer nesses encontros, há um enfraquecimento do Nome-do-Pai, algo dessa lei já foi perdido. A mãe de Hubert perdida nessa convivência, sabe da relação homossexual do filho na sala de espera de uma clínica de bronzeamento.

Outro ponto a destacar, é a Institucionalização da adolescência, esta ocorre na tentativa de silenciar a rebeldia da juventude, passando pelas instituições penais ou educacionais. No filme a mãe e o pai do jovem Hubert decidem institucionalizar ainda mais o filho, colocando-o em um colégio interno. No entanto, esta nova institucionalização é da ordem do insuportável para esse adolescente que não se submete as leis de ferro da instituição, levando-o a fugir do colégio. É no fracasso da institucionalização do seu filho que Chantal não aceita do diretor do colégio interno as imposições de como educar seu filho, dizendo a este que não eram os diplomas que iam ensinar o que é ser uma mãe.

Diante das novas configurações das famílias, e pela falta de manuais para educar um filho, cada família vai inventando suas relações, pois inexiste uma receita do que vem a ser uma mãe de um jovem adolescente!

 

Anícia Ewerton
aniciaewerton@superig.com.br

 

Bibliografia
MILLER, J. -A. Em direção à adolescência, in http://minascomlacan.com.br/blog/em-direcao-a-adolescencia/
FREUD, Sigmund – (1905) “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade”, Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas, pg. 196
Idem – (1930) “O mal-estar na civilização”, Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas, pg. 108