009Existe literatura feminina?

Como esclarece Silva (1971), o vocábulo literatura, em latim, significava instrução, saber relativo à arte de escrever, erudição. Adiante, o autor explica ser o texto literário uma mensagem que depende de múltiplos códigos culturais não-literários, que atuam numa dada época e numa dada sociedade, entre os quais avulta o código das ideologias, que, por sua vez, coinvolve os sistemas de atitudes psicológicas, de posturas mentais, de convicções sócio-políticas, de princípios éticos e religiosos, que caracterizam um indivíduo e o grupo em que se integra.

Moisés (1989) também afirma que é no plano da conotação que “se situa a empresa básica dos estudos literários”. A literariedade se afirma, sobretudo, pelo trabalho de elaboração conotativa, vale dizer, metafórica, efetuada pelo autor que confere sentidos novos às palavras de seu texto, que nelas insufla o fulgor do seu talento e os pulsares da sua subjetividade, criando uma nova realidade semanticamente autônoma, identificando na obra literária três tipos de elementos: os extrínsecos, os formais e os intrínsecos. Elementos extrínsecos: referem-se aos aspectos exteriores da obra: biografia do autor, relações do texto com a política, a história, a sociologia, a antropologia, a estética etc. Elementos formais dizem respeito à obra em si: análise do tecido metafórico, a ironia, a ambiguidade, o ritmo, a métrica, a técnica de composição. Elementos intrínsecos, remontam aos aspectos interiores, situados dentro da malha expressiva das imagens e símbolos, correspondendo ao que se denomina conteúdo ou à camada em que circulam as forças motrizes, o motivo, a inspiração do tema abordado.

Conclui-se, então, que existe um saber (técnico, teórico) que reconhece a literatura como objeto de estudo, com princípios constitutivos e características particulares. A Teoria da Literatura nos permite, então, distinguir um texto literário de um texto não-literário, esclarecendo ser literário o texto em que se opera a criação de uma suprarrealidade, coerentemente construída pelo deslocamento metafórico da palavra.

Necessário se faz relembrar a evolução histórico-social da mulher. Como destaca Beauvoir (2009), a mulher é o Outro da civilização, aquele a quem se opõe o Sujeito. Segundo a escritora francesa, quando o ser humano teve necessidade de se afirmar diante da natureza, de transcendê-la, para, vencendo as dificuldades impostas pelo ambiente, criar a cultura, foi uma relação entre Sujeito/Objeto que se estabeleceu entre homem e mulher.

A alteridade é uma categoria fundamental do pensamento humano. Nenhuma coletividade se define nunca como uma sem colocar imediatamente a outra diante de si. Bastam três viajantes reunidos por acaso num mesmo compartimento para que todos os demais viajantes se tornem os Outros! Os habitantes de outro país são considerados estrangeiros. Os judeus são outros para o antissemita, os negros para os racistas norte-americanos, os indígenas para os colonos, os proletários para as classes dos proprietários […] (BEAUVOIR, 2009, p. 17).

Solicitada a proferir a palestra “As mulheres e a ficção”, Woolf (1985) o fez criando a personagem Mary Seaton, protagonista de “Um teto todo seu”. A aventura de Mary se inicia, metaforicamente, com a proibição de seu ingresso na biblioteca da imaginária Universidade de Oxbridge, só permitido aos “fellows” em cursos de pós-graduação, motivo pelo qual, absolutamente perplexa, resolve ir ao Museu Britânico à cata de informações, onde, ao pedir livros sobre o assunto, experimenta logo a primeira (e fortíssima!) decepção da pesquisa: todos os livros foram escritos por homens; decepção transformada em horror, ao constatar que a concepção masculina do que seja a mulher, nos mais variados campos do conhecimento humano, sob os aspectos científico, filosófico, artístico, sócio-antropológico e político, é espantosamente desvalorizadora, proclamando a inferioridade da mulher. Mary chega a pensar, por um átimo, que seria mesmo impossível a uma mulher desenvolver um talento criador como o de Shakespeare – na época de Shakespeare, bem entendido. Imagine-se o que teria acontecido a uma mulher nascida com o talento de Shakespeare, chamada, talvez, Judith, em plena Inglaterra elisabetana! Por certo, no entender de Mary, lá pelo início da adolescência, Judith já pagaria o pesado tributo de ir se descobrindo “diferente” das outras moças, com desejos de ler os clássicos e conhecer o mundo, partir para Londres e escrever peças, beber nas tavernas, dirigir espetáculos e – receber aplausos! Pois Mary descobriu, nas entrelinhas dos mesmos livros sérios e inatacáveis, que logo arranjariam para a futura dramaturga um casamento que a levasse para longe dos teatros de Londres. Ou ainda, proibida de dar vazão ao próprio talento, Judith enlouquecesse ou se suicidasse.

Segundo Ortner (1979), o status secundário da mulher é uma ocorrência pancultural, um dado universal e indiscutível. Pode-se perceber como se estrutura o processo de desvalorização universal da mulher ao entender a dinâmica da oposição entre natureza e cultura. A verdadeira transcendência da espécie se dá na passagem da natureza à cultura, salto qualitativo do qual foi alijada a mulher. Rosaldo e Lamphere (1979) enfatizam o papel da ideologia no processo de marginalização da mulher: “No aprendizado de ser mulher, em nossa própria sociedade, aceitamos e interiorizamos uma imagem frequentemente depreciativa e constrangedora de nós mesma”.

Só adotando e legitimando a perspectiva de ser a mulher, realmente, o Outro da civilização é que se pode concebê-la produzindo uma “outra” literatura. Se nomeada feminina uma produção literária é porque a comparamos com alguma produção literária diferente dela, pois, como assinalou Beauvoir, o ser se define por aquilo que o limita e nega. A que literatura, nesse caso, haveria de se opor essa literatura que, hipoteticamente, classificaríamos como feminina? Opor-se-ia essa literatura a esta literatura que, em todas as sociedades, é reconhecida como elaboração cultural e intelectual? Opor-se-ia essa a esta que existe como fenômeno autônomo, com princípios próprios de organização e objeto de uma Teoria Literária? Opor-se-ia essa a esta, que, digamos, por uma “pequena” contingência histórica – já que tantas se viram impedidas de desenvolver seu talento (lembram-se de Judith?) ao longo de milênios de repressão – bem poderia arrogar-se a enaltecedora denominação de masculina? (Agora só para as leitoras: o que acham que aconteceria com a nossa literatura, se comparada com a literatura deles?) É possível pensar a ciência nesses termos? É possível dicotomizar (e aqui, literalmente, genitalizar) o saber, a imaginação e o talento humanos? Não – como reafirmou Virginia Woolf:

Matar o Anjo do Lar fazia parte da atividade de uma escritora. (…) Em outras palavras, agora que tinha se livrado da falsidade, a moça só tinha de ser ela mesma. Ah, mas o que é ‘ela mesma’? Quer dizer, o que é uma mulher? Juro que não sei. E duvido que vocês saibam. Duvido que alguém possa saber, enquanto ela não se expressar em todas as artes e profissões abertas às capacidades humanas. (WOOLF, 2013, p.14)

Não se nega a possibilidade de se identificarem marcas femininas ou masculinas em um texto, bem como outros elementos da subjetividade de quem o escreve, tais como ideologia, crença religiosa, concepções filosóficas e inúmeras outras particularidades biográficas, responsáveis pela singularidade de seu discurso, precisamente o que constitui o objeto de análise da estilística, conforme explica Silva (1981), citando Vossler: “a estilística tem como objeto de estudo a linguagem como criação artística, e, mais particularmente, a linguagem literária enquanto criação individual”.

É muito importante chamar a atenção para o imenso perigo que a classificação literatura feminina representa à avaliação imparcial das obras literárias criadas por mulheres, levando-se em conta que vêm sendo consideradas o Outro da civilização, o segundo sexo, aqueles seres humanos que ainda correm o risco de ter classificado de secundário tudo o que produzem, afinal literatura feminina pode passar, num piscar de olhos, a significar literatura da segunda – e logo, logo de segunda, o que, sem dúvida, causaria um novo e justíssimo horror à Mary Seaton, a decepcionada personagem de Virginia Woolf. Com isso concorda Sandoval (2017), que questiona: “qual seria a utilidade de tratar a literatura feminina como um gênero literário segmentado senão para diminuí-la diante do cânone majoritariamente masculino?”.

Não existe literatura de mulher. Não existe literatura de homem. Feminino e masculino são elementos extrínsecos à obra. Os escritores nascem com o dom de alcançar a sublimidade do discurso, pela capacidade artística de organizar os elementos formais em torno do impulso criador, gerando suprarrealidades esteticamente convincentes e semanticamente autônomas, como destaca Silva (1979); com o que também concorda Lygia Fagundes Telles (2011), em “Onde estiveste de noite?”, ao narrar um passeio em companhia de Clarice Lispector, durante um congresso de escritores, na Colômbia, onde foram convidadas a se pronunciarem sobre essa questão.

Quando chegamos ao hotel, lá estavam todos ainda reunidos naqueles encontros que não acabavam mais. Mas esses escritores deviam estar em suas casas escrrrevendo! – resmungou a Clarice enquanto disfarçadamente nos encaminhamos para o bar um pouco adiante da sala de conferências: a nossa intervenção estava marcada para o dia seguinte. Quando eu devia começar dizendo que literatura no tiene sexo, como los ángeles. Alguma novidade nisso?

Exatamente como estabelecera Longinus (1989) na Antiguidade, ao estudar a literatura grega, igualando Safo a Homero – ao afirmar que o sublime não faz distinção entre mulher e homem:

Eis que um escritor atrai o ouvinte pela escolha do assunto, outro pelo efeito cumulativo das ideias que escolhe. Por exemplo: Safo, em sua poesia, bem escolhe as emoções contidas no arrebatamento do amante entre aqueles que manifestam essa paixão na vida real. E como demonstra a poetisa a sua excelência? Na habilidade com que escolhe e combina as mais extremas e intensas manifestações de tais emoções.

(…)

Da mesma maneira, Homero, descrevendo as tempestades, põe em destaque as suas mais aterradoras propriedades.

 

 

Lenita Estrela de Sá[*] – lenitaestreladesa@gmail.com


REFERÊNCIAS

 

BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo. Tradução de Sérgio Milliet. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009. 2. v.

LONGINUS. Sobre o Sublime. In: Crítica e teoria literária na Antiguidade. Tradução de David Jardim Júnior. Rio de Janeiro, Ediouro, p.96.

MOISÉS, Massaud. A análise literária. São Paulo: Editora Cultrix, 1981, p.33.

ORTNER, Sherry. Está a mulher para o homem assim como a natureza para a cultura?. In: ROSALDO, Michelle Zimbalist; LAMPHERE, Louise (Coords.). A Mulher, a cultura e a sociedade. Tradução de Cila Ankier e Rachel Gorenstein. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979. p. 95-118. (Coleção O Mundo hoje; v. 31)

ROSALDO, Michelle Zimbalist; LAMPHERE, Louise (Coords.). A Mulher, a cultura e a sociedade. Tradução de Cila Ankier e Rachel Gorenstein. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979 (Coleção O Mundo hoje; v. 31, p.45).

SANDOVAL, Maíla. Literatura feminina: como é que chegamos aqui? In: O casulo. São Paulo: Editora Patuá, 2017, p.47, n.12.

SILVA, Victor Emanuel de Aguiar e. Teoria da literatura. Coimbra: Livraria Almedina, 1979, p.20-78.

TELLES, Lygia Fagundes. Histórias de mistério. São Paulo, Companhia das Letras, 2011, p.57.

WOOLF, Virginia. Um teto todo seu. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.

______. Profissões para mulheres e outros artigos feministas. Porto Alegre, RS:

L&PM,2013, p. 14.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

[*] Escritora, graduada em Letras e Direito, especialista em Linguística Aplicada ao Ensino de Língua Materna e Estrangeira.

A ilustração no topo da página é uma imagem do Google, licenciada para reutilização.