Silvana Sombra[1]

Lendo A direção do tratamento e os princípios de seu poder, nos Escritos de Jacques Lacan (1958/1988, p.624), escolhi escrever algo sobre o capítulo IV, Como agir com seu ser:

Pois, se amor é dar o que não se tem, é verdade que o sujeito pode esperar que isso lhe seja dado, uma vez que o psicanalista nada mais tem a lhe dar. Mas nem mesmo esse nada ele lhe dá, e é bom que seja assim: e é por isso que se paga a ele por esse nada, e generosamente, de preferência, para deixar bem claro, que de outro modo isso não valeria grande coisa.

Temos da parte do analisando que chega ao consultório as suas palavras, ele pede alguma coisa. E o sujeito, segundo Lacan, pede pelo fato de que fala: uma fala intransitiva que não implica nenhum objeto. Ele espera (até de forma ingênua) do analista a sua cura, conhecer-se melhor numa análise, ou ainda ter habilitação ou garantia para ocupar o lugar de analista. Isso ele acha que o analista possa lhe dar, então se estabelece uma transferência baseada nessa suposição, mas ele quer um além disso.  O analisando demanda na verdade o seu ser, que o analista venha completar a sua falta, fortalecer com seu suposto ego forte a sua falta a ser.  E o que é essa demanda se não de amor, ser um objeto amado?  Amar é dar o que não se tem, como diz Lacan, não se trata de dar algo em particular, algo que se tem, assim seria fácil, mas sim a falta para que o outro venha se alojar nesse lugar. Estamos falando aqui do amor simbólico, que é articulado com a palavra. Mas do lado do analista isso não vai ser assim: “mas nem mesmo isso ele lhe dá”, pois o analista não dá o seu signo de amor, tampouco o seu desejo está do lado do signo do amor, é o desejo impuro, aquele que deseja que o paciente continue produzindo na sua própria análise, mantendo viva assim a dialética da cura. Podemos dizer que em Lacan se constitui um eixo para o trabalho analítico o binômio demanda/desejo.

Mais adiante, Lacan (1958/1998, p. 624) coloca: “O analista é aquele que sustenta a demanda, não, como se costuma dizer, para frustrar o sujeito, mas para que reapareçam os significantes em que sua frustração está retida”. O analista não pode responder a essa demanda porque ele não tem essa resposta, poderia dar do seu ‘ser’ para o analisando, aconteceria então uma possível identificação do analisando com o seu analista, que sempre será uma identificação com significantes. O que está em jogo não é da ordem imaginária, mas sim os significantes que se destacam na estrutura discursiva do analisante. Sustentar essa demanda é não tapar essa falta. O analista dá a sua presença, a sua escuta, mas esta é apenas a condição de sua fala, mas até essa segundo Lacan (1958/1998, p. 624) “está ligada a um momento em que o sujeito só pode se calar, isto é, em que recua até mesmo ante a sombra da demanda”. O analista se abstém de responder para colocar em marcha o trabalho do inconsciente. E sobre esse nada a dar do lado da analista que Lacan (1958/1998, p. 624) diz: “é bom que seja assim”.

Por esse nada dado pelo psicanalista o analisando paga. Antes, em A direção da cura, Lacan (1958/1998) também vai dizer que o analista paga com suas palavras, ou seja, com sua interpretação, com o seu ser, apagando o seu juízo mais íntimo para se colocar como semblante de objeto causa de desejo. O analisante paga, e por assim ser a libido, materializa-se em um objeto erógeno, tanto para quem paga como para quem cobra. E aí temos nesse investimento um horizonte para ganhos, outra coisa, para além da queixa comum, uma dimensão onde possa se reconhecer como responsável pela sua existência, sabendo o que fazer com o que em si não tem jeito nem nunca terá.  De certo, tem que deixar claro nessa relação onde há um preço nada irrisório a pagar, “que de outro modo isso não valeria grande coisa” (LACAN, 1958/1998, p. 624).


O que importa

O que se perdeu de mim

Achou-se em si na atemporalidade

E não importam mais

Os versos enviados

Os versos extraviados

Os versos que não nasceram

Na vida marcou-se um ritmo

E tudo o mais foi o possível

Na atualização da palavra

Na ausência da palavra

Na pulsação do silêncio

Em todas as horas marcadas

Em todas as horas esquecidas

Poucas coisas importam

Mas a minha leitura sempre se comoverá

Com o que não coube por desmedido.

(Silvana Sombra)

 

 


REFERÊNCIAS
LACAN, J. (1958) A direção do tratamento e os princípios de seu poder. In: Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.

[1] AP, médica, participante da Delegação Geral Maranhão. E-mail: silsom@hotmail.com