008RESUMO: O presente artigo tem como objetivo refletir acerca do Amor Patológico em mulheres acometidas por este transtorno. Contemplando explicações que perpassam o desenvolvimento psicossexual humano desde a primeira infância até a idade adulta, a partir de perspectivas psicológicas e sociais no intuito de esclarecer o surgimento, desenvolvimento, características e tratamento deste transtorno baseando-se prioritariamente nos preceitos psicanalíticos. Ressaltando, ainda, os aspectos divergentes do amor patológico em relação ao amor considerado saudável. Expondo como possibilidade de tratamento para essas mulheres, a psicoterapia em grupo.

PALAVRAS-CHAVE: Amor Patológico; Mulheres; Psicoterapia em grupo

 

INTRODUÇÃO

 

De acordo com Sophia, Tavares e Zilberman (2006), constatou-se que o indivíduo portador de Amor Patológico possui características peculiares como prestar cuidados e atenção ao parceiro de maneira excessiva e desprovida de controle na tentativa de ser reconhecido por suas atitudes visando receber em troca o afeto no sentido de evitar sentimentos de menos valia. Enfatizam ainda os autores sobre esse quadro, que “para a avaliação diagnóstica do AP é importante, também, constatarmos que essa atitude excessiva é mantida pelo indivíduo, mesmo após concretas evidências de que está sendo prejudicial para a sua vida e/ou para a vida de seus familiares”.

Apesar de alguns teóricos como Sophia, Tavares e Zilberman (2006) proporem que há controvérsias na caracterização do Amor Patológico devido sua classificação como sendo decorrência ou associação deste transtorno com outros como ansiosos, depressivos, transtorno de personalidade dependente, transtornos obsessivo-compulsivos, há uma concordância quanto a sua origem, relacionando-a com desarranjos afetivos proporcionados pelos cuidadores (mãe, família) à suas crianças nos seus primeiros anos de vida.

Outra observação importante nos escritos destes teóricos são as semelhanças constatadas em estudos e pesquisas das características do Amor Patológico com os critérios para diagnóstico de dependência de álcool e outras drogas, constatando que seis características de diagnóstico coincidem nas duas patologias, dentre estas características destacam-se os sintomas de abstinência como insônia, ansiedade, taquicardia, dentre outros apresentados na ausência do parceiro (Sophia, Tavares e Zilberman (2006).

A discussão sobre o tema em questão no presente estudo traz à luz os impactos negativos causados pelo desdobramento do Amor Patológico, chamando a atenção para os prejuízos emocionais observados na vida de mulheres que se tornam reféns de seus próprios protótipos de relacionamentos infantis provenientes de complexos de Édipo mal estruturados. Reproduzindo desta forma esses comportamentos na vida adulta gerando tribulações não só na própria via, mas também na do parceiro e na de pessoas próximas que acompanham seu sofrimento.

 

METODOLOGIA

 

O trabalho em questão trata-se de um estudo bibliográfico, cujas principais fontes   foram livros e artigos científicos, considerando desde os primórdios da Psicanálise nos escritos de Sigmund Freud até a atualidade, realizando-se leitura do material conduzida de forma seletiva assim como elaboração de fichas, ordenamento de análise das mesmas. Foram utilizados como descritores: Amor Patológico; Mulheres; Psicoterapia em grupo.

           

ESTRUTURAÇÃO DO PSIQUISMO FEMININO: DA CRIANÇA À MULHER

 

Obter satisfação, das mais variadas formas, faz parte do desenvolvimento humano. Alguns autores da Psicanálise corroboram com esta ideia, como por exemplo Freud (1914), que acredita que toda a gama de desejos que motivam a busca de deleite, começa ainda bem cedo nos primeiros meses de vida, em que o bebê, possuidor de pulsões de caráter libidinal, a partir de um determinado momento, passa a buscar prazer para além do suprimento de suas necessidades básicas.

Nesse contexto, faz-se necessário tratar brevemente sobre a estruturação do aparelho psíquico descrita por Freud (1923) para explicar o funcionamento e desenvolvimento da psique humana, onde ele propõe, a partir de sua hipótese estrutural, a existência de três instâncias psíquicas, o id, o ego e o superego, as quais cada uma representa um grupo de processos mentais associados funcionalmente entre si, sendo o id totalmente inconsciente, regido pelo princípio do prazer e onde ficam “localizados” os conteúdos reprimidos; o ego é uma parte do id modificada pelo mundo externo que se utiliza da percepção para trabalhar de forma a colocar o princípio da realidade no lugar do princípio do prazer. É a instância psíquica da consciência, porém parcialmente inconsciente; e o superego, também parcialmente inconsciente, é a estrutura que confronta o ego, exercendo a censura, a consciência moral (Freud, 1923).

Outra contribuição importante do autor e que também merece ser lembrada para o entendimento da estruturação do psiquismo humano, são as descrições dos estágios do desenvolvimento psicossexual que, de acordo com Coll et al. (2004, p. 26), o embasamento da teoria em questão “é a consideração de que, à medida que as crianças crescem, vão aparecendo novas zonas erógenas, isto é, novas áreas corporais cuja estimulação provoca prazer”. Desta forma, de maneira resumida, para Coll et al. (2004, p.108-110), tem-se que os estágios do desenvolvimento psicossexual são:

Estágio Oral (0 a 1 ano) A criança obtém prazer através da sucção não-nutritiva, sendo possível após o surgimento dos dentes, prazer com componentes sádicos.
Estágio Anal (1 a 3 anos) Prazer sentido através dos esfíncteres, ligado às funções excretoras como fezes e urina, podendo ser utilizado posteriormente de maneira sádica pela criança.
Estágio Fálico (3 a 6 anos) A fonte de prazer é direcionada para os genitais. Período em que ocorre o complexo de Édipo.
Estágio de Latência (6 a 11 anos) As energias libidinais se abrandam e o superego ganha mais conteúdos e se amplifica.
Estágio Genital (adolescência) As energias libidinais reaparecem devido às alterações biológicas no corpo, fazendo com que a sexualidade se direcione à relação heterossexual.

Fonte: Desenvolvimento Psicológico e Educação. v. 1, 2ª ed. 2004. Porto Alegre: Artmed

 

Dos cinco estágios descritos, o fálico merece atenção especial para entendermos a estruturação do psiquismo feminino, pois, além do ego da criança já estar mais desenvolvido, estruturado, é também durante esse período da vida que acontece o complexo de Édipo, o qual é um dos pilares da teoria freudiana da personalidade, e em conformidade com Brenner (1975, p.120), a respeito deste, se faz necessário saber que “o fato isolado mais importante a se ter em mente a respeito do complexo edipiano é a força e a intensidade dos sentimentos envolvidos. É um verdadeiro caso de amor. Para muitas pessoas é o caso mais ardoroso de toda sua vida”.

O estágio da vida da criança que compreende as vicissitudes entre 3 a 6 anos de idade, é o momento em que, como dito anteriormente em outras palavras, o investimento de grande parte da energia psíquica está voltado para os genitais. Desta forma, a apreensão deste desenvolvimento se torna mais dificultoso já que nessa fase fálica é possível que a criança esteja se defrontando com os campos psíquicos de diferenciação de gênero masculino e feminino, bem como uma atribuição cada vez mais acentuada de manifestação da sexualidade à região de concentração libidinal, além de tornar a mãe como objeto total, e não mais parcial como nas fases anteriores, de desejo para ambos os gêneros (REIS et al., 1984, p.34).

Na descrição de Freud (1931), é possível notar que o processo psíquico que compõe o complexo edipiano é mais complicado, mais profundo para as meninas que para os meninos, pois as garotas precisam lidar e conviver com a descoberta de não possuir um pênis gerando sentimentos de inferioridade e inveja do pênis, porém, como Freud (1924) afirma, essa abdicação do membro sexual masculino por parte da menina precisará ser compensada de alguma forma e com isso a garota desenvolverá o desejo de receber um filho do próprio pai. Contudo, esse desejo não se torna realidade e Freud (1924) acredita que a partir daí o complexo de Édipo é, pouco a pouco, deixado de lado, entretanto permanecendo no conteúdo inconsciente da menina os desejos tanto do pênis como do filho, “e ajudam a preparar o ser feminino para o seu futuro papel sexual” (FREUD, 1924).

Como se pôde constatar, essa fase entre os 3 e 6 anos de idade para a menina, compreende um período repleto de árduas vivências na formação da personalidade e suas formas de se relacionar com o mundo. Contudo, outra questão importante a se enfatizar também na estruturação do psiquismo feminino, é a relação de vínculo de apego entre mãe e filha, que apesar de ser paralela às explicações psicanalíticas já descritas, é também uma forma de explicação rica a respeito do desenvolvimento humano, como reforça Bolwby (1969).

De acordo com Coll et al. (2004), foram descritos, a partir de estudos criteriosos, quatro padrões de apego, sendo eles: o apego seguro no qual a criança procura explorar a figura de apego, apresenta pouca ansiedade na separação e busca contato no reencontro, foi o tipo mais comum apresentado nos estudos; o apego ansioso-ambivalente onde notou-se pouca ou nenhuma exploração da figura materna, nível alto de ansiedade na separação e busca de proximidade mesclada com atitudes de repulsa no reencontro; o apego ansioso-evitativo no qual há pouca ou nenhuma ansiedade na separação, evitação da mãe no reencontro, além de não evidenciar uma preferência pela mesma; o apego ansioso-desorganizado, onde a criança apresenta atitudes oscilantes e aparentemente desorientadas no reencontro com a mãe.

 

AMOR SAUDÁVEL X AMOR PATOLÓGICO EM MULHERES

Ao longo da história da humanidade ocidental até a atualidade, é comum encontrar o tema “amor” retratado de diferentes formas em obras filosóficas, artísticas e literárias, porém somente a partir do século XX, o amor foi considerado como um objeto da ciência . Convém salientar que por ser o amor o tema abstrato, enigmático, era tido como um campo de difícil observação sistemática e estudo no âmbito da ciência (NEVES, 2007).

Graças à introdução do “amor” como objeto científico, atualmente é possível encontrar vários estudos que apresentam uma diversidade de teses que perpassam desde explicações sobre as alterações fisiológicas provocadas por este sentimento, até sua importância psicológica e social, possibilitando ainda compreensões e comparações sobre o amor em nível considerado normal e patológico. Mas, primeiramente, qual o significado da palavra amor? Recorrendo ao dicionário Michaelis: moderno dicionário da língua portuguesa (1998), é possível encontrar 12 definições para o verbete “amor”:

1 Sentimento que impele as pessoas para o que se lhes afigura belo, digno ou grandioso. 2 Grande afeição de uma a outra pessoa de sexo contrário. 3 Afeição, grande amizade, ligação espiritual. 4 Objeto dessa afeição. 5 Benevolência, carinho, simpatia. 6 Tendência ou instinto que aproxima os animais para a reprodução. 7 Desejo sexual. 8 Ambição, cobiça: Amor do ganho. 9 Culto, veneração: Amor à legalidade, ao trabalho. 10 Caridade. 11 Coisa ou pessoa bonita, preciosa, bem apresentada. 12 Filos Tendência da alma para se apegar aos objetos.

Em Observações Sobre o Amor Transferencial, Freud (1915), a partir de seus estudos sobre pacientes que se enamoram de seus médicos analistas, propõe que no estado amoroso o indivíduo acaba por reeditar os padrões vividos na infância bem como o próprio autor afirma: “é verdade que o amor consiste em novas adições de antigas características e que ele repete reações infantis. Mas este é o caráter essencial de todo estado amoroso. Não existe estado deste tipo que não reproduza protótipos infantis”.

Nessa perspectiva, partindo dos pressupostos tratados até agora, surge o questionamento: É possível adoecer de amor? O que pode ser considerado amor saudável e amor patológico? Para alguns teóricos, amar e se relacionar de maneira saudável perpassa por atitudes como cuidar e dar atenção ao objeto amado de maneira a respeitar as liberdades das subjetividades envolvidas na relação. Pretto et al. (2009) corrobora com esta ideia afirmando que se relacionar de maneira respeitosa e comprometida, “seria um grande investimento existencial compartilhado de igual para igual, em que se aprenderia e se ensinaria por meio das diferenças”, ou seja, a consciência de que o ser amado é um outro indivíduo com suas particularidades que precisam ser levadas em consideração.

Entretanto, nem todas as manifestações do amor são saudáveis. Quando um sujeito prioriza as atividades de cuidar e prestar atenção excessivamente e sem controle ao ser amado, gerando danos emocionais a ele mesmo e às pessoas próximas, tem-se caracterizado um quadro de Amor Patológico, que pode se manifestar em indivíduos de personalidade vulneráveis, que apresentam sentimentos de repúdio e baixa auto-estima, podendo também esta patologia se desenvolver a partir de outras disfunções psiquiátricas, estando vinculada a sintomas ansiosos e depressivos (SOPHIA; TAVARES; ZILBERMAN, 2006).

Muitos autores ressaltam a existência de semelhanças entre o quadro de Amor Patológico e o de dependência de substâncias químicas, isto porque sensações e comportamentos análogos entre os dois quadros foram constatados em estudos. Como coloca Sophia et al. (2006) “assim como ocorre com o dependente químico que inicia o uso da “droga de escolha”, o portador de AP acredita que o parceiro trará significado para sua vida, ilusão que inicialmente alivia a angústia de ter que dar conta de si mesmo”. De acordo com Sophia (2008), uma comparação feita entre os critérios de diagnóstico para dependência química e o quadro apresentado por indivíduos acometidos de Amor Patológico feita pela American Psychiatric Association (1994), apontou a existência de no mínimo seis critérios em comum nas duas disfunções. São eles:

 

SINTOMA DESCRIÇÃO
Sinais e sintomas de abstinência Quando o parceiro está distante (física ou emocionalmente) ou mediante ameaça de abandono, como o rompimento da relação, por exemplo, podem ocorrer: insônia, taquicardia, tensão muscular, alternando-se períodos de letargia e intensa atividade.
O ato de cuidar do parceiro ocorre em maior quantidade do que o indivíduo gostaria O indivíduo costuma se queixar de manifestar atenção ao parceiro com maior freqüência ou por período mais longo do que pretendia inicialmente.
Atitudes para reduzir ou controlar o comportamento patológico são mal sucedidas Em geral, já ocorreram tentativas frustradas de diminuir ou interromper a atenção dispensada ao companheiro.
e gasto muito tempo para controlar as atividades do parceiro A maior parte da energia e do tempo do indivíduo é gasta com atitudes e/ou pensamentos para manter o parceiro sob controle.
Abandono de interesses e atividades antes valorizadas Como o indivíduo passa a viver em função dos interesses do parceiro, as atividades propiciadoras da realização pessoal e desenvolvimento profissional são deixados de lado, incluindo: cuidado com filhos, investimentos profissionais, convívio com colegas etc.
O AP é mantido, apesar dos problemas pessoais, familiares e profissionais Mesmo consciente dos danos decorrentes desse comportamento para sua qualidade de vida, persiste a queixa de não conseguir controlar a conduta patológica.

Fonte: Sophia (2008 apud SOPHIA et al. 2007)

            As características que o sujeito portador do Amor Patológico manifesta, salientando a dependência do objeto amado acompanhado de sentimentos de baixa auto-estima e a obsessão, são, para muitos estudiosos, uma forma de reedição das relações de afeto vividas pela criança nos primeiros anos de vida principalmente com seus cuidadores (LINO, 2009). Desta forma o sujeito que ama de maneira patológica, busca nos seus relacionamentos afetivos, satisfazer necessidades afetivas não saciadas da infância na tentativa de compensá-las. Esse posicionamento é ratificado em Sophia et al. (2006):

“Assim, o padrão de relacionamento “carente x cuidador”, apreendido pelo portador de AP na infância através da observação (relação dos pais) ou da própria vivência (relação da criança com os pais), pode ser registrado e, conseqüentemente, repetido nos relacionamentos amorosos atuais do portador de AP”

Com relação à predominância desta patologia nos gêneros masculino e feminino, estudos constataram que o padrão de Amor Patológico, afeta mais mulheres que homens. Foi observado que, atualmente, a população feminina enfatiza mais os comportamentos amorosos que os homens, julgando o relacionamento como uma prioridade da vida, atribuindo muita importância a aspectos de cunho romântico do tipo ganhar presentes, se sacrificar em nome do relacionamento, lembrar ocasiões especiais, dentre outras (SOPHIA et al., 2006).

MULHERES QUE AMAM DEMAIS: TRATAMENTO

            Como já mencionado anteriormente, as vivências afetivas com a família na infância, e principalmente com a mãe, influenciam diretamente na constituição psíquica do sujeito, manifestando suas consequências também nos relacionamentos amorosos da vida adulta, podendo desenvolver uma estrutura psicológica apta ou não para amar de maneira saudável, que varia de acordo com o nível de segurança psicológica e emocional proporcionadas pela família e adquirida nesse contexto.

Dentro dessa perspectiva, Norwood (2011, p.35) corrobora que, embora se constituam de variados tipos, famílias consideradas disfuncionais acabam, de maneira comum, por prejudicar suas crianças no que se refere à questão de sentir e se relacionar com as pessoas. Norwood (2011, p. 38) destaca também que “todas as mulheres que amam demais experimentaram no mínimo abandono emocional profundo, com todo o pavor e vazio que isso envolve”, descrevendo quinze características apresentadas no quadro de Amor Patológico, das quais é possível destacar algumas como: proveniência de um ambiente familiar desajustado que não supriu as necessidades emocionais; devido o fracasso nas tentativas de transformar os pais em figuras amorosas e afetuosas que almejava, reage de forma intensa ao tipo de homem emocionalmente indisponível em uma nova tentativa de transformação; pelo intenso medo do abandono, agirá de modo a tentar não permitir o término do relacionamento; autoestima demasiada baixa, acreditando não merecer a felicidade; a escassa segurança experimentada na infância gera uma necessidade grande de controlar seus parceiros e relacionamentos, sob o pretexto de “ser útil”.

Ainda de acordo com Norwoord (2011, p.226), a mulher que ama demais, usa a dinâmica do relacionamento como droga e, conforme a autora afirma, essa mulher “negará tanto esse fato quanto qualquer viciado em uma substância química e apresentará igual resistência e medo em relação a abandonar seu pensamento obsessivo e o modo altamente emocional de interagir com os homens”. Diante disso, Norwood (2011) ratifica que nesse âmbito, as emoções e o corpo desta mulher que ama em demasia, precisam de cura. E conforme a autora sugere:

“O primeiro passo tratar uma mulher com esse problema, é ajudá-la a perceber que, como qualquer viciado, sofre de um processo de doença que é identificável, progressivo se não tratado e responde bem a tratamento específico. Ela precisa saber que é viciada na dor e na familiaridade de um relacionamento insatisfatório, e que isso é uma doença que aflige muitas mulheres e tem suas raízes em relacionamentos doentios na infância” (NORWOOD, 2011, p.227.

Para o transtorno do Amor Patológico, o tratamento que se apresenta mais adequado, bem como para viciados em álcool e outras drogas, é a terapia em grupo, pois características como: apoio, tranquilização e compreensão nos momentos de ansiedade pela abstinência da droga de escolha, são vividas de maneira mais proveitosa quando compartilhadas com semelhantes, se tornando bastante relevante para o tratamento (NORWOOD, 2011, p. 227).

Em Psicanálise, a transferência, que corresponde à dinâmica inconsciente estabelecida entre o paciente e o analista sendo fundamental importância no processo de cura, também pode ocorrer em grupo sob a condição de uma condução apropriada, já que este ambiente propicia uma troca de experiências emocionais intensas entre os participantes devido à semelhança da natureza de seus conflitos, suas angústias, seus sofrimentos. (BECHELLI; SANTOS, 2006). Ressalta ainda Bechelli e Santos (2006), que na terapia em grupo se faz necessário que o participante assuma uma co-responsabilidade na dinâmica terapêutica sendo essencial que os mesmos exponham suas observações. Nesse sentido, o terapeuta no papel de facilitador e através de uma conduta discreta, trabalha no sentido de promover o autoconhecimento dos indivíduos em tratamento, para que os mesmos desenvolvam condições de lidar e gerenciar seus conflitos.

Norwood (2011) descreve 10 passos a serem dados em ordem cronológica pelas mulheres que amam demais em direção à sua recuperação. O primeiro passo consiste em buscar ajuda, em seguida colocar sua recuperação como prioridade na vida, depois deve localizar um grupo de apoio que a compreenda. O desenvolvimento e prática diária da espiritualidade entram como quarto passo. Em seguida, parar de regular e controlar as pessoas, depois o sexto passo consiste em evitar entrar em jogos. Chega a etapa de enfrentar com bravura os seus defeitos e problemas, sendo necessário logo em seguida cultivar os fatores que necessitam ser desenvolvidos em si mesma. O 9º passo em tornar-se “egoísta” no sentido de deixar de ser vítima e por último, dividir com os outros as experiências e aprendizados.

Após a recuperação através do processo de terapia em grupo, as pacientes apresentam características como: total aceitação e exercício de cuidados consigo mesma em diversos aspectos (personalidade, aparência, crenças, valores, interesses); falta de vontade de mudar as pessoas em busca de satisfação de suas necessidades; desenvolvimento da autoestima, auto-respeito, auto valorização; deixa de supervalorizar os sofrimentos do passado; cria vínculos de amizade saudáveis; valoriza a sua serenidade, protegendo a si mesma (NORWOOD, 2011, p.295-296).

Ainda com relação à recuperação, Norwood (2011, p.295) coloca que esta “é um processo que dura a vida toda e um objetivo que nos esforçamos por atingir, não um que atingimos definitivamente”, ou seja, a cura para mulheres adultas acometidas de Amor Patológico perpassa pela terapia, indo além. Consiste em um processo contínuo de cuidar de si mesma em vários aspectos, consolidando cada vez mais, dia após dia, sua autoaceitação, autoconfiança, autoestima. Um processo vitalício de compromisso com seu próprio bem-estar.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao longo deste artigo pôde-se conhecer e entender um pouco sobre o desdobramento do Amor Patológico em mulheres, desde o seu surgimento nas primeiras relações objetais da infância enraizando-se na psique da menina até suas consequências defeituosas nos relacionamentos amorosos da vida adulta, devido a uma constituição de personalidade vulnerável.

O presente estudo contemplou também os variados aspectos estudados ao longo dos anos por diversos pensadores e estudiosos sobre o amor (saudável e patológico) e suas nuances. A partir da abordagem psicanalista percebeu-se que os sujeitos, de acordo com suas constituições familiares e suas vivências afetivas na infância podem desenvolver personalidades seguras ou vulneráveis e com isso amar e se relacionar de maneira normal ou patológica.

Reitera-se aqui, portanto, a necessidade de alerta social sobre a gravidade do transtorno psicológico do Amor Patológico na vida de mulheres vítimas desse distúrbio, onde se espera difundir através deste estudo, informações que possam vir a agregar esclarecimentos sobre aspectos clínicos, psicológicos e de tratamento do distúrbio. Sendo ressaltada a terapia em grupo, já que a mesma se apresenta como uma opção de intervenção psicológica rica e proveitosa para as participantes, podendo proporcionar à essas mulheres a ajuda necessária para que possam, enfim, se livrar das correntes emocionais que as impedem de manter um relacionamento amoroso saudável.

 

 

Zinole Helena Martins Leite – profzinoleite@gmail.com


 

REFERÊNCIAS

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