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Sabe-se que adolescentes jamais voltarão a serem crianças e não são adultos ainda. Nesta época se consolida uma modalidade de gozo advinda do despertar desse corpo, enquanto sexual. É nesta fase da vida que a sexualidade “esburaca” o real e é exatamente neste despertar que emerge do real, o gozo fálico. Desde os “Três Ensaios da Sexualidade”, Freud (1905) (1995, p.172) já marcava que “a adolescência era um divisor de águas que reatualizaria o drama edípico”, abrindo as fronteiras para o enigma do futuro, onde o sujeito terá de assumir a autoria da trama do próprio destino. É também um despertar do sonho de infância, lançando âncoras em um futuro ainda a ser reinventado.

Não podemos depois de Freud, imaginar a adolescência como “aurora bucólica da vida”, como um período de felicidades, já que é nesse momento que o sujeito desperta aos encontros e desencontros e não pode mais como a criança fazia de lançar mão da ajuda de “papai e mamãe” para resolver suas dificuldades.

Os pais serão sempre falhos nas respostas por mais que se esforcem para acertar. Deparar-se com essa falha nem sempre é fácil… Essa é mesmo a mais difícil das tarefas da adolescência. De todas as crises que o ser humano enfrenta é certamente essa da adolescência a mais radical: todas as velhas respostas são percebidas como “furadas”.

Tudo é motivo de sofrimento: o corpo, o mundo exterior, as relações com os outros (…). De início, o adolescente precisa enfrentar algumas perdas, como as do corpo infantil, identidade infantil, a dos pais da infância. Não se reconhece mais no seu corpo, questiona-se a respeito da própria identidade: afinal, quem sou eu? Nesse período da vida, a pulsão sexual em seu estado emergente não é nem unificada e nem dirigida a um objeto, como Freud argumentou em seus três ensaios sobre a Teoria da Sexualidade.

Como nos diz Veronique Voruz (AMP, 2016):

A teoria psicanalítica, desde o seu início, rejeitou a idéia de que o desenvolvimento sexual dos humanos poderia se dar de acordo com as prescrições de leis naturais inscritas no psiquismo, conduzindo a relações sexuais plenas entre homens e mulheres: antes,(…) a disposição para as perversões é a disposição originária universal da pulsão sexual humana.

O que emerge e do que padece esse corpo adolescente tem a ver com o mistério do sexo. Hetero? Homo? Bissexual? Ou ainda: Serei Budista? Macrobiótico? Suicida? Cibernético? Autista? Nerd? São muitas as posições subjetivas a serem assumidas ou rechaçadas nesse momento em que há uma plasticidade da fantasia e não uma escolha de objeto propriamente dita.

Diz um jovem de 17 anos: “minha mãe me apresenta muitas paqueras: sejam meninos ou meninas” e você o que quer?, pergunto-lhe. Escolher namorar uma menina bem mais jovem para parecer que ele sabe de alguma coisa, quando na verdade a acha mais madura que ele. E acrescenta: namorar é chato, gosto de ficar no meu cantinho vendo as séries de TV, me masturbar é bom (…)

Como nos lembra J.A. Miller: na abertura do X Congresso da AMP (2016):

Muitos sujeitos contemporâneos, não – tolos da relação sexual, voltam-se para satisfações proporcionadas pela adição e pela pornografia, para o gozo do UM sozinho. A tentação de fazer sem o Outro sexo, ainda que esteja assumindo uma prevalência especifica da hipermodernidade, já estava implicada na teoria da sexualidade.

Instala-se na entrada do sexo uma crise, mas não tomemos essa palavra no sentido pejorativo – e sim no sentido de ruptura. O sujeito desperta de seus sonhos infantis e na tentativa de se situar no convívio uns com os outros, é incitado a romper com antigas formas de ser e estar no mundo. De fato como J.A. Miller enfatizou, Freud deixa claro que “o corpo é primariamente fragmentado e que a unificação é apenas secundária e sempre imperfeita”. Os adolescentes nos mostram que não sabem o que fazer com o parceiro, como conduzir-se com ele ou ela. Isso não pode ser ensinado.

O que há de “doente” nesse corpo jovem? Tanto a mudança corporal como seu ritmo e o viço que desacomoda o corpo, são motivos de queixa e sofrimento. O acontecimento de corpo é visto como mau encontro: “o que dizer o que querer (…) sou eu sozinho com esse nó no peito”! Se alguém soube dizer bem sobre isso, foram os poetas. Shakespeare em Romeu e Julieta faz apologia a esses desencontros: nem no ato final os dois se encontraram, ele bebendo o veneno, que não era “dele”, e ela com a bainha do punhal, que não era “dela”.

É do desencontro que Mariana aos 11 anos fala de seu primeiro beijo: a cara dele é cheia de espinhas, vai tudo passar para mim (… ). Ou de Joana aos 13 anos ainda “boca virgem”: tenho medo de pegar sapinho, ou zika (…). Estamos longe de um período onde havia romantismo nesse início da vida amorosa, mas sim, uma preocupação higienista de cuidados corporais prescritos pela Ciência. Já foram incorporados os exames pré-nupciais para jovens que iniciam sua vida sexual bem antes do casamento propriamente dito. São momentos de incertezas e de desconfiança: o Outro pode me matar! E se tiver AIDS? Ou alguma DST? No caso a prevenção vem na contramão do amor.

Pede-se ao adolescente que tome um posicionamento no mundo: a ligação com os pais é “desfeita” em nome da convivência com o grupo social, exigem-se novas relações com os outros. Que lugar então para esse sujeito adolescente? Não há fórmulas, nem receitas para ensiná-lo a viver de forma melhor com esses conflitos, pois aí se impõe uma pulsão que não é educável. Então, uma questão se impõe: é preciso fazer aí uma travessia. O jovem adolescente está inserido na chamada família lacaniana que têm uma missão primordial que é a de estabelecer uma transmissão. A psicanálise, diz Gustavo Stiglitz, tem mostrado que se trata da transmissão da castração, ela própria efeito de linguagem. (AMP, 2006).

A ausência de respostas leva cada um a criar saídas – umas mais sofridas que as outras. A Psicanálise surge então como resposta a essa pergunta: por que eu sofro? Para a Psicanálise o sujeito não tem idade, seja esse sujeito criança, adolescente ou adulto – trata se de um só sujeito – o do inconsciente. Sabe se que na adolescência as palavras pululam neste corpo púbere de uma forma singular: como uma tempestade na puberdade, causando uma precipitação da língua que atravessa o corpo jovem.

A adolescência é então esse momento em que o sujeito se depara com muitas perdas. Perda da identidade, perda de amores: os ideais vacilam e os adolescentes vão em busca de novos amores, momento de busca – de um objeto para sempre perdido – um adolescente dizia a outro dessa maneira: estou na idade do nada; ou com diria o filosofo Gilles Livopetsky, na era do pós-tudo, do excesso.

Hoje, faz uso de aplicativos que indicam ao jovem as mulheres de perfil X ou Y que estão no seu raio de proximidade, mas ainda assim, algo escapa a um cálculo sobre o gozo. Não há nenhum programa contra o tédio, quando ocorre o gozo com o excesso. Ali, gozar o melhor da vida é o melhor limite.

As fugas, as situações de risco, os acidentes de repetição, as experiências com drogas, são outras formas de demonstrar essa vacilação entre vida e morte desse corpo errante em construção.

Na XX Jornada da EBP/Bahia – 2015, sobre “O corpo falante: adolescência e desejo”, Bernardino Horne nos adverte que há uma errância na forma de gozar que aparece na adolescência onde a construção da fantasia fundamental seria o ponto central de onde advém a mutação de gozo. É quando o simbólico intervém para dar algum sentido a essa forma de gozo. A persistência da fantasia fundamental toma lugar central na adolescência, como um ponto de solução. Seria uma versão do ditado popular: “o que não têm remédio, remediado (remendado) está”.

A depressão e a tristeza são frequentes na adolescência mostrando que o sujeito não quer saber o que deseja. Há um ajustamento sempre precário do corpo que é sempre um corpo sintomático. O sujeito abdica de seu poder de decisão e por covardia fica triste – assim como também não pode mais responsabilizar os outros por suas próprias escolhas. Momento de passagem, a adolescência acaba quando as perguntas se acalmam. Por isso é que a adolescência fica para sempre na lembrança como o momento crucial de interrogações.

Em Jovem Törless, o autor Musil pergunta quem sou eu? A resposta é a mais radical possível: o sujeito pode assumir qualquer significação, pode desempenhar qualquer papel, dependendo das circunstâncias. É esse o dilema ou desafio, de qualquer um que atravessa a adolescência, em qualquer tempo ou lugar.

Thaïs Moraes Correia[1]
thais@elo.com.br

 


 

REFERÊNCIAS
AMP – ASSOCIAÇÃO MUNDIAL DE PSICANÁLISE. Scilicet dos Nomes do Pai: Textos preparatórios para o Congresso de Roma (2006).
AMP – ASSOCIAÇÃO MUNDIAL DE PSICANÁLISE. Scilicet: O corpo falante – Sobre o inconsciente no século XXI. Sob a direção de J. A. Miller – Escola Brasileira de Psicanálise ( 2016).
FREUD, Sigmund (1905). Três ensaios sobre a Teoria da Sexualidade. Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. v. VII. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
MUSIL, Robert. O jovem Tórless. Lya Luft (trad.). Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1996.
O CORPO FALANTE: adolescência e desejo. XX Jornada da EBP/Bahia – 2015.
[1] Psicanalista aderente da Escola Brasileira de Psicanálise – Professora agregada ao Departamento de Filosofia da UFMA.