Brenda Cruz Ribeiro[2]

“O que o paciente viveu sob a forma de transferência nunca mais esquecerá”.

(Sigmund Freud)

Falar de transferência é dizer do amor. Assim foi sua origem na psicanálise, naquilo que Ana O. endereçou a Breuer (1842-1925) e, enigmaticamente, como a cabeça de Medusa, o petrificou. Contudo, como um rio córrego, Freud (1856-1939) pode, a partir dali, seguir e tecer o fio da meada.   A ênfase neste artigo será percorrer o conceito de transferência a partir de Freud. Nesta perspectiva, propõe-se compreender de que forma a transferência opera no funcionamento da clínica psicanalítica.

A transferência como parte importante no tratamento analítico, é-nos apresentada por Freud desde os primórdios da psicanálise e posteriormente em sucessivos trabalhos. Interessa-nos, aqui, abordar a forma como esse processo acontece na clínica psicanalítica. Para Santos (1994, p.20), “a transferência […] constitui um fenômeno presente desde o início do tratamento”. Para o autor, a transferência funciona como uma força que faz girar o processo analítico.

Freud (1912) fala que, a partir de experiências vividas na infância, desenvolvemos o chamado clichê estereotípico, no qual a pessoa repete de modo inconsciente um meio de lidar e conduzir sua vida amorosa. Esses impulsos amorosos, segundo Freud, tomam direções diferentes, uma parte vai para o consciente e direciona-se para a realidade, enquanto que a outra parte fica no inconsciente ou tem a possibilidade de ficar na zona da fantasia.

Revela-nos, ainda, que as necessidades de amor que no indivíduo não foram satisfeitas, poderão retornar em forma de expectativas libidinais. Comenta que é perfeitamente normal que o investimento libidinal de um indivíduo parcialmente insatisfeito poderá voltar-se contra o analista, com isso, a pessoa de alguma forma incluirá o analista em uma de suas séries de clichês, em uma série de imagens e/ou fantasias carregadas de valores afetivos – eis como a transferência pode vir a se manifestar em ato na clínica psicanalítica.

Freud (1915) retoma falando sobre essa paixão que ocorre por parte do paciente pelo analista e comenta que é uma situação que transita pelo aspecto doloroso e cômico, e também sério. Segundo ele, é uma situação que sempre ocorre no tratamento e que para o analista é difícil de lidar, especialmente se ele estiver em início de carreira. Ele chega a dizer que se deve suspeitar que toda as coisas que atrapalham o tratamento pode ser uma manifestação de resistência, e que essa resistência tem enorme contribuição no surgimento dessa forte solicitação de amor.

Freud (1913, p.166) refere, ainda, que a saída é conservar a transferência, mas cabe ao analista tratá-la como algo irreal, “como uma situação a ser atravessada na terapia e reconduzida às suas origens inconsciente”. Ele fala que esse amor do paciente pelo analista não possui nada de novo, não é uma situação presente, trata-se apenas de repetições de coisas vividas anteriormente, inclusive infantis, continua dizendo que vencendo a essa resistência pode-se chegar à revelação dessas escolhas infantis de objetos e às fantasias que rondam o seu entorno.

Durante toda essa descoberta, Freud (1916) verificou que no começo do tratamento o paciente se mostra disposto a colaborar, e a análise caminha muito bem, entretanto, em determinado momento o paciente não coopera da mesma forma que antes e passa a comportar-se de modo desinteressado com relação à análise. Freud pontua que, nesse exato momento, o analista está lidando com uma poderosa resistência.

Observa que isso se dá porque de alguma forma o paciente transfere para o analista sentimentos afetuosos, sentimentos esses que não têm justificativa nem pela forma como o analista conduz a análise e nem com relação à forma de agir do analista. Ele continua dizendo que se esse fato é repetido é porque se está diante da transferência.

Freud (1916) também nos comunica sobre a existência da transferência positiva e negativa, na qual a primeira se dá quando o paciente é amável com o analista, quando o superestima ou ainda quando se mostra interessado em saber sobre ele; enquanto que na segunda, em um primeiro momento, o paciente demonstra sentimentos afetuosos pelo analista, porém, por trás deles existe uma hostilidade, mostrando aqui uma ambivalência de sentimentos.

Freud (1912) coloca que a transferência negativa é carregada de fontes eróticas, e que nossos afetos tem um fundo sexual, só que desenvolvidos, ou seja, originalmente só conhecemos objetos sexuais. Ele diz ainda que a solução para esse enigma é que a transferência para o analista se presta para a resistência na terapia somente na medida em que é transferência negativa, ou transferência positiva de impulsos eróticos reprimidos.

Em seu texto O início do tratamento (1913), Freud faz algumas recomendações aos analistas sobre tal assunto e propõe que antes de começarmos uma análise, deve-se primeiramente fazer uma espécie de teste, no qual o paciente frequentará de uma a duas semanas. Esse período serve para que, caso exista uma interrupção no decorrer desse tempo, o paciente não fique com o sentimento de fracasso na sessão, além disso, serve para que o analista tenha certeza de que esse caso cabe ou não em análise.

Freud (1911-1913, p.126) alerta que, caso essas entrevistas preliminares de fato se tornem muito longas, há chances de elas atrapalharem o andamento da análise, fazendo com que o paciente passe a “encarar o médico com atitude transferencial pronta, que o médico tem de primeiro descobrir lentamente, em vez de ter a oportunidade de observar a transferência nascer e crescer”.

Freud (1916) refere que o analista não deve nem ceder à transferência, nem rejeitá-la. Deve-se fazer com que o paciente perceba que a origem do problema não está no analista, tampouco na situação presente, mas sim, trata-se de uma repetição de algo vivido no passado.

Aos analistas, Freud (1915) deixa o conselho de que não se pode abandonar a transferência amorosa, ou seja, não podemos afugentá-la ou estragá-la para o paciente, pois ao percebermos tal transferência, não podemos nem se entregar a ela e corresponder esse amor do paciente, nem, todavia, mandar o paciente embora e desistir do tratamento analítico.

Por fim, pode-se dizer que a transferência é um mecanismo de resistência do indivíduo e cabe ao analista realizar um manejo clínico para que se possa dar continuidade à análise. A partir disso, podemos constatar que a transferência, segundo Freud, acontece na clínica através de clichês estereotípicos nos quais o paciente envolve o analista. Estando o analista vestido com esse clichê, o paciente estabelece a transferência à medida em que forem quebradas as barreiras da resistência, podendo o paciente expor ao analista seus conteúdos inconscientes através do discurso na análise.

 

 


REFERÊNCIAS
FREUD, Sigmund. A dinâmica da transferência. In: FREUD, Sigmund. Obras completas v. 10. Observações psicanalíticas sobre um caso de paranoia relatado em autobiografia (“O caso Schreber”): artigos sobre técnicas e outros textos (1911-1913). São Paulo: Companhia das Letras, 2010. p. 100-110.
______________. A transferência. In: FREUD, Sigmund. Obras completas v.13. Conferências introdutórias à psicanálise (1916-1917). São Paulo: Companhia das Letras, 2014. p. 570-593.
______________. Observações sobre o amor de transferência. In: FREUD, Sigmund. Obras completas v.10. Observações psicanalíticas sobre um caso de paranoia relatado em autobiografia (“O caso Schreber”), artigos sobre técnicas e outros textos (1911-1913). São Paulo: Companhia das Letras, 2010. p. 159-172.
______________. O início do tratamento. In: FREUD, Sigmund. Obras completas v.10. Observações psicanalíticas sobre um caso de paranoia relatado em autobiografia (“O caso Schreber”), artigos sobre técnicas e outros textos (1911-1913). São Paulo: Companhia das Letras, 2010. p. 123-145.
SANTOS, Manoel Antônio dos. A transferência na clínica psicanalística: a abordagem freudiana. Temas psicol., Ribeirão Preto, v. 2, n.2, p.13-27, ago. 1994. Disponível em < http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-389X1994000200003&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 28  fev.  2018.

[1] O artigo é oriundo dos temas discutidos no curso de Transmissão do Ensino de Freud a Lacan, realizado pela Escola Brasileira de Psicanálise – EBP, Delegação do Maranhão. Agradeço à professora Suely Lima pela orientação deste trabalho.
[2] Psicóloga. Aluna do curso Transmissão do Ensino de Freud a Lacan. E-mail: brenda.cruzr@hotmail.com