“Guernica”, Pablo Picasso, 1937, Pintura a óleo

Antonio Augusto de Souza Oliveira[1]
Vanessa Oliveira de Souza[2]

RESUMO
O presente trabalho é uma revisão bibliográfica com base na obra de Freud, Psicologia de massas e análise do eu (2011), em que são citados autores como Le Bon e William MCDougall. Ressalta-se, também, Jorge Forbes, Maria Hélène Brousse e Jessé de Souza, autores posteriores a Freud, mas que ilustram uma visão bastante agregadora à situação atual que o Brasil enfrenta. O objetivo é estabelecer um quadro comparativo entre os estudos da teoria Freudiana acerca da psicologia das massas e a atual situação política/social do Brasil.
Palavras-chave: Freud, Psicologia de massas, crise política/social, manifestações. 
THE FREUDIAN THEORY ON PSYCHOLOGY OF MASSES APPLIED TO THE BRAZILIAN POLITICAL / SOCIAL SCENARIO.
ABSTRACT
The present work is a bibliographic review based on Freud’s psychology of masses and analysis of the self (2011), citing authors such as Le Bon and William MCDougall. Jorge Forbes, Marie Hélène Brousse and Jessé de Souza, authors after Freud, are also highlighted, but they illustrate a rather aggregating view of the current situation facing Brazil. In order to establish a comparative picture between the studies of the Freudian theory about the psychology of the masses and the current political / social situation of Brazil. 
Key-words: Freud, Psychology of the masses, political/social crisis, manifestations.

 Introdução

Este artigo se propôs a estudar a psicologia das massas de acordo com Freud, e a compreender como é possível que a teoria freudiana possa elucidar a atualidade brasileira.

No entanto, o que se pretende analisar com a psicologia social ou das massas é o que Freud (2011) denomina, através dos estudos de Le Bon e McDougall, de “instinto[3] de rebanho” ou “mente de grupo”, de modo que esse modelo possa ser aplicado aos dias atuais e ao cenário político brasileiro.

Sobre o coletivo

Freud (2011, p. 17) pondera que se a psicologia individual houvesse compreendido as relações que o ser individualmente estabelece com o outro, teria um novo problema a responder: Por que esse indivíduo, que teria sido explicado pela psicologia individual, demonstraria sob determinada condição, que pensa, sente e age de modo distinto do esperado?”

É necessário que se esclareça que a condição a que Freud se refere é o que ele chama de massa psicológica, ou seja, um aglomerado de pessoas que perderam sua individualidade e que em conjunto personificaram a identidade da multidão ou da massa.

Porém, o que faz com que esses indivíduos em conjunto sintam, pensem e até ajam de modo diferente do que o usualmente fariam? É o que Freud e Le Bon[4] chamam de alma coletiva. É ela a responsável pelo modo como o indivíduo pensa, sente e age quando inserido na massa e que é bem diferente de seu comportamento isolado. Na massa desaparece a particularidade. “Na massa diríamos que a superestrutura psíquica, que se desenvolveu de modo tão diverso nos indivíduos, é desmontada, desabilitada, e o fundamento inconsciente comum a todos é posto a nu (torna-se operante).” (Ibid., p. 17)

Freud passa, então, a investigar, de acordo com Le Bon, as causas de aquisição de características novas nos indivíduos, que não são comuns quando os mesmos estão fora da massa. Le Bon apresenta três fatores:

O sentimento de invencibilidade produzido pelo grande número de pessoas da massa, associado ao anonimato que é característica da massa, e que retira do indivíduo o senso de responsabilidade.

Nesse aspecto, é possível compreender que, segundo Freud, a consciência moral consiste no medo social, portanto, tais características se apresentam no indivíduo quando este está inserido na massa, pois, são manifestações contidas no inconsciente.

Segundo Maria Rumenos Guardado, na introdução do livro “O inconsciente é a política” (In BROUSSE, 2003, p.11-12), têm-se a seguinte referência acerca do inconsciente:

Assim, o inconsciente tem a ver com e se produz a partir do laço social, e sendo o inconsciente aquilo que um analista tem a ver, o analista, e a psicanálise, têm a ver com o laço social, aquilo que faz o laço com o outro e com os outros, aquilo que o coloca frente a frente com a cidade e com a subjetividade de sua época.

Assim, Jorge Forbes[5] (2012), psicanalista do século XXI, ensina que a clínica não exime o indivíduo de suas responsabilidades com a escusa de que foi o inconsciente o culpado de determinada escolha. Segundo Forbes, é urgente considerar a responsabilidade pelo que é inconsciente.

Outrossim, resta claro que, atualmente, as redes sociais ilustram um exemplo de massas que se propagam por meio tecnológico, de rápido alcance, mas que em essência constituem o que Le Bon e Freud já discutiam no século passado. Exercem o sentimento de anonimato, o que permite as pessoas unirem-se em torno de um assunto, expressarem opiniões, por vezes agressivas, manterem comportamentos que isoladamente não teriam coragem para fazê-lo. E com a mesma rapidez com que se formam, desfazem-se.

“O contágio mental” que há no individuo, quando pertencente à massa, e que faz o sujeito sacrificar interesses próprios em prol do interesse coletivo da massa.

Tal fenômeno é da ordem dos fenômenos hipnóticos, pois é contrário à natureza humana tal ato.

Sugestionabilidade que a massa exerce sobre o indivíduo.

Tal qual o hipnotizador exerce fascínio sob o hipnotizado, a massa e seus eflúvios exerce o mesmo fascínio sob o indivíduo. Le Bom (apud FREUD, 2011, p.23) explica esta ideia da seguinte forma: “O indivíduo não é mais ele mesmo, tornou-se um autômato sem vontade”.

Características da massa

Freud traduz a massa pelo mesmo entendimento de Le Bon, assemelhado com os povos primitivos e as crianças. Sendo orientada pelo inconsciente, não existe planejamento na massa. A mesma tem sentimento de onipotência, o conceito de impossível se dissolve ante à força da multidão. A massa não conhece dúvidas ou incertezas. Nesse sentido, Freud caracteriza a massa da seguinte forma:

A massa é impulsiva, volúvel e excitável. É guiada quase exclusivamente pelo inconsciente. Os impulsos a que obedece podem ser, conforme as circunstâncias, nobres ou cruéis, heroicos ou covardes, mas, de todo modo, são tão imperiosos que nenhum interesse pessoal, nem mesmo o da autopreservação, se faz valer. Nada nela é premeditado. Embora deseje as coisas apaixonadamente, nunca o faz por muito tempo, é incapaz de uma vontade persistente. Não tolera qualquer demora entre o seu desejo e a realização dele. Tem o sentimento da onipotência; a noção do impossível desaparece para o indivíduo na massa. (FREUD, 2011, p. 25)

Se por um lado, quando os indivíduos se reúnem numa massa, o medo social se dissolve e as proibições individuais desaparecem, permitindo que as pulsões primitivas de destruição que estão no ser humano, de modo latente, acordem para que sejam saciados, como os linchamentos físicos, que são massas efêmeras, mas não só. Atualmente, na era digital, esse modelo de linchamento tem sido transportado para a internet na forma de bullings virtuais, onde as pessoas pensam estarem amparadas no seio do anonimato, e demonstram suas inclinações a atitudes brutais. Substitui-se a violência física, como elemento principal dessas massas, pela violência simbólica, mais sutil, mas não menos cruel.

De outra forma, as massas podem possuir um agir ético superior ao do indivíduo isolado. Porém, não é possível uma moralização do indivíduo pela massa. Segundo Brousse[6] (2003), a dialética do desejo não é individual, é preciso desejar para ser desejado, o desejo é o desejo do olhar do outro, pois é o olhar do outro que vivifica o sujeito. O analista, nesse aspecto, é um homem de desejo, porém que não recua do ponto insuportável para cada um. A ética da psicanálise subverte a lógica da ética filosófica, pois se toda a filosofia buscou a razão para explicar o sujeito e sua relação com o mundo, a psicanálise trabalha com a ética do inconsciente, onde o desejo é regulado a partir da fantasia.

As palavras tomam formas mágicas ante à massa e nem a razão e os argumentos mais convincentes são capazes de se opor a certas palavras e fórmulas proferidas com solenidade diante dela. O discurso do comandante à tropa antes da batalha é capaz de produzir no sujeito a potencialidade de dar a própria vida em nome do que a massa acredita ser o certo.

Característica do líder

Segundo Le Bom (apud FREUD, 2011), o líder precisa estar fascinado pela crença em uma ideia, para despertar a fé na massa.

O líder precisa ter prestígio, que é uma espécie de domínio semelhante ao fascínio na hipnose. Existe o prestígio adquirido ou artificial, advindo do nome, da riqueza e da tradição, porém, esse prestigio não esclarece o fascínio da massa. No entanto, há o prestígio pessoal, que poucas pessoas possuem, e que faz com que os integrantes da massa o obedeçam como num encanto magnético.

Freud (2011) pontua que o prestigio do líder em Le Bon não se harmoniza com a descrição de alma coletiva. A contradição apontada por Freud está na diferença das massas efêmeras que norteiam os apontamentos de Le Bon e das massas duradouras.

Freud traz a abordagem de McDougall[7] sobre como uma multidão transforma-se em uma massa. Para McDougall, a multidão é uma massa simples e sem organização. Quanto maior os interesses e nível de organização, mais claro visualiza-se a massa psicológica e a alma coletiva.

McDougall (apud FREUD 2011, p. 36) explica que os indivíduos se agrupam pelo contágio dos sentimentos. E que colocar-se contra a massa gera um sentimento de perigo. “É claramente perigoso estar em oposição a massa; sente-se mais segurança ao seguir o exemplo que aparece ao redor até mesmo uivando com os lobos eventualmente.”

O que ocorre com as pessoas em função do meio social em que estão inseridas? Os integrantes da massa evitam falar sobre temas contrários a opinião da maioria. A cientista política alemã Elisabeth Noelle-Neuman, em 1977, desenvolveu a teoria da espiral do silêncio que parte do pressuposto que todos temos a intuição da opinião da maioria, é o que Clóvis Barros Filho chama de clima de opinião. É o que ilustra o medo de opor-se a massa.

Freud (2011, p.45) conclui que a essência das almas coletivas é o amor. Portanto, o que mantém as massas unidas é o amor ao líder.

Então experimentamos a hipótese de que as relações de amor (ou, expresso de modo mais neutro, os laços de sentimento) constituem também a essência da alma coletiva. Recordemos que os atores não fazem menção destes laços. O que corresponderia a eles está evidentemente oculto por trás da tela, do biombo da sugestão. Para começar, apoiaremos nossa expectativa em duas reflexões sumárias. Primeiro, que evidentemente a massa se mantém unida graças a algum poder. Mas a que poder deveríamos atribuir a este feito senão a Eros, que mantém unido tudo que há no mundo? Segundo que temos a impressão, se o indivíduo abandona sua peculiaridade na massa e permite que os outros os sugestionem, que ele o faz porque existe nele uma necessidade de estar de acordo e não em oposição a eles, talvez, então, “por amor a eles”.

Uma breve análise acerca de como a formação das massas se ilustra no cenário político/social vigente

Segundo Brousse (2003), o tema política deve ser entendido como uma política lacaniana ou política da psicanálise. Visto que, segundo a autora, o analista precisa se engajar nos espaços da sociedade. É um analista que deixa o consultório e lança-se na cidade, participando da construção do conhecimento em vários locais, como nos fóruns, nas palestras, nas universidades, entre outros. Esse analista engajado, atuante, que produz e compartilha o conhecimento, constrói uma política na qual é possível a existência da psicanálise.

Desse modo, o analista questiona a organização da sociedade, uma vez que em determinadas sociedades existem proibições a psicanálise. Outrossim, ao pensar a política para psicanálise, o analista que tem contato com os mais diversos setores da sociedade, e com assuntos que só se revelam no consultório, será conduzido a análise da política enquanto estrutura social, que norteia o coletivo e a vida pública de modo geral. Senão vejamos:

Portanto, a partir de uma política da psicanálise, o analista pode ser levado a analisar a política, a vida pública de um modo geral. Mas me parece que sua tarefa fundamental é a de elaborar uma política para a psicanálise, a partir dos seus próprios fundamentos. (BROUSSE, 2003, p. 56)

Segundo Jessé de Souza[8] (2017), a classe média, embora bastante heterogênea, é organizada por ideias semelhantes, construídas sobre a base do patrimonialismo e das velhas noções de que somente a política brasileira é corrupta. Razão pela qual é muito difícil construir uma visão crítica e alternativa de nossa sociedade. A esse problema Jessé de Souza traz em seu livro “A elite do atraso – da escravidão a lava jato” (2017) a tese de uma corrupção também no mercado, e não só na política.

Entre 2013 e 2016, as massas foram organizadas e convocadas, por setores conservadores da sociedade, através da grande mídia. A ideia subjacente ao combate a corrupção que unia as massas era que: a corrupção existia apenas na política, olvidando que o mercado era parte integrante das relações de corrupção que foram travadas e amplamente divulgadas pelas mídias.

Era preciso que a ideia da indignação fosse vendida para insuflar ainda mais a falsa noção, defendida por uma parte da classe média, de que a corrupção só existe na política e não no mercado. O resultado desse engodo são os inúmeros pedidos de intervenção militar, como se a solução fosse desistir da democracia e instaurar um regime totalitário. E o que acontecerá com o mercado?

Estabelecido o cenário político social do Brasil, passemos à análise da formação das massas e como estas delinearam o momento atual.

Em 2013, houve inúmeras manifestações organizadas por meio das mídias, mas também das redes sociais. Começávamos a ver a polarização de ideais políticos, conferindo a população a oportunidade de se inserir entre direita e esquerda. Formando dois polos que dividiram a população em várias massas, ilustradas nas mais diversas manifestações que ocorreram.

Ainda em 2013, foram iniciados os movimentos contra a Copa do Mundo e o aumento das passagens. Nesse momento, surgiram palavras de ordem que aos poucos foram ganhando contornos de lema para os integrantes das massas de direita, a exemplo dos movimentos com base no “gigante acordou”, “as manifestações dos 0,20 centavos”, “acorda Brasil”, “Verás que um filho teu não foge a luta”, e o mais famoso e conhecido movimento “Vem pra rua”.      

Os brasileiros que se identificaram com esses movimentos, vestiram as camisas amarelas, e mesclaram-se no anonimato e na força que aqueles movimentos tomaram naquele momento. O brasileiro sentiu-se forte e unido por um ideal, havia uma ideia de libertação do Brasil do julgo da corrupção. Ideia essa que foi diariamente vendida pelos canais de televisão.

Por outro lado, a esquerda também começou a se organizar em manifestações contra o machismo, o racismo e a homofobia. Os direitos das minorias passaram a ser questionados, obrigando as minorias a unirem-se também sobre as bandeiras da esquerda.

Naquele momento, não haviam líderes que demonstrassem capacidade para coordenar essas massas, haviam organizações com interesses distintos que se utilizavam da população para garantir seus interesses. É o que McDougall (apud FREUD, 2011) explica quando nos traz o conceito de multidão e como essa multidão transforma-se em uma massa. Na multidão, há uma massa simples, sem grande organização e sem um líder, o que não significa que não haja ordem, pois não se reúne muitas pessoas sem o mínimo de ordem. À proporção que essa multidão encontra interesses comuns, sob a égide de uma liderança, transforma-se em uma massa.

Pode-se dizer, segundo McDougall, que dificilmente os afetos dos homens se elevam, em outras condições, à altura que atingem numa massa, e é mesmo uma sensação prazerosa, para seus membros, entregar-se tão abertamente às suas paixões e fundir-se na massa, perdendo o sentimento da delimitação individual[9]. (FREUD, 2011, p. 35)

Em 2014, os movimentos contra a Copa do Mundo se intensificaram. Lemas como “não vai ter copa” ou “copa sem povo, tô na rua de novo”, tornaram-se diários nos noticiários televisivos ou impressos, e propagaram-se velozmente por meio das redes sociais.

Novamente, as pessoas se organizaram em manifestações por todo Brasil e especialmente nas capitais onde o Mundial iria ocorrer. As manifestações continuavam sem líderes e com o espirito apartidário. Mas a direita rapidamente capitalizou os movimentos, insuflando o povo contra o governo da presidenta Dilma Rousseff. Iniciava-se, então, uma disputa pelo poder de influenciar e tornar-se o líder dessas massas.

Em 2015, a polarização tornou-se mais evidente. Os movimentos “Pró-Impeachment” e “Não vai ter golpe” acirraram-se. As pessoas se uniram e foram às ruas em defesa e contra o Impeachment. Nos dias 15 de março, 12 de abril, 16 de agosto, 13 de dezembro do ano de 2015 e 13 de março de 2016 marcaram a história do Brasil como datas de manifestações políticas a favor do Impeachment. O contágio dos sentimentos e a euforia causada pelas massas levaram os brasileiros a integrarem acriticamente grupos como MBL e o “Vem pra rua”.

Nessa esteira, aqueles que não concordavam com o Impeachment integraram os movimentos de esquerda que defendiam o governo da presidenta Dilma, compondo as várias manifestações que ficaram conhecidas como “Não vai ter golpe!”. E aqueles que não se inseriram em nenhum desses movimentos, mantiveram-se no supracitado espiral do silêncio.

A essa altura, iniciava-se a busca das lideranças das massas. De um lado, a direita ainda com dificuldades, pois não havia um líder que pudesse unificar as pessoas e que tivesse as características necessárias para desempenhar o papel de líder. Lembremos o que Freud (2011, p. 30) nos ensina sobre o líder:

As necessidades da massa a tornam receptiva ao líder, mas este precisa corresponder a ela com suas características pessoais. Ele próprio tem de estar fascinado por uma forte crença (numa ideia), para despertar a crença na massa. (grifo nosso)

As massas que naquele momento defendiam o Impeachment iniciaram sua jornada contra a corrupção, e a direita não havia um nome que pudesse se destacar pelo critério da honestidade. Por outro lado, a esquerda despontava cada vez mais forte com sua liderança nas figuras do ex-presidente Lula e da presidenta Dilma Rousseff.

O processo de Impeachment se iniciou em 02 de dezembro de 2015 e encerrou-se em 31 de agosto de 2016, com a cassação do mandato de Dilma.

O governo de Michel Temer teve início no dia 12 de maio de 2016 em caráter interino e em 31 de agosto do mesmo ano passou de forma definitiva a exercer a função de Presidente da República. O governo de Temer gerou um desencanto maior ainda com a política no Brasil. Os arrochos salarias, a reforma trabalhista, a tentativa em curso de reforma na previdência, a crise dos combustíveis afetaram ainda mais o declínio afetivo da sociedade com a política.

As massas conservadoras elegeram de modo deficiente Jair Bolsonaro como líder, por falta de opção. As massas de esquerda firmaram ainda mais a liderança de Lula, ilustrado pelos índices de pesquisas eleitorais.

Atualmente, temos um discurso de ódio replicado pela mídia fascista que fornece à massa composta pelos setores conservadores e moralista da sociedade, a falsa segurança de suas ideias e o compartilhamento de suas equivocadas certezas, a fim de manter a unicidade dessa massa. De outro modo, têm-se as mídias alternativas que buscam demonstrar a força da liderança da esquerda, trazendo alternativas aos problemas econômicos, sociais e políticos enfrentados pelo país.

Para concluir, observa-se o pensamento do sociólogo Jessé de Souza sobre a Operação Lava Jato e como esta influenciou a classe média responsável pelo desencadeamento da crise brasileira.

A operação Lava Jato foi desde seu começo uma caça aos petistas e seu líder maior, como forma de garantir e assegurar a mesma distância social em relação aos pobres que não os torne tão ameaçadores como eles haviam se tornado com Lula. (SOUZA, 2017, p. 185)

 Considerações Finais

Segundo Freud, a psicologia individual que investiga os caminhos pelos quais o ser humano busca a satisfação de seus desejos raramente se afasta da relação com o outro, é no olhar do outro que o ser humano sente-se vivificado. Este outro é visto como modelo, objeto, auxiliador ou adversário. Portanto, resta claro que a psicologia individual desde os primórdios é também uma psicologia social.

Os participantes de uma massa sentem prazer ao integrarem a massa, pois, sem os limites impostos pela individualidade, sentem-se mais fortes e invencíveis. Dessa forma, o desfazimento da massa gera medo e angústia, uma vez que a massa dá um amparo às pessoas.

O papel do líder é de extrema responsabilidade na unicidade das pessoas na massa. Quando um líder cai, fragmenta o coletivo e a pessoa torna-se novamente individual. Ademais, Freud ensina que uma massa torna-se unida por amor ao líder.

Uma das características percebidas na leitura do tema, é que a massa é fundamentalista, o que impõe que os componentes sejam acríticos. É exatamente o que se pode ver hoje no país sobre os defensores de Jair Bolsonaro. Tais defensores são, em sua maioria, membros acríticos, intolerantes, fundamentalistas, conservadores, machistas, homofóbicos e insuscetíveis a aceitação da diferença.

 

 


REFERÊNCIAS
FREUD, S. (2011). Psicologia das massas e análise do eu. In Psicologia de massas e análise do eu e outros textos (Coleção Obras completas, P. C. Souza, trad., Vol. 15, pp. 13-113). São Paulo, SP: Companhia das Letras. (Trabalho original publicado em 1921)
FORBES, Jorge. Inconsciente e responsabilidade – psicanálise do século XXI, Barueri: Manole, 2012.
BROUSSE, Marie Hélène Brousse. O inconsciente é a política. São Paulo: EPB, 2003.
SOUZA, Jessé. A elite do atraso – da escravidão à lava jato. Rio de Janeiro: Leya, 2017.

[1] Advogado. Aluno do curso de psicanálise da EBP-MA.
[2] Estudante de direito. Aluna do curso de psicanálise da EBP-MA.
[3] O termo “instinto” aqui é traduzido de acordo com a tradução da CIA das Letras, do tradutor Paulo César de Souza.
[4] Gustave Le Bon (1841/1931), psicólogo social e sociólogo francês, estudioso do comportamento de manada e da teoria das massas.
[5] Jorge Forbes é um médico psiquiatra e psicanalista brasileiro, primeiro diretor-geral da Escola Brasileira de Psicanálise.
[6] Marie Hélène Brousse, francesa, psicanalista, membro da escola da causa freudiana, graduada em filosofia com doutorado em psicanálise e DESS em psicologia clínica e patológico.
[7] William McDougall (1871/1938), desenvolvedor da teoria dos instintos, da mente de grupo e da psicologia social.
[8] Jessé José Freire de Souza, professor universitário e pesquisador brasileiro, formado em direito, mestre, doutor e pós doutor em sociologia.