006Uma perspectiva para considerar o ser humano poderia ser a história imperativa do seu corpo como acontecimento no laço social. Essa história deve ser contada. Se a palavra, que por sinal vem sempre tardiamente, não funciona, o corpo vai narrar inevitavelmente esses acontecimentos de qualquer maneira.

O conceito “corpo natural” não existe. O “soma” – o corpo biológico – sempre foi manipulado desde o início da história humana e conhece, no nosso tempo hipermoderno, modificações extremas. O corpo se fabrica pelo nosso psiquismo e pelo psiquismo dos nossos seres mais próximos. Ele se configura no quadro da sociedade. Escrever algo no corpo, na pele mais particularmente, não é uma invenção da contemporaneidade. Civilizações muito antigas como na África, no Egito, na Polinésia, na China, no Japão e em Roma marcavam com tatuagens, piercings e escarificações o corpo dos seus participantes. Inscreviam signos e sinais numa multidão de imagens que revestiam significados diversos.

A palavra tatuagem provém das ilhas da Polinésia e significa escrita. Foi levada para a Europa, pelo explorador, capitão James Cook, junto com os corpos de marinheiros marcados, no final do século XVIII. Esse hábito foi adotado pelos homens da classe operária e pelos prisioneiros no Reino Unido. No final do século XIX, pessoas cobertas de tatuagens eram expostas nos circos. Na década de 1950 o hábito ganhou a preferência dos motociclistas, das gangues e dos delinquentes. Na década de 1970 era a expressão principal do punk-rock. Popularizou-se na década de 1980. A tatuagem subiu nas passarelas da moda e entrou na indústria da imagem. Imediatamente foi copiada pelos jovens da classe média.

A prática da tatuagem consiste em inserir tinta com uma agulha na pele, desenhando assim uma imagem concreta ou geométrica, uma palavra, um texto desejado pelo portador. Pode-se supor que essa intervenção serve para regular a integridade narcísica. Esse fato não revela uma patologia específica. Entretanto, quando o usuário da pele desafia a autoconservação e o princípio do prazer, deve-se refletir. A extensão mesma da tatuagem não é significativa por si só. Quando há violência, agressão, dor, devemos nos questionar qual é a função desse procedimento e quais são os benefícios de uma tal ação. Quando uma repetição e uma angústia se desvelam, devemos procurar a fantasia que está por detrás dessa escrita que é uma intervenção na pele, essa superfície permeável.

Durante seu desenvolvimento, o corpo é vivido como uma inquietude interior e se torna o lugar onde a tensão psíquica se exterioriza e se elabora. Durante a vida toda o psiquismo é chamado a vigiar a integridade e a identidade do corpo. Corpo e psiquismo: um circuito que apaixonou gerações de psicanalistas! A tatuagem se vale do órgão penetrável que contém o corpo: a pele. Essa imagem marcada existe através do olhar e nos obriga a conjugar os verbos ver e olhar em todas as vozes possíveis. Além da pele e do olhar existe um terceiro elemento que é o “body artist”, o artista que cria uma obra de arte com sua agulha sob a demanda do sujeito.

A psicanálise nunca parou de sublinhar a importância do primeiro contato com o olhar e com a pele da mãe. Olhar e pele são o eixo de nossas experiências corporais mais primárias. Segundo a psicanalista britânica Alessandra Lemma (2010) “se a experiência do olhar e da pele der certo, essa experiência será o veículo do dom de amor. Se ela for insuficiente ou impregnada de ódio, possessividade ou inveja, o Eu Corporal portará o signo da negligência, da vergonha, será vivido como um lugar invadido”.

Para Freud (1923, p.40), “o Eu é, primeiro e acima de tudo, um Eu Corporal; não é simplesmente uma entidade de superfície, mas é, ele próprio, a projeção de uma superfície”. Pulsões parciais dirigidas para o próprio corpo (auto-eróticas) se transformam em narcísicas e se dirigem para o Eu. Freud afirma que é uma influência externa que provoca essa modificação. O psicanalista francês Didier Anzieu (1985), desenvolvendo a ideia de Freud sobre o Eu Corporal, defende a tese da metáfora seguinte: o Eu é organizado como um Eu-Pele. O Eu-Pele é “uma imagem psíquica, uma representação de que se serve o Eu da criança, durante as fases precoces do seu desenvolvimento, para se representar a si mesmo como o Eu que inclui um conteúdo psíquico a partir da sua experiência da superfície do corpo”. O bebê percebe sua superfície corporal através do contato que ele tem com a pele da mãe ou da pessoa que cumpre a função materna. Um momento privilegiado que se manifesta por meio das carícias, dos abraços, durante o ato de vestir e dar banho na criança. É certo que os pais na nossa época -quando são presentes- cumprem essa função. Eles podem ajudar os bebês no procedimento de separação da pele em comum que, a mãe e a criança imaginam que possuem. O Eu-Pele provém dessa “Pele Comum”. A separação bem-sucedida é o que vai permitir ao pequeno humano a interiorização do conteúdo psíquico e a identificação com uma parte da mãe, instituindo, assim, a primeira relação de objeto. Se o Eu-Pele funciona de maneira suficientemente boa, cria um invólucro (uma cápsula) narcísico que oferece ao bebê uma sensação de segurança. É nesse momento em que começa a individuação corporal-psíquica que faz brotar a angústia de separação. Há casos também em que esse invólucro narcísico é um invólucro de sofrimento. Por exemplo, um invólucro deste tipo poderia conter a inscrição de uma possessividade, de uma vergonha, de um ódio. É possível que o invólucro seja portador das projeções do objeto e, nesse caso, o bebê mais tarde terá contas a acertar.

A segunda vertente dos cuidados primários, formadores do Eu na infância, é o olhar da mãe. Segundo D. Winnicott (1971) “no desenvolvimento emocional individual, o precursor do espelho é o rosto da mãe” onde o bebê vê a si mesmo. Jacques Lacan (1938) sempre sublinhou a importância do Outro que acompanha o bebê, normalmente a mãe, na frente do espelho. É a mãe o primeiro espelho, e é para ela que o bebê se vira, na frente do espelho, buscando seu olhar. Mais tarde, Lacan (1966) vai esclarecer que no espelho a criança vê aparecer, não seu Ideal do Eu, mas seu Eu-Ideal, esse ponto em que ela deseja comprazer-se em si-mesma. Esse é o ideal narcísico, a imagem onipotente pela qual o bebê quer ser amado e reconhecido (uma observação útil para refletir nos casos de pessoas em análise que desejam uma cirurgia cosmética). Lacan também falou que o olhar do Outro, através do qual o espectador se torna espetáculo para esse Outro, desnuda, priva o espectador da sua ilusão de onipotência. Ninguém pode esquecer que a fim de nos vermos, devemos ser vistos.

Parece que esse, junto com os conflitos contínuos decorrentes da castração simbólica, é o material psíquico que todo sujeito tem que se representar ao longo da vida para manter abertas as vias do desejo e continuar mantendo os laços com o Outro. A manipulação desse material vai incitar o sujeito a elaborar respostas ego-sintônicas, formar sintomas, sublimar, usar substâncias. Uma tentativa de elaboração desse material seria representá-lo através do uso da pele e do olhar. Com a tatuagem, que repete a cada dia: quero ver, quero reconhecer meus pares – quero me ver, quero me reconhecer – quero ser visto, quero ser reconhecido. Porque, como Letítia Acevedo (2016, p.301) afirma: “o sujeito escreve, a modo de inscrição simbólica no real do seu corpo, tatuagens e piercings, se apresentando em alguns casos como artifícios, para se fazer um corpo ou como modo de enlace com o Outro”. Mas não podemos concordar com algumas ilusões. Essas inscrições, que lembram o uso de uma “lalíngua” pictórica cutânea para superar um sofrimento, têm pouco em comum com uma tentativa de autocura pela simples razão que elas não incluem nem a representação pela língua, nem uma elaboração fantasmática.

Além de conversas que mantive com pessoas tatuadas, no interessante livro de Alessandra Lemma (2010) achamos entrevistas com usuários de tatuagem e com alguns ‘body artists’. O que se percebe é que os usuários não falam facilmente de uma coisa que é considerada muito íntima, nem querem fornecer informações sobre o conteúdo da tatuagem. Entretanto, eles declaram que usando essas ornamentações, eles sentem que seus corpos são “mais verdadeiros”, “os apresentam melhor”, “os definem melhor”, eles se sentem “donos dos seus corpos porque eles que os fabricaram junto com o artista”. Os artistas, no geral, parecem muito orgulhosos do seu trabalho porque eles “criam uma coisa nova e viva. Pode-se formular a hipótese de que o artista seria mais um representante do Nome-do-Pai, tão multiplicado na nossa sociedade hipermoderna, encarregado de separar os corpos das pessoas tatuadas da mãe imaginária. Mas especificamente esse Nome-do-Pai tem uma característica bem particular: ele é contratado pela demanda do desejo do sujeito. Alguns autores pretendem que há um elemento de autocura no procedimento da tatuagem. Na minha visão há um elemento de controle no exercício da função deste Nome-do-Pai bastante relevante. Forçoso concluir que o objetivo psíquico da tatuagem (desta imagem muda e estática) é apenas fazer sentir um mal-estar sem que a pessoa abandone sua posição de completude narcísica para negociar com a angústia de separação.

A antropóloga M. DeMello (2000) demonstrou que uma parte da classe operária da Inglaterra, parte essa que duvida do saber e do poder dos profissionais da área médica e da área da psique, elogia as tatuagens como uma auto-cura e uma realização própria. Mas a pergunta que surge é: qual o grau de liberdade dessa descarga pulsional e onde fica a negociação benéfica para o psiquismo? Há indícios que os jovens usem a tatuagem, também, para se afastar da geração anterior que os decepcionou. Três autores diferentes, K. Davis (1995), M. Mifflin (1997) e V.Pitts (2003) provaram que às vezes as tatuagens são os estigmas corporificados em sujeitos cujos históricos revelam violência corporal ou sexual. E a pergunta apropriada seria o que gera na sociedade tanta violência corporal ou sexual e como podemos preveni-la?

É lógico concluir com Lemma, sem vontade nenhuma de formular um discurso universal ou particular, que por detrás das tatuagens exageradas se revelam fantasias de auto-criação, de reivindicação do próprio corpo após uma união sufocante, de denegação da perda ou da separação, de controle do olhar do outro para que este não veja algo vergonhoso. Algumas vezes se desvelam até fantasias com conteúdo de despedaçamento no sentido que atraindo o olhar do outro aí o sujeito se vê e isso vai lhe dar uma sensação de coesão interna. Essas fantasias são decorrentes em casos de modificação extrema junto com piercings. Outras vezes, os corpos brutalizados por modificações extremas apontam para uma queixa grave dirigida ao objeto no sentido de que, infligindo-se dor, o sujeito pune o objeto, mostrando o lugar triste onde um crime foi cometido. Essa lista de fantasias não é exaustiva, mas é apresentada apenas a título indicativo. Somente a subjetividade de cada um vai mostrar os conflitos e as funções psíquicas inconscientes implicadas. Mas, é melhor que o profissional clínico seja informado.

“O que tem de mais profundo no ser humano é a pele”, escreveu o poeta francês Paul Valéry, em 1933. Hoje em dia é conhecimento científico comum que durante a evolução do embrião humano uma parte do ectoderma (a camada exterior da pele) se separa do resto para formar o cérebro e a espinha dorsal, uma parte do mesoderma (a camada intermediária) forma os músculos e os ossos e uma parte do endoderma (a camada interior) fornece as paredes do aparelho digestivo e respiratório. Será que a ciência, por sinão indubitavelmente útil, vem sempre no final para confirmar as visões poéticas, as especulações filosóficas e os achados psicanalíticos? Será que às vezes basta saber escutar?

O discurso capitalista, discurso predominante nas nossas sociedades de hoje, valoriza e inclui socialmente as narrativas pictóricas inscritas nos corpos, do mesmo jeito que ele inclui as imagens criadas na superfície de paredes de prédios desvalorizados. Mas não devemos nos enganar: não é para ouvi-los, nem apaziguá-los. É para atribuir significações além da vontade dos criadores-portadores, é para criar circuitos (talvez benéficos) de interesse econômico ou manter grupos sociais segregados. Só a psicanálise fica “lá-fora”, força tranquila e introspectiva, esperando receber a pele que conta. Porque a pele é importante, a pele narra, a pele pode e deve distinguir o um do dois.

 

 Petros Stasinos[1]


 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

LEMMA, Alessandra. Under the Skin: a psychoanalytic study of body modification. London: Taylor & Francis, 2010.

FREUD, Sigmund. O ego e o id. v.19, Rio de Janeiro: Imago, 1976.

ANZIEU, Didier. Le moi-peau. Paris: Dunod, 1985.

WINNICOTT, Donald. O papel de espelho da mãe e da família no desenvolvimento infantil. In: O brincar e a realidade. Rio de Janeiro : Imago, 1975

LACAN, Jacques. Le stade du miroir comme formateur de la fonction du Je. Paris: Seuil, 1966.

LACAN, Jacques. O Seminario: Livro XI. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

ACEVEDO, Letítia. Tatuagens e piercings. In: AMP Scilicet O Corpo Falante. Rio de Janeiro, 2016.

DEMELLO, Margo. Bodies of Inscription: a cultural history of the modern tattoo community. Durham: Duke University Press, 2000.

 

 

[1] Petros Stasinos, psicólogo pela Université Paris V e mestre pela École des Hautes Études en Sciences   Sociales. Agradecimentos a José Lucíolo Santos pela ajuda com a Língua Portuguesa.