Reprodução de quadro: Salvador Dali, A desintegração da persistência da Memória (1952-1954).

Suely Simone Costa Lima[1]¨

“Psicanalistas, nós mesmos e por muito tempo confinados em nossa experiência, vimos que ela se esclarecia ao fazer dos termos em que Freud a definiu o uso que lhes convém, não como preceitos, mas como conceitos”.

Jacques Lacan[2]

Este artigo, outrora um texto cujo título foi – O que é um cartel e que agora reescrevo a partir de outra posição, é herança de momentos de significativa aposta na causa analítica. De minha insistência cega como Tirésias, agora em pares, tornou-se vulnerável o desejo na formação analítica. E, trilhando esse caminho, escrevo novamente sobre o dispositivo cartel articulando-o a conceitos da Linguística de Ferdinand de Saussure (1857-1913), a interseção Escola e a originalidade da fundação da Psicolinguística, o que me parece um bom começo.

No passado, empenhei-me em escrever no plano teórico alguma elaboração sobre o dispositivo cartel. A princípio, abordei o tema numa tentativa de definição, razão que conduziu ao título – O que é um cartel? Embora inicialmente o tenha produzido nessa perspectiva, encerrei a questão dizendo da impossibilidade da definição. Concluí como elaboração que a única possibilidade neste questionamento seria cada membro vivenciar a experiência do cartel tal como a experiência de uma análise, para num só depois, poder dizer – o que é um cartel. Agora, no presente, reescrevo movida pelo desejo de escrever, que não é pouco nem tão sem valor, a quem se interessar – sobre o cartel.

A perspectiva nesta escrita continua no plano teórico destacando algumas noções sobre a estrutura que inclui o cartel evidentemente com alguma elaboração oriunda de transferência de trabalho. Neste sentido, seguiremos percorrendo os escritos daqueles que nos conduziram ao inconsciente estruturado como uma linguagem. Como pioneiro, Freud (1900), em seu escrito sobre a condensação e o deslocamento[3]; em Saussure[4] (2006), com articulações a partir das bases da Linguística Moderna e em Lacan[5]  (1957), com a inversão do signo saussuriano. Tomando como referência esse percurso teórico, conduziu-se o artigo ao tema A linguagem do cartel. Tema nomeado a partir da referência de Lacan sobre o significante, o qual esclarece que são dois, entretanto pontua seguidamente, na verdade três, porque no intervalo entre dois significantes, como efeito de significação, presentifica-se aquilo que ele nomeou como sujeito, que vamos articular neste artigo elaborando-o como o Mais-um na circularidade do discurso. Portanto, a escrita sobre o cartel, neste trabalho, não será elaborada apenas como uma prática na formação de analista no interior de uma Escola, mas antes de tudo como sentido da proposição teórica de Lacan sobre o inconsciente.

Em 1964, Lacan[6] inaugura na História da Psicanálise uma nova forma de instituição analítica que denomina Escola, a exemplo das Escolas da antiga Grécia (Platão e Aristóteles), abolindo a função do didata, admitindo não analistas e propondo, como forma de estudo da Psicanálise, a constituição de pequenos grupos (chamados cartéis) sem professor – em seu lugar um provocador. Desde a fundação da Escola Freudiana de Paris, o dispositivo cartel ocupa um lugar estrutural na constituição de uma escola lacaniana. Esse dispositivo comparece como ponto de articulação entre um trabalho no interior de uma escola e a Psicanálise. Entretanto, Lacan (1964) nos ensina que o fato de se fundar uma escola que traz como “alicerce” o cartel, necessariamente não se quer dizer que de fato se fundou um cartel no sentido realizado, mas de fato só se poderá dizer que há um cartel, na insistência, ou seja, num só depois, a partir do testemunho de seus membros, na Jornada de Cartéis. Portanto, para a existência de um cartel no interior de uma escola se faz necessário uma temporalidade e um testemunho.

Cronologicamente, desde 1964, o cartel se sustenta na tradição de uma instituição psicanalítica lacaniana – como dispositivo de formação cuja produção se revela no trabalho de seus membros, o qual se diferencia de um trabalho de grupo por ser a produção do cartel sustentada pelo desejo “des-ser” analista. Desejo que autoriza o membro a se inscrever no cartel, implicando-se, permanecendo, elaborando e produzindo. Sendo oposição à condição de tarefa e obrigação. O que se elege como passe nesse lugar é a transferência de trabalho para um trabalho de transferência.

Cada membro, componente do cartel, deixa-se interrogar pelas questões do texto que funciona como fonte de interpretação, essa, por sua vez, faz revelar que a produção vem de outro lugar – do Grande Outro. É aquilo que Lacan insiste em falar: que o trabalho do cartel revela através de sua produção a clivagem do sujeito. Por isso tem seu produto próprio a cada um, e não coletivo. O que Lacan (1964) aponta é que nem uma escola pode-se sustentar como escola lacaniana sem produção de cartel, porque a produção é a insistência no interior da escola com a Psicanálise. Diferentemente de um trabalho de grupo que marca a presença de ensino, como em uma escola formal, quase sempre por um coordenador que imaginariamente faz demanda de saber, demanda que barra o sujeito, atrelando o desejo ao pequeno outro. Nesse, o discurso circula na linguagem sincrônica apartando a verdade e barrando o acesso ao sujeito.

Por outro lado, o Mais-um é inevitável no cartel que trabalha. Assim, Lacan anuncia na sua estrutura: 3/5 = 4 + 1. “[…] encarregado da seleção, da discussão e do destino reservado ao trabalho de cada um”. (LACAN,1964, p.235). E em “[…] encarregado de velar pelos efeitos internos do empreendimento e de provocar sua elaboração” (LACAN,1980, p.15). Na funcionalidade do cartel, o Mais-um situa-se às margens da circularidade do discurso dos membros e comparece sempre como consequência de um dizer, um dizer particular que revela a estrutura furada na linguagem, furo que se presentifica no eixo diacrônico. E que por se posicionar nesse eixo é possível fazer girar, incitar, mover o cartel – por isso o Mais-um é o que trabalha, no sentido inconsciente de produção de Saber.

Entretanto, existe uma pergunta muito comum: quem é o Mais-um no cartel? É a presença marcada pela interseção no discurso sincrônico-diacrônico, são todos e não é ninguém. Ninguém que se possa denominar como tal e todos enquanto linguagem a que todos se remetem para que o Mais-um possa presentificar-se. Na verdade, no interior do cartel, qualquer um pode ser o Mais-um já que não há um momento de se colocar como tal, pois é impossível se prever a precipitação do Mais-um na temporalidade da linguagem, dado ser o tempo lógico. Todos podem ter a pretensão, mas a precipitação será apenas do Mais-um que se dá infinitamente, sendo finito em um cartel apenas o número de seus membros. A ênfase na presentificação do Mais-um, infinitamente, está no dizer que causa efeito na elaboração e na relação que cada membro do cartel pode ter no seu trabalho.

Interessante é pensar a proximidade das questões que nos convocam a funcionalidade do Mais-um no interior do cartel, e as questões que nos convocam a construção da linguagem a partir da Psicolinguística. O Mais-um em sua originalidade se inscreve a partir e numa ata de fundação[7] tal como a Psicolinguística que se funda numa mesa de Seminário[8]. Ambos nos remetem a um ‘buraco’ imerso na linguagem, enquanto o Mais-um como dispositivo de formação nos interroga sobre o desejo “des-ser” analista no interior de uma escola lacaniana, a Psicolinguística nos interroga sobre os ‘mistérios’ de aquisição da linguagem. Para De Lemos (1991, p. 10) “A produção/uso da linguagem passa, agora, a ser o lugar para onde se desloca o mistério. Os dois nos remetem a interrogações e a produções, porém a certeza que nos cerca é apenas uma – a de que em ambos estamos presos na rede de significações e dessa é impossível escapar, porque não há exterioridade à linguagem.

Sabe-se que em alguns cartéis, em seu manejo de funcionamento, costuma-se nomear um de seus membros como o mais-um, aquele que chama atenção, o que liga o que cobra. Talvez, como uma tentativa de identificação simbólica à escola. Dias (1994) refere essas identificações como narcísicas, entretanto mesmo nesse contexto a produção se faz comparecer, pois a função do Mais-um escapa a determinações e ao imaginário – eis o enigma fascinante do aprisionamento a que estamos submetidos à linguagem.

Lacan (1964, p.235) anuncia para o cartel: “três no mínimo, cinco no máximo, quatro é a medida certa – mais-um”. Três no mínimo comporta a não existência de um grupo a dois, pois, segundo Dias (1994, p.31) “[…] porque desde que se trate de um conjunto social, ligado pela linguagem, uma discordância profunda se impõe lá onde a linguagem fracassa denotando a presença de um buraco”. Por causa desse buraco e do que ele determina, Lacan (1964, p.235) anuncia: “[…] três no mínimo”. Entretanto, reforça “[…] quatro é a medida certa”. “[…] quatro se escolhem para levar a cabo um trabalho que deve ter seu produto” (LACAN, 1980, p.21). Outra questão interessante é que o número 4, tão bem reforçado por Lacan (1964) como a medida certa, articula-se com a doutrina do significante, termos com os quais Lacan nos apresenta a estrutura mínima do ser falante, ou seja: o significante primeiro (S1), o sujeito (S), o objeto causa do desejo (a) e o significante segundo (S2). Então, a estrutura mínima que abarca o ser de desejo é quaternária sendo quatro a condição necessária para a sustentação do inconsciente. Sendo também quatro a medida certa para o cartel.

O número quatro é também o que compõe, para Lacan, o conjunto de elementos que sustenta os quatro discursos: Mestre, Histérica, Analista e Universitário. É possível pensar que, se circularmos sempre através desses diferentes discursos haveríamos de apreender a experiência de cartel como uma experiência de discurso?  Essa seria uma articulação interessante na interseção cartel-teoria que não é possível de ser desenvolvido nesse artigo, entretanto deixa-se a questão?

Em relação à lógica do significante, quatro é o conjunto de números necessários na contagem de zero até três. Se de zero a três se contam quatro é mesmo porque o zero conta como número. Número que vem de uma ausência – zero que traz a marca do real, do buraco – lugar de onde emerge o infans[9], lugar também possível de emergir o Mais-um, e como já colocado anteriormente – lugar que nos interroga. De onde parte um sujeito ausente de fala (infans) e também um que só comparece pela fala (Mais-um). Aqui, pontua-se uma interseção possível de se pensar na articulação entre o Mais-um (cartel) e os processos de construção de linguagem (infans) – uma outra questão que deixo neste artigo.

O tempo sincrônico se faz importante no cartel, por isso Lacan (1980. p. 15) anuncia: “para prevenir o efeito de cola (de colle) deve-se realizar uma permutação no prazo estabelecido de um ano, no máximo dois”. Após este período, realiza-se uma suspensão dos membros para evitar que haja efeito de cola. Esse tempo vai sendo introduzido por Lacan a partir dos efeitos que vão se revelando na repetição do cartel, e que solicita pelos efeitos uma precisão de temporalidade. Portanto, é preciso que, em tempo determinado, os cartéis em funcionamento possam reunir-se em pares para a comunicação e o debate – Inter-cartel.

A Jornada de Cartéis revela o efeito de cada cartel através da produção de cada um, vem testemunhar um cartel que produziu, vem revelar o saber particular da Psicanálise, vem fazer ponte entre o interno e o externo à causa psicanalítica. Essa produção, como testemunho, é sempre possível quando o membro se deixa envolver enigmaticamente pelos efeitos do cartel, convocando um reconhecimento à causa, comprometendo-se com a ética do desejo, do um a um, para que num depois possa dar testemunho de uma experiência – a do dispositivo cartel.


 

 

REFERÊNCIAS
ARRIVÉ, Michel. Linguagem e Psicanálise, Lingüística e inconsciente. Rio de Janeiro: Jorge Zahar,1999.
DIAS, Mauro Mendes. Passar o cartel: fatalidade trágica não tem a última palavra. In: Caderno da Escola de Psicanálise de Campinas. Campinas, p. 43-45, dez.1994
______________. Pontos para um debate sobre a função dos cartéis na escola. In: Caderno da Escola de psicanálise de Campinas. Campinas, p. 31-55, dez, 1994.
DE LEMOS, Cláudia T. G. Saber a língua e o saber da língua. Aula inaugural do IEL. 13 de março de 1991. Campinas, SP.
FREUD, Sigmund. A interpretação dos sonhos (1900). In: Obras psicológicas completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
LACAN, Jacques. Ata de Fundação de 21 de junho de 1964.
______________. Proposição de 9 de outubro de 1967.
______________. D’ Écolage. Revista Ornicar. n. 20/21. 11 mar.1980, p.14-16.
______________. Situação da Psicanálise e formação do psicanalista em 1956. In: Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1966. p. 459-497.
______________A instância da letra no inconsciente ou a razão desde  Freud (1957). In: Escritos. Rio de Janeiro: Zahar,1966.
LEITE, Nina Virginia de Araújo.   Psicolingüística e Psicanálise. In: Cadernos de Estudos Lingüísticos. Campinas. 1986. p. 75-79.
ROCHA, Alessandra Thomaz. Manual de Cartéis. Belo Horizonte: Scriptum, 2010.
SAUSSURE, Ferdinand. Curso de Lingüística geral. Trad. de A. Chelini; J. P. Paes e I. Blikstein. 27ª ed.  São Paulo: Cultrix, 2006.
SOLER, Colette et. al. (1976) A função dos cartéis. Trad. Comissão de Publicações da Escola de Estudos Psicanalíticos, set. 2017. Disponível em: http://freudlacan.com.br/wp-content/uploads/2017/10/A-funcao-careteis.pdf. Acesso em: 22 ago.2018.
SCLIAR-CABRAL, Leonor. Introdução a Psicolingüística. São Paulo: Ática. 1991.

[1] Psicóloga. Psicolinguística. Participante da Delegação Maranhão – Escola Brasileira de Psicanálise. Mestre em Educação (UFMA). Professora no Departamento de Psicologia da Universidade CEUMA.
[2] LACAN, Jacques. Situação da Psicanálise e formação do psicanalista em 1956. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992. p. 459.
[3] Para extensão. Freud abordou o problema da linguagem de forma inaugural em sua obra. A transformação do conteúdo manifesto do sonho em conteúdo latente operada pela censura no trabalho do sonho se dá essencialmente por dois mecanismos: a condensação (Verdichtung) e o deslocamento (Verschiebung). Posteriormente, Lacan a partir de sua teoria de significante, demonstra que o trabalho do sonho segue as leis do significante. A condensação é entendida como um processo metafórico e o deslocamento como um processo metonímico.
[4] Para Saussure, os domínios do significante e do significado se integram na unidade do signo lingüístico, como duas faces de uma moeda. Lacan parte da separação radical entre esses dois domínios e estabelece a primazia do significante sobre o significado. O sentido não provém da relação entre as duas faces do signo, mas surge da articulação entre significantes.
[5] Para extensão. A modificação que Lacan propõe no pensamento saussuriano se prende à necessidade por ele reconhecida de introduzir a noção de sujeito como indispensável à manipulação de uma ciência.
[6]  Fundação da Escola Freudiana de Paris (EFP), da qual participaram Françoise Dolto, Maud e Octave Mannoni, Moustapha Safouan, Serge Leclaire, etc., cujo objetivo era menos o de oposição a IPA e mais com o rigor dos fundamentos conceituais.
[7] Fundação da Escola Freudiana de Paris. 21 de junho de 1964.
[8] Fundada em uma mesa de Seminário na Universidade de Indiana, em 1953.
[9] Tomando a linguagem como a materialidade mesma do específico do homem, a Psicanálise parte da noção de uma configuração incompleta do “infans” humano à qual o simbólico vem em suplência.