Foto divulgação do filme Augustine (2012), de Alice Vinocour.

Victor Ribeiro[2]

“As forças impulsoras da formação dos sintomas histéricos não provêm apenas da sexualidade normal recalcada”.

Sigmund Freud (1905)

 

Na época de Freud (1856-1939), a sexualidade era um tabu, tema muito reprimido, considerado uma transgressão social, uma perversão da sociedade. A mulher era a que mais sofria a repressão sexual, tanto no campo da fala, na maneira de se expressar, quanto no que se refere ao desejo. Freud foi um dos predecessores, pois rompeu com esse paradigma, escutando à sua maneira os histéricos – não como uma patologia, mas como algo a ser des-velado. Neste artigo, propõe-se evidenciar a partir do caso Dora como Freud enfatizou a etiologia sexual como um fator preponderante no surgimento do sintoma histérico.

Freud realiza o tratamento com a paciente Dora em 1899[3], mas só o publica como caso mais tarde, em 1905. À época ela tinha 18 anos e apresentava sintomas somáticos e psíquicos como estado depressivo, tosse nervosa, dispneia, asma nervosa, entre outros. Dora, aos 8 anos de idade sofrera de uma dispneia crônica que só se manifestava repentinamente, esse sintoma se exteriorizou durante uma excursão pelas montanhas. Aos 12, tivera enxaqueca, tosse nervosa e pigarreamento.

Para Freud (1905) esse quadro sintomático de Dora era de cunho traumático ligado a uma etiologia sexual e edípica, que não foram suficientemente ab-reagidos.  Nota-se que o conceito de trauma faz alusão a uma correlação de dois elementos que estão intimamente relacionados, ambiente/inconsciente, refere-se a este primeiro apenas como um permissivo de situações aversivas, que para o neurótico será recalcado. Freud (1893-1895), nos Estudos sobre a Histeria, anuncia que as histéricas sofrem de reminiscências. E, devido a repressão dessas lembranças traumáticas, tem-se como consequência um sofrimento psíquico não reativo, causando dissociações e/ou conversões com representações no corpo. A partir dessa inferência, tenta-se pontuar no caso Dora a operacionalização do mecanismo de funcionamento psíquico.

Durante o tratamento com Freud, Dora conta uma situação aversiva que lhe aconteceu com o Sr. K, ele a beija em sua loja comercial – cena essa que talvez fosse uma situação que despertasse um desejo sexual em uma virgem de 14 anos. Diz ela que imediatamente sentiu uma repugnância e se retirou do local, porém manteve em segredo esse ocorrido e os dois nunca tocaram no assunto. Segredo esse que se revela em silêncio sintomático, segundo Freud (1899), no conceito de Inversão de afeto. Uma das possíveis interpretações é que houve um deslocamento da pulsão sexual da sensação genital que uma jovem poderia ter sentido nessa ocasião, para a parte superior do seu tórax. Dora foi tomada por uma sensação de desprazer e repugnância. Mas qual foi o real motivo desse asco sentido por Dora e o que há por trás desse silêncio demonstrado por ela?

Em seu relato clinico, Freud (1905) conjecturou que além do beijo, durante o forte abraço do senhor K, Dora sentiu a pressão do membro ereto contra sua vulva, mas refere a pressão do braço na parte superior do corpo como um processo de deslocamento, cena de natureza traumática por estar ligado ao despertar de sua sexualidade na idade madura, assim como a posição de objeto de desejo sexual para o outro. O simples fato de ter gerado uma quantidade de excitação sexual provocou desgosto em Dora pela dificuldade que teve em assumir e sustentar esse desejo.

Freud acredita que houve uma produção de reações contraditórias que investiram num mesmo processo decorrente de uma natureza traumática vivenciada por Dora, impedindo assim a ação prazerosa, excitatória, bloqueando a idealização dos órgãos sexuais no âmbito do desejo. Trata-se de uma consequência de um recalque orgânico[4] que fora fragmentado na infância, ou seja, não havendo essa distinção dos órgãos, função excretora sexual, possível explicação que provocou a repugnância em Dora ao sentir essa pressão na parte inferior, lembrança essa que foi recalcada e essa sensação foi deslocada para a parte superior do tórax, pressão no peito.

Foi nessa época que Dora sofrera de dispneia crônica com acessos ocasionais mais agudos, sintoma que se manifestou após uma pequena excursão pelas montanhas. Freud (1905, p.79), no entanto, decidiu fazer suas análises a respeito dessa dispneia.

No caso de Dora, eu começara a suspeitar da masturbação quando ela me falou sobre as dores estomacais da prima [p. 45] e em seguida se identificou com ela, queixando-se por dias a fio de sensações dolorosas similares. Dora me confirmou ter consciência de duas coisas: de que ela mesma sofrera muitas vezes de espasmos gástricos e de que tinha boas razões para considerar sua prima uma masturbadora.

Durante umas das sessões, Dora apresentou um sintoma novo, que consistia em dores de estômago dilacerantes, foi quando Freud conjecturou ao perguntar, “A quem você está copiando nisso?”. Sintomas esses semelhantes referentes num período em que Dora estava na moradia de sua prima. A histérica possui dificuldades em firmar sua feminilidade, e em decorrência disso identifica-se com outras imagens para justificar sua identidade feminina de se comportar perante o outro e a si mesma. Essa dissociação de imagem causa um sofrimento psíquico na histérica, fator esse explicado na etiologia infantil da histérica.

Dora urinava na cama até pouco antes de adoecer pela primeira vez com dispneia, nesta ocasião o seu pai saíra em viagem pela primeira vez desde que melhorara de saúde. Quando Dora tinha 6 anos, seu pai estava com tuberculose, então, desde esse período, lembranças negativas devem ter sido recalcadas. Freud supôs que a menina, que dormia próximo ao quarto dos pais, ouvira a respiração  ofegante do pai decorrente do ato do coito. Sob a influência da excitação concomitante experimentada nessa situação, era perfeitamente possível que tenha ocasionado consequências na sexualidade de Dora, substituindo o ato masturbatório por uma angústia. Um tempo depois, aos 8 anos de idade quando fazia uma excursão pelas montanhas, Dora teve sua primeira crise, possivelmente antecedida de uma angustia por ter revivido essa situação, em se preocupar com o seu pai, se era necessário ele ter se cansado daquela maneira, ou se ela mesmo em suas práticas masturbatórias não se esforçou demais para atingir o prazer, causando assim essa dispneia.

Os sintomas somáticos de Dora nos permitem perceber como estão ligados ao âmbito da oralidade e como estão relacionados à doença do pai.  Freud relatara que ela fora uma chupeteadora (Dora chupou o dedo até a idade de 4 a 5 anos). Devido a essa estimulação demasiada das vias orais, na sua primeira infância, houve uma fixação pulsional sexual na zona erógena da boca, substituindo assim os prazeres sexuais de outras zonas em prol desse gozo oral, recusando-se inconscientemente à organização genital como uma forma histérica de permanecer nessa relação fantasiosa com o seu pai, nitidamente explicada por uma regressão, ou seja, de uma lembrança inconsciente em que ela se sentia segura, acolhida e amada pelo pai.

A histeria não necessariamente vincula-se a um objeto e sim a um modo de gozo na qual ela se satisfaz, no caso de Dora, a um gozo oral que se devaneia caso ela se torne um objeto de desejo de um outro, porque pode dar fim a esse ciclo de gozo que constitui o seu sintoma. Nesta perspectiva, fica evidenciado a repulsa de Dora pelo beijo do Sr. K, porque existe algo indesejado que pode se suceder que rompa com esse seu gozo oral já estabelecido, representado pela sensação do falo ereto do Sr. K. O que explica o porquê de o sintoma somático estar relacionado a essa sensação aversiva.

Freud (1910) compreende que existem três meios para a histérica lidar ou suprimir seu sintoma. Primeiro, o sujeito compreende que o desejo recalcado não foi culpa sua, ele o foi por alguma razão, aceitando assim total ou parcialmente esse desejo. Segundo, sua pulsão original é deslocada para uma outra instância mais elevada, capaz assim de obter satisfação (Sublimação). E terceiro, consiste da repulsa desse desejo – negligenciando-o, é quando o recalque é substituído por uma moral reguladora. O sujeito, então, tem a capacidade de controlar conscientemente o seu desejo.

Uma vez que o conteúdo sexual traumático recalcado retorna à consciência, ou seja, após desfeitas as resistências através do processo analítico, o conflito psíquico se desfaz, e é assim que se dá fim aos sintomas e as angustias da histérica, ou pelo menos respaldo para que ela os compreenda.

 

 


REFERÊNCIAS
FREUD, S. Análise fragmentária de uma histeria (“O caso Dora” (1905 [1901]). Obras Completas. Volume VI. 1° ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.
________. Três Ensaios sobre Sexualidade e outros trabalhos (1901-1905). Obras Completas. Volume VI. 1° ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.
________. Estudos sobre a Histeria (1893-1895). Edição Brasileira das Obras Psicológicas Completas. Volume II, 2016.
________ A relação dos estudos com a psicanálise; Comunicação Preliminar (1893 – 1899). Edição Brasileira das Obras Psicológicas Completas. Volume II, 2016.
________.  Cinco Lições de Psicanálise, Leonardo da Vinci e outros trabalhos (1910). Obras Completas. Volume VI. 1° ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.

[1] O artigo é oriundo dos temas discutidos no curso de Transmissão do Ensino de Freud a Lacan, realizado na Delegação Maranhão EBP. Agradeço a Professora Suely Lima pela orientação na realização deste trabalho.
[2] Acadêmico de Psicologia da Universidade Ceuma. E-mail: victorribeiro579@gmail.com. Aluno do curso Transmissão do Ensino de Freud a Lacan.
[3] Nota acrescentada em 1923, p. 182-183. O tratamento que aqui se expõe foi interrompido em 31 de dezembro de 1899.
[4] […] em lugar das influências acidentais coloquei fatores constitucionais, e a “defesa”, no sentido puramente psicológico, foi substituído pelo “recalcamento sexual orgânico. (Freud, 1905, p. 269)