* Lenita Estrela de Sá

Nasce o poema.
De sete meses?
De sete séculos?

600902_1376801289235430_625034624_nA concepção do processo criador tem variações nas diferentes estéticas literárias. Num século, considera-se um processo metafísico. Noutro, um processo cerebral, cartesiano.  E, noutro ainda, o que é mais raro, podem coexistir as duas compreensões.

Pois, Ferreira Gullar, autor de Nasce o poema (1), cuja leitura fazemos agora, logo de início se declara desprevenido diante da poesia e duvida da existência de alguém que detenha a fórmula de se preparar para o encontro com ela, a fórmula de submetê-la a sistemas prévios e preceitos autoritários. Quem domará o ímpeto do verso que extrapolará os significados conhecidos do real? Como formalizar um instante perceptivo que é sempre inaugural? Assim, como exigência do que de novo experimentará, o poeta declara que desconhece o que vai acontecer.

Há quem pense / que sabe / como deve ser o poema
eu mal sei como gostaria que ele fosse.

Entendendo a literatura como uma revelação das outras dimensões do real, Clarice Lispector dizia que usava a linguagem como instrumento de apreensão do significado mais intenso das coisas e que o seu destino era ir, ao sabor dessa busca, voltar com as mãos vazias, mas trazendo o indizível (2). É que pra sair atrás do novo é indispensável passar, audaciosamente, pela ameaça de perda do que se leva: fica proibido se defender, é preciso buscar, atrever-se, despir-se, abandonar velhas posições, expor-se. O poeta se descobre um ser passível de constantes abalos, assaltos, assombros, em meio a um processo ininterrupto de autoconhecimento e de indagação do universo com seus metafísicos mistérios, fantásticos senões, entregando-se ao inesperado com paixão, num movimento ousado, infinitamente próximo do risco – e do gozo! Porque a poesia, ah!,  essa irrompe donde menos se espera. E precisamente aí, o poético é a negação do limite. O caos? Não, apenas uma outra ordem, profusamente crítica, de indomável fluxo. Roland Barthes (3) explica: “porque ela encena a linguagem, em vez de, simplesmente, utilizá-la, a literatura engrena o saber no rolamento da reflexividade infinita: através da escritura, o saber se constitui, segundo um discurso que não é mais epistemológico, mas dramático”.

Porque eu mudo / o mundo muda / e a poesia irrompe / donde menos se espera / às vezes / cheirando a flor / às vezes / desatada no olor / da fruta podre / que no podre se abisma / (quanto mais perto da noite / mais grita / o aroma) às vezes / num moer de silêncio / num pequeno armarinho do Estácio / de tarde

Tudo ainda não passava de susto e súbita percepção da matéria poética. Dados da vida imediata – como a presença do amigo ansioso e a necessidade de pegar um ônibus – adiam o encontro do poeta com o poema.

talvez não lhe tenha dado tempo / que o Amílcar estava ansioso / e já se aproximava o ônibus Rio Comprido – Leblon.

À espera do ônibus, o poeta é um homem como tantos outros, com as mesmas “pequenas” necessidades. Vítor Manuel de Aguiar e Silva cita T.S. Eliot: “quanto mais perfeito o artista, mais completamente estão separados nele o homem que sofre e o espírito que cria e, de maneira mais perfeita, o espírito digere e transmuta as paixões que são o seu material” (5).

assim me fui / e o poema ficou talvez / inaturo / parte no ar da loja / parte como poeira / em meus cabelos.

Gullar acredita que o nascimento da poesia não se trata de floração metafísica, nem produto de elaboração cartesiana, mas de um processo específico, com uma dinâmica particular (“um modo próprio de nascer”).

Mas / mesmo que eu tivesse ficado ali / (isso foi em 1955) / nem assim / o poema teria nascido / senão agora neste / hoje / nesta página / pois / a poesia / tem seu próprio tempo e modo / de nascer:

É que a matéria da poesia são os significados residuais, os sentidos aquém e além da linguagem, naquela dimensão que, para Barthes, deixa de ser apenas epistemológica, passando a ser dramática. Por que o poeta não u no mesmo instante o que sentira? O que lhe faltava para escrever o poema se tinha o domínio da linguagem? Talvez se tratasse de uma experiência emocional que ultrapassava a linguagem ou não a alcançava. A razão do poeta estava impotente (ou transbordantemente encantada) para comunicar a outro / leitor o que ele só experimentava pela sensação.

eu de qualquer maneira / teria que ir embora / e nunca mais voltar / à loja do Kalil / para que o poema nascesse / um dia

Qualquer dia, quem sabe, traria aquele acontecimento sensorial à tona da linguagem. O melhor mesmo seria seguir.

Teria / que viver tardes e noites / de exílio em Santiago / do Chile em Moscou

Contra a figura do poeta possesso, eleito de uma “divindade olímpica”, raptado pela inspiração, considere-se que Gullar, até aqui, ainda não conseguiu encontrar-se com a grafia do poema que apenas pressentira no armarinho do Largo do Estácio. Seria, por isso, menos poeta? Ou estaria simplesmente respeitando as limitações do homem e as suas várias outras possibilidades de estar no mundo, a não ser exclusivamente pela poesia? Tcheliábinsk surgirá, então, como metáfora de socialismo, de luta, de interferência imediata na História, e também de distanciamento daquela experiência emocional vivida anos atrás na loja do Kalil. Que se distanciasse, para escrever; embora o poeta pudesse, a qualquer instante, encontrar-se com qualquer outro poema.

me deixar levar / para mais e mais longe / para além dos Urais / além de Tcheliábinsk / com seus campos de trigo / verde e a moça / de olhos verdes e a poça / de lodo verde e a praça / de erva verde / erva / verde / longe / cada vez mais longe / da loja do Estácio, do barulho / dos ônibus do Estácio.

Mas por que mistério Gullar não escrevia logo esse poema? Como explicar tão longo tempo de elaboração? Desde que se discute a dinâmica da criação poética, há que se registrar a concepção que considera a possessão e a concepção que considera a técnica na gênese da elaboração poética: poeta possesso versus poeta artífice.

porque o poema / ninguém sabe como nasce como / a vida o engendra / que pétala / entra / em sua composição / que voz / que latido de cão, ninguém sabe /

barulho de avião / por cima da casa / entra no poema? Um bater de asa? boceta billha mocotó inbasa entram no poema?

O poeta mesmo responde que, no poema, a priori, tudo cabe, não havendo preferência por situações ou palavras: o espaço da reelaboração e da transmutação da experiência, como apontava Eliot. Um espaço em que a experiência está se formulando numa constante tensão dialética, como crê Gullar (4).

entram / e não entram / que tudo o poema aceita / e rejeita / só não se  sabe como / nem quando nem qual é a receita

O poeta se resigna com a impossibilidade momentânea, por intuir que, algum dia, explodirá o eco daquela vivência acomodada em algum lugar dele mesmo, ainda distante da consciência, ainda indecifrável, ainda averbal, ainda inarticulável.

até  que ele explodisse / (a estrofe) / sob meu paletó / feito um pombo / ou / de nada adiantaria / pois um poema / não nasce antes da hora (de sete meses / de sete séculos).

E depois, para que forçar o curso do tempo, se o tempo emocional escapa ao ritmo lerdo dos ponteiros? Um tempo interior, sem contornos, vibração no corpo, pulsação na consciência. Imensurável, suspenso, descontínuo, pura significação: o gosto da experiência vivida. O poema atualiza a faina da linguagem com esse tempo pessoal e tudo o que nele se guarda. Trinta e dois anos contados pelo calendário podem não dizer do sentido que, às vezes, numa única tarde se revela ou envelhece.

A menos que ficasse lá / (na loja) / de pé durante trinta e dois anos / (já que estávamos / em 1955) / ou que / todo esse tempo durasse / aquela tarde (de abril / a abril) / e como uma nave / (ou ave) / pousasse agora / na cidade

O tratamento do tempo, aqui, aponta para o aspecto cognoscitivo da poesia (de toda a literatura), como meio de introspecção, de perquirição da emoção humana, ao privilegiar o tempo psicológico que, segundo Massaud Moisés, é “o tempo fora da nossa consciência, completamente fora da nossa memória, completamente fora de qualquer medida” (7).

e ainda assim / não nasceria / porque o tempo não é o mesmo / se dentro ou fora / do armarinho / se pura ideia ou sujo / da matéria dos dias

Poético é o relampejar de um gosto, de uma sensação, de um arrepio. Poético é compreender (possuir) um significado intraduzível e emocionar-se. Teria sido o que ocorreu a Gullar naquela tarde de 1955 e que, até hoje, o poeta não consegue nomear?

Para Maria José Queiroz, o grande paradoxo da imaginação criativa é o de apreender o inefável: “cabe portanto ao poeta traduzir em realidade expressiva a realidade silenciosa do mundo sensível” (8).

Em Nasce o poema, Ferreira Gullar nos faz tocar o inefável.

como medir / o cheiro / da tangerina / que é / clarão / na boca e sonho / na floresta? Como?

Não, não havia por que / deixar de tomar o ônibus Rio Comprido – Leblon / naquele fim de tarde.

* Lenita Estrela de Sá é escritora, tendo livros publicados nos gêneros poesia, teatro e conto.

  1. Ferreira. Barulhos. Rio de Janeiro, José Olímpio Editora, 1987.93p.
  2. WALDEMAN, Benta. Clarice Lispector. Coleção Encanto Radical. S. Paulo. Ed. Brasiliense, 1983. 107p.
  3. BARTHES, Roland. Aula. São Paulo, Ed. Cutrix, 1978.89p.
  4. SÁ, Lenita Estrela de. Contra a solidão, contra a morte, pelo prazer se manifesta o poeta. O Estado do Maranhão, São Luís, 08 nov. 1986. Caderno Alternativo.
  5. SILVA, Vitor Manuel de Aguiar e. Teoria da Literatura. 3ª Ed Coimbra, Livraria Almedina, 1979. 711p.
  6. LUKÁCS, George. Marx e Engels como historiadores da literatura. PORTO, Editora Nova Crítica, 1979. 162p.
  7. MOISÉS, Massaud. A criação literária – prosa. 9ª edição. São Paulo, edições Melhoramentos, 1979.368p.
  8. LISBOA, Henrique. Miradouro e outros poemas. Prefácio de Maria José de Queiroz. 2ª ed. Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, 1976.163p.