schreberDe início, é importante salientar que se trata de uma obra muito especial, tanto pela sua autoria, já que é produto de um trabalho de um doente que se dedica a revelar todas as suas “experiências místicas”, quanto pelo material indispensável que se tornou para os estudiosos da psiquiatria e da psicanálise, principalmente a partir do momento em que Freud conhece a obra no ano de 1911, 8 anos após a sua publicação. A obra de Schreber é considerada um marco epistemológico para os estudos sobre a psicose, que segundo Lacan é um dos melhores textos de iniciação à fenomenologia das psicoses.

A ambição de Schreber ao publicar “As memórias de um homem doente dos nervos” (1903), vem do seu convencimento de que sua obra seria umas das “obras mais interessantes que já foram escritas desde que o mundo existiu”. Embora seja possível perceber com esta pretensão o seu sintoma psicótico, não podemos deixar de considerar que mesmo sendo uma escrita imersa em um fenômeno delirante, Schreber revela em sua autobiografia uma narrativa inteligível sobre as experiências corporais, (imaginárias) no desencadeamento delirante pelo qual vivenciou no período da sua segunda crise, que durou por volta de quase nove anos de internação.

A riqueza da construção do delírio de Schreber, a partir da explicação de uma série de esquemas, vai coincidir com os esquemas explicativos de Freud sobre a teoria da libido, pois o próprio Freud chegou a admitir que nunca havia visto nada que se parecesse tanto com sua teoria da libido. A aproximação de Freud com a obra de Schreber foi um marco fundamental para os estudos da psicose, chegando a ser considerada a “Bíblia da Teoria Psicanalítica das Psicoses” (ALVARENGA, 1991).

Para Lacan este foi um encontro excepcional entre o gênio de Freud e um livro único. Pois foi em razão deste encontro que a psicanálise passou a investir em estudos cada vez mais aprofundados sobre o caso Schreber, não se limitando a apenas repetir as conceituações freudianas sobre a psicose, mas promovendo novas teorizações, como é o caso do seminário 3, (1955-1956), dedicado por Lacan quando trata dos fenômenos elementares a partir da noção de estrutura.

Schreber está entre os casos clássicos de Freud, como os casos Dora, O pequeno Hans, o Homem dos Ratos e o Homem dos Lobos. Mesmo sendo o único caso que não foi analisado pessoalmente, mas somente através da obra, adquiriu um valor especial para a teoria Freudiana. Segundo Lacan (1988), Freud analisou Schreber através de um discurso impresso, o que podemos dizer que foi através de uma ordem simbólica, que fez com Freud extraísse o material deste discurso. Sendo assim, Lacan, questiona: qual é o material deste discurso? De que são tirados os elementos de nomeação deste discurso? Lacan responde: “de maneira geral, o material é o corpo próprio” (LACAN, 1988, p. 20).

Freud demonstra um interesse especial pela história clínica impressa de Schreber devido a sua dificuldade clínica com o tratamento com pacientes que sofriam de paranoia. Como ele mesmo admite, “o diagnóstico desta enfermidade não é algo simples e muitas vezes não é passível de tratamento analítico por tempo demorado”, demonstrando assim, ainda sua dificuldade de manejo clínico com pacientes paranoicos.

Já no início da sua obra “Notas Psicanalíticas Sobre Um Relato Autobiográfico De Um Caso De Paranoia” (1911), Freud admite uma diferença fundamental entre o discurso do paranoico e do neurótico, pois aquilo que o neurótico esconde, o paranoico revela sob uma forma deformada (FREUD, 1911).

A revelação da qual Freud menciona nada mais é do que a construção do delírio paranoico. Freud mesmo antes da teoria da libido e dos “Três Ensaios sobre a Sexualidade” defendia a ideia de que a paranoia era uma psiconeurose de defesa, resultante de um tipo especial de recalque, ou seja, um recalque parcialmente bem sucedido, que produziria uma projeção, em que a representação do conteúdo de um desejo recalcado, tornar-se consciente sob a forma de uma percepção exterior (ALVARENGA, 1991, p. 22).

Este mecanismo provoca uma modificação no afeto que é retido, que agora reaparece de forma invertida no mundo exterior. O que seria prazer torna-se desprazer por meio do delírio. Em Lacan esta compreensão vem da seguinte forma: “tudo que é recusado na ordem simbólica, no sentido da vewerfung reaparece no real” (LACAN, 1988).

Aos poucos a teorização de Freud foi tomando nova forma quando passou a associar a teoria da defesa à teoria da libido, pois, o autoerotismo é resultante do insucesso da defesa, onde os delírios são a tentativa da libido encontrar seu objeto. Isto significa dizer que a libido investida no objeto tornou-se autoerótica, por conta do recalque que corresponde ao fracasso do teste de realidade.

Em se tratando da obra de Schreber, Freud demonstra que há duas formas de chegar a uma “compreensão” deste caso. A primeira alternativa seria a partir das próprias declarações do paciente e a segunda seria pela busca das causas ativadoras do desencadeamento da doença (FREUD, 1911-1913/1969). Decide então ir pela via do discurso, ou seja, pelas declarações do paciente, embora escritas, na busca de uma interpretação, sem deixar de recorrer às técnicas analíticas que habitualmente utilizava que era “despir a frase de sua forma negativa” (FREUD, 1911).

Partindo deste material Freud toma dois pontos como fundamentais a respeito da paranoia em Schreber: a centralidade do delírio em Flechsig (Deus) e o desejo de tornar-se mulher. A relação entre dois acontecimentos que tivera antes de sua segunda crise, em 1895, que seria:

1-o sonho que teria tido de que sua doença estaria voltando;

2- e em uma manhã seguinte, com a sensação de estar quase dormindo ter obtido a ideia de que deveria ser bom ser uma mulher quando submetida ao coito.

Estes dois acontecimentos revela a causa desencadeante da doença que segundo Freud seria uma libido homossexual destinada ao seu psiquiatra, Fleschsig, e a defesa contra esta pulsão. O sonho de que a doença estaria voltando poderia revelar o desejo inconsciente de Schreber em rever o seu psiquiatra e o fato de ter chegado a ideia de que é bom ser mulher, revela uma fantasia feminina que segundo Freud seria o endereçamento de um amor homossexual ao seu médico.

Mas como já foi dito, o delírio paranoico é resultado da defesa de uma representação de um desejo, neste caso de um desejo homossexual, que ressurge de forma invertida na realidade exterior em forma de percepção.

O delírio paranoico de Schreber inicialmente revela um sentimento de perseguição em que o psiquiatra Flechsig será o grande perseguidor. Sobre isto, Freud demonstra que o perseguidor, na paranoia, pode ser aquele que antes da doença poderia ter tido uma importância sentimental muito grande para o paciente. No caso de Schreber a manutenção da presença de Flechsig em seu delírio até sua última fase da doença demonstra o amor que teria pelo seu psiquiatra, ao ponto de dedicar uma carta aberta ao Fleschsig, em sua obra, para que o psiquiatra admita uma influência sobrenatural de seus nervos sobre a alma de Schreber.

Lacan neste ponto demonstra que a forma como o delírio é constituído ao ponto de estabelecer uma relação de aproximação e dependência entre um sujeito com outro, neste caso de Schreber, a junção dos nervos com os nervos de Flechsig, demonstra que o “sujeito toma partido de diversas maneiras na construção do delírio” (LACAN, 1988, p. 37).

Os delírios de Schreber em relação à Flechsig sempre eram de que este desejaria matar sua alma, ou que queria possuí-lo à força, voluptuosamente, ou que Fleschsig tinha Deus como aliado para zombá-lo. Aos poucos os delírios persecutórios foram diminuindo e tomando novas formas, passando assim por um processo de conciliação em que a figura de Deus passa a assumir um lugar especial. Schreber em seu delírio encontra uma solução, pois está predestinado por Deus a ser emasculado e transformar seus órgãos sexuais em órgãos femininos. A fantasia sexual feminina é solucionada no delírio com a figura de Deus.

Neste caso Freud demonstra que o desenvolvimento progressivo do delírio de Schreber pôde revelar uma fixação infantil que é o desejo sexual pelo seu pai, apoiando-se em relatos de que Schreber teria sido uma criança passiva e submissa ao pai, relativa a uma posição feminina. A solução do delírio com Deus pode revelar a fantasia de ser a mulher do pai, com o delírio da emasculação e da volúpia que teria com Deus através dos raios divinos. Assim como Deus está para o pai de Schreber, Fleschig pode está relacionado ao desejo que Schreber teria pelo irmão mais velho, através de um processo de transferência. Sendo assim, o complexo paterno, para Freud, é revelado como uma fantasia de desejo homossexual em torno do qual a doença se desencadeou.

É assim que Freud vai demonstrar a função do Édipo, onde o pai vai assumir a função de castração e de impedimento de satisfação da criança. A ameaça da castração para Schreber teria dado o conteúdo do fantasma do seu desejo em transformar-se mulher (ALVARENGA, 1991, p. 29).

Tomando como referência o caso de Schreber e outras experiências clínicas, Freud parte da hipótese de uma relação existente entre o desejo homossexual e a paranoia, fazendo-o elaborar uma gramática do desejo homossexual como um conflito paranoico. (ALVARENGA, 1991).

Partindo da premissa “eu o amo” (eu amo um homem)

1-delírio da perseguição- eu não o amo, eu o odeio porque ele me persegue (O perseguidor é o homem amado).

2-a erotomania- não é ele que eu amo, é ela que eu amo, porque ela me ama. Neste caso a percepção vem do mundo exterior.

3-Delírio do ciúme- sei que eu não amo o homem, é ela que ama. (o sujeito suspeita que a mulher ama todos os homens que ele próprio se sente tentado a amar)

4- Há ainda uma maneira mais geral de defesa que é: eu não amo ninguém, só a mim mesmo.

Lacan, no seminário “As psicoses”, retoma as explicações do caso de Schreber a partir da ênfase dada à relação entre a pulsão inconsciente e a homossexualidade na paranoia. Embora considere uma contribuição grandiosa, acredita que a compreensão de como se dá a homossexualidade, como ela determina a psicose e em que ponto da economia do sujeito ela intervém são questões ainda não muito claramente respondidas.

Fala-se de uma defesa contra uma irrupção suposta, mas Lacan questiona: qual a razão da irrupção em determinado momento? De uma tendência homossexual? Lacan fala de uma ambiguidade constante associada a uma causa, que segundo ele não pode ser vista como unívoca, posto que a mesma causa que pode ajudar na manutenção do equilíbrio pode ser a causa da doença.

Analisando os momentos de desencadeamento da doença de Schreber, Lacan demonstra que as explicações dadas girariam em torno de que Schreber ocupa sempre um lugar de não suportar sustentar a função paterna, daí a razão de não ter tido filhos. A outra estaria relacionada ao sucesso prematuro da carreira que segundo ele, negligencia-se que nestas causas têm-se aí um mesmo sentido positivo.

Lacan diz que a noção de conflito é sempre empregada de forma ambígua, coloca-se no mesmo plano o que é fonte de conflito e ausência de conflito. Como de fato se dá o conflito em Schreber? Considerando o momento em que teria tido um sonho que o fez dizer “Como seria uma coisa bela ser uma mulher copulada” e a encenação gradativa de seu delírio em tornar-se mulher de Deus, vemos aí muito mais uma ausência de conflito e uma realização. É daí que nos damos conta da vewerfung na psicose. O conflito deixa um lugar vazio, e é no lugar vazio do conflito que aparece uma reação, uma construção, uma encenação. É do lugar vazio do conflito que temos o mecanismo da foraclusão e não do recalque.

A partir disto, Lacan pretende então esclarecer o risco que se corre com a significação do delírio e a ambiguidade do dizer psicótico. Lacan demonstra que o delírio é uma linguagem de saber particular, além de ser uma linguagem extraordinária do delirante em que algumas palavras ganham um destaque especial para o doente, onde alguns significantes ganham um peso particular.

Para compreender a língua da qual o psicótico fala, Lacan acha necessário recorrer às categorias linguísticas do significante e do significado: o significante como sentido material da linguagem e a significação como sendo uma significação que remete sempre a outra significação. Mas na psicose é aí que podemos cair na armadilha, acreditar que há significação onde não há.

Os neologismos vêm como uma forma de discordância da linguagem comum, como forma de não submissão ao discurso do Outro. São palavras-chave, palavras originais, palavras plenas, como é o caso da palavra Nevernahang (junção de nervos) que adquiria para Schreber um valor especial.

No nível do significante estas palavras são os neologismos, no nível da significação estas palavras se remetem a elas próprias, que permanecem irredutíveis, não dialetizáveis. Antes de serem remetidas a uma significação elas remetem a si mesmas, adquirindo um peso especial para o doente. Há dois tipos de fenômenos onde se projeta o neologismo: a intuição e a fórmula. A intuição delirante é um fenômeno pleno que tem para o sujeito um caráter submergente, inundante, enquanto que a fórmula é quando a significação não remete a mais nada. É a fórmula que se repete. O refrão. (LACAN, 1988).

O estudo sobre a estrutura do delírio passa a ser considerado como um elemento fundamental na diferenciação entre a neurose e a psicose. Lacan (1988), ainda no Seminário 3 (1955-1956) vai partir do conceito de fenômenos elementares, para falar da psicose. Um termo que tomou de empréstimo de Clerambult para demonstrar que não há nada mais elementar do que aquilo que está por traz do fenômeno que é sua estrutura.

Para Lacan o fenômeno elementar não deve ser entendido como um núcleo inicial que se exprime no interior da personalidade, com o sentido de uma explicação, mas deve ser entendido como uma estrutura. O modo de estruturação do fenômeno elementar é resultante da não simbolização do nome do pai, provocando o retorno do recalcado. Sendo assim, o delírio não está na ordem da compreensão, mas na ordem da interpretação.

Apesar de ser um fato de linguagem, embora complexo, não gera nenhuma compreensão, pois não há nenhum processo dialético, não suscita resposta, está na ordem da certeza. A paranoia por ser uma loucura razoável as vezes parece suscitar um nível de compreensão, mas que não passa de uma armadilha. Seguindo o pensamento de Blodel, Lacan afirma que algo que é próprio das psicopatologias é enganar a compreensão, que é fazer acreditar que há uma compreensão, onde não há.

A partir do caso de Schreber, Miller (1997) em “Lacan Elucidado” utilizou três formas de identificar os fenômenos elementares:

1- O automatismo mental, com alucinações verbais e sensoriais, em que a voz de um grande Outro aparece de forma imperativa e com o poder de controlar o pensamento do paciente.

2- O automatismo corporal revelando uma estranheza com o próprio corpo, sensação de decomposição, de que as partes do corpo não lhe pertencem, ou pela distorção temporal. Isto revela a relação que o psicótico tem com sua imagem a partir do estádio do espelho, em que o sujeito psicótico não imagina seu corpo como unidade imaginária. Isto é resultante da falta de significação do nome do pai, como significante mestre para promover a entrada do sujeito no registro do simbólico. É daí que Lacan vai desenvolver o conceito de foraclusão.

3- Os fenômenos concernentes ao sentido e a verdade é quando o paciente diz ter a capacidade de ler no mundo signos que lhe estão destinados. A certeza absoluta é um indicativo de tal fenômeno, o sujeito não faz questão. Isto demonstra que o pai, na psicose, como significação de entrada na lei do grande Outro não é simbolizado.

Considerando que estamos inseridos em uma cultura que não é mais orientada pela função paterna e sim pelas novas versões de pai, a fenomenologia das psicoses não é mais a mesma. Como pensar em uma psicose em que não há fenômenos elementares? É necessário prescindir da clínica diferencial já que não há o desencadeamento e nem fenômenos elementares em algumas psicoses, diferente da forma como era constituída a estrutura clássica da psicose? Este é um desafio muito instigante para a clínica psicanalítica diante da psicose ordinária.

No século XXI fala-se na clínica do real, onde a clínica do simbólico, pai orientada não é mais suficiente para os impasses que surgem nos consultórios, atualmente. Como pensar sobre o manejo do tratamento da psicose ordinária?

 


 

Joselle Couto e Lima
Joselle.ufmanead@gmail.com

REFERÊNCIAS
ALVARENGA, E. [s.d]. O Conceito de Psicose em Freud. Belo Horizonte: Tahl M.G, 1991.
FREUD, S. Observações psicanalíticas sobre um caso de paranoia (dementia paranoides) relatado em autobiografia (O caso Schreber) (1911). In: FREUD, S. Obras completas. Paulo César de Souza (Trad.). São Paulo: Companhia das Letras,2010.
LACAN, J. O Seminário, livro 3: as psicoses (1955-1956). Rio de Janeiro: Jorge Zahar,1988.
MILLER, Jacques–Alain. Lacan elucidado: palestras no Brasil. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997. (Campo Freudiano no Brasil)
SCHREBER, D.S. Memórias de um doente dos nervos (1903). Marilene Carone (Trad.). Rio de Janeiro: Edições Graal, 1984.