Img 3 ITRJoselle Couto e Lima
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O que Lacan quis dizer no início do seu texto “A direção do tratamento e os princípios do seu poder” quando afirma que “ pretendemos mostrar como a impotência em sustentar autenticamente uma práxis reduz-se, como é comum na história dos homens, ao exercício de um poder” (Escritos, p. 592)? A palavra práxis utilizada nesta citação, que na transcrição para o grego significa ação, mas na terminologia marxista obtemos o sentido mais aproximado do qual Lacan pretende utilizar, revela o caráter dialético entre uma teoria e uma prática.

Como se sabe a psicanálise é a clínica de uma prática, mas serve como ponto de partida para as suas teorizações. Neste texto, Lacan revela uma preocupação com as dissidências da teoria freudiana, mais precisamente sobre o problema da transferência, que implicou seriamente numa impostura do analista e num risco de comprometer o que havia de mais fundamental para orientar a clínica da psicanálise. Podemos dizer que Lacan funciona neste momento como um Nome – do –Pai quando se mobiliza para fazer um corte, através desta obra, nos princípios que orientavam a “clínica psicanalítica” da época, mais precisamente aos psicanalistas da IPA. O que parece é que as discussões geradas por Lacan abrangem não apenas questões de ordem epistêmica ou clínica, mas também de ordem política, principalmente quando toma como questão os princípios que orientam o poder do analista, a parcialidade do analista no jogo da transferência e o uso que fez das teorizações de Freud para propor releituras que tendiam a “ultrapassar” a doutrina freudiana.

O que Lacan quer dizer com a direção do tratamento? Primeiro de tudo é importante reconhecer que não se trata da direção de uma consciência, mas de fazer com que o sujeito aplique a regra analítica que é reconhecer “a situação analítica”.

O manejo da transferência está alienado ao seu desdobramento para o analista. A situação analítica deve ser entendida como um processo a dois, mas que se desdobra em um jogo de dois pares: o analista e seu lugar de morto, o analisando e seu inconsciente. O problema maior no tocante à transferência é que as revisões feitas por alguns analistas da época sobre a doutrina freudiana tendiam a recusar a verdadeira natureza da transferência, colocando-a sempre no patamar de um equilíbrio emocional. Mas segundo Lacan a transferência é algo que está na rodem do imprevisível. ”Não é possível raciocinar como o analisando leva a pessoa do analista a suportar de suas fantasias como com o que um jogador ideal avalia das intenções do seu adversário” (p.595). O jogo da transferência não deve permanecer no registro imaginário, há uma tática para o analista que o deixa mais livre e que não o faz correr o risco de entrar no jogo com o seu ser, que é o recurso pela via da palavra, ou seja, pelo via do simbólico, pois o analista situa-se melhor em sua falta-a-ser do que em seu ser”.

Mas se não é o ser do analista que entra no jogo, de quem é a fala? Antes desta resposta é importante saber que não se trata de uma explicação, ou de uma resposta à demanda do analisando ou qualquer intervenção verbal que revele um interesse do analista, não se trata de trazer à tona uma verdade pronta para o analisando. Embora muitas saídas que alguns analistas da época encontraram para o problema da transferência, foi promover uma mediação colocando em jogo o seu ser, fazendo na interpretação uma relação com a realidade local do paciente, que sabemos que não é disso que se trata. Neste caso, o poder do analista entra na estratégia, causando o risco de produzir efeitos que estão longe de ser uma situação analítica com princípios freudianos. Para Lacan (1957) “quanto mais o analista estiver interessado em seu ser, menos seguro será em sua ação.”

A interpretação teria que ser considerada como aquilo que se encontra situado na cadeia significante, considerando que o inconsciente tem a estrutura de linguagem, onde a escuta analítica é guiada pelo circuito pulsional do paciente, em que o sintoma aparece como um enigma para a interpretação.

Em se tratando das parcialidades das teorias que são elaboradas por psicanalistas da época como Daniel Lagache, Anna Freud, Abraham, Ferenezi, Stranchey e Ballint, Lacan percebe uma diversidade de abordagens que buscam resolver o problema da transferência onde são desenvolvidas teorizações que vão desde uma perspectiva geneticista, baseada em uma observação direta da criança, em que a transferência encontra-se situada nos mecanismos de defesa, passando por teorizações com tendências finalísticas, onde tem como eixo central a relação objetal, em que a mediação da transferência estaria associada a uma fase pré – genital e genital, em que a primeira fase estaria associada a uma relação autística com o objeto até passar para uma fase de maturação que promoveria uma relação objetal vinculada à vida real. Até chegar a uma terceira tendência de teorias que tendiam a centrar-se na figura do analista, que variavam sua condição de acordo com sua operacionalidade para cada teoria, como é caso de Ferenczi, Stranchey e Balint.

Esta diversidade de teorias é compreendida por Lacan como um embaraço teórico e revela que o que está em jogo são as intenções do autor em sistematizar uma técnica que possa garantir o poder do analista, onde o maior equívoco é situá-lo dentro do campo imaginário, em que seus efeitos não passavam daí. Lacan (p.618) “Não temos outro desígnio senão o de advertir os analistas sobre o deslizamento sofrido por sua técnica, quando se desconhece o verdadeiro lugar em que se produzem seus efeitos”. O lugar desconhecido pelo psicanalista que Lacan se refere está associado à sua falta-a-ser e sua operação no registro do simbólico como a via mais livre onde o analista possa deslizar. A interpretação não deve ser confundida como um mero efeito de sentido, mas como efeito de significantes que opera no sentido de dar um basta na questão imaginária do paciente. Não é como educador ou sacerdote que o analista deve operar; o trabalho analítico não visa uma compreensão, mas um pensamento, “muitas vezes mais vale não compreender para pensar (…)” (LACAN, p. 621)

Os problemas que Lacan encontrou nas teorizações que provocou a difusão de tantas psicanálises selvagens, revelou a fragilidade de muitos psicanalistas da época na compreensão da doutrina freudiana, que sem a distinção dos três registros ocasionou tantos equívocos. “A verdade é que as flagrantes incertezas da leitura dos grandes conceitos freudianos são correlatas às fraquezas que oneram o labor prático” Lacan (p. 618).

Retomando a questão inicial do texto, o que podemos tomar de lição é que a situação analítica prescinde de princípios que garantam uma práxis que não desgaste os fundamentos da psicanálise. Para ser lacaniano é preciso ser freudiano, e é por onde o desejo do analista precisa trilhar para instituir sua ética.

 

Referências Bibliográficas:
LACAN, Jacques. Escritos / Jacques Lacan; tradução Vera Ribeiro. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar, Ed., 1998. (Campo Freudiano)