Img 5 ITRMoacir Col Debella
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Trata-se de duas histórias de vida assemelhadas nas perdas. De um lado a mãe cuja filha predileta morre acidentalmente e, logo após, fica devastada com a perda do amor do objeto amado e, de outro, a esposa cujo marido, sempre saudável, morre de ataque cardíaco. A primeira atravessada pelo luto e pela devastação e a segunda mortificada pela ausência do único homem de sua vida.

No seminário 23 Lacan afirma que “uma mulher é para todo homem um sinthoma, tudo o que agradará…, uma devastação mesmo”, uma dor sem limites e inclassificável. A mulher perde ao perder o amor do homem. A mulher se entrega ao amor, da mesma forma que constrói seu projeto de vida.

Para Freud a diferença entre luto e melancolia está em que no luto há uma reação à perda de um ente querido, enquanto que na melancolia esta perda pode ser de natureza mais ideal e os traços mais distintivos são um desânimo profundamente penoso e a cessação de interesse pelo mundo externo; expressão de auto-recriminação e auto-envilecimento… Isso sugeriria que a “melancolia está de alguma forma relacionada a uma perda objetal retirada da consciência, em contraposição ao luto, no qual nada existe de inconsciente a respeito da perda”. (1)

O ponto de equivalência para a interpretação do luto está de que este signifique o objeto a, um modo de gozo masculino, fálico, localizado, associado a zonas erógenas, enquanto que a devastação é o sinthoma, o objeto de gozo, ao qual o significante se articula embora sem limites.

Paciente de 53 anos encontra-se mais devastada pela perda do amor do objeto amado, do que enlutada pela perda da filha – isto lembra Medeia que coloca o amor de um homem acima da maternidade (Lacan. 1966) – “verdadeira mulher” (2) e consome todas as energias em desvelar as inconsistências do objeto amado, para poder degradá-lo, por julgar-se vítima da relação.

Na convivência, após desencontros da rotina de 33 anos, certo dia, ao balizar a forma como se relaciona com as mulheres ele afirmou: “Mulheres eu nunca paguei. Nunca viram a cor do meu dinheiro”. Desconfianças eram frequentes, mas esta frase produziu a certeza da infidelidade. A partir disto caiu por terra toda a fantasia da relação. A perda do lugar de única e a ameaça da perda do amor do objeto amado situa uma devastação que lhe consome as vísceras e destrói todas as idealizações. Ainda assim, 10 anos se passam e nos altos e baixos do relacionamento questiona o seu lugar no desejo do outro e não consegue viver sem ele. O conflito é o sustentáculo da relação. O mal entendido, a impotência do amor produz uma estranha forma de gozo, um não saber o que fazer com a falta que o outro provoca. É falta, mas é completude. É não querer viver com ele e não poder viver sem ele. Esta devastação é o sinthoma, uma forma de gozo, à qual o significante se articula sem limites e que, portanto, é inominável e se repete e retorna ao mesmo lugar. A demanda de amor é infinita e o que importa é ser amada mesmo que seja como objeto-dejeto. (Lacan) (3).

A viúva, por sua vez, não está conseguindo realizar um trabalho de luto, ou seja, não consegue retirar a libido do objeto amado, o que está impedindo de fazer qualquer outro investimento libidinal. O objeto amado está tão idealizado que não consegue identificar nenhum defeito na pessoa com quem conviveu por 30 anos.

Nessa situação, o luto é patológico. Lacan demonstra que o enlutado encontra-se numa posição problemática com relação ao desejo do Outro, assim, a dificuldade do luto se relaciona à perda da possibilidade de saber que objeto era para o desejo do Outro. Para Lacan, o que está implicado no trabalho de luto é a manutenção dos vínculos por onde o desejo está suspenso.

Por estar em intenso trabalho de luto, pelas evidências muito próximas da melancolia, a viúva tem o sentimento de que o objeto perdido é o que desejava, ou seja, presentifica o objeto faltante, o objeto a, preenchendo sua falta e obturando sua função (4). Continua num extremo de enamoramento, envilecendo a si mesma e percebendo-se como nada em comparação com o todo do objeto amado (e idealizado).

A pessoa enlutada sabe quem perdeu, mas não sabe o que perdeu ao perder o seu amado” (Freud) (5).

Há o reconhecimento do caráter irremediável da perda, mas o fato de continuar a amar o objeto perdido é o que faz a dor paralisar o sujeito em uma representação coagulada. Estamos diante de uma enfermidade do desejo em torno de uma perda narcísica grave. (6)

Que estranha satisfação é sustentada pela manutenção do luto, ou seja, pela recusa inconsciente do caráter irremediável da perda? Que gozo está presente na relação com o falecido, muito além do objeto a?

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
1 – Freud, S. (1917) Luto e Melancolia. Obras completas, ESB, v. XIV. Rio de Janeiro: Imago.
2 – Lacan, J. (1966) Escritos. Zahar, 1998
3 – Lacan, J. (1958) A significação do falo. In: Escritos. Zahar, 1998.
4 – Chemama, R. y Vandermersch B. – In: Diccionario del Psicoanálisis. Amorrortu / Editores. Buenos Aires. 2010.
5 – Freud, S. op.cit.
6 – Nasio, J.D. – O Livro da Dor e do Amor. Zahar. Rio – 1997.