Reprodução fotográfica: Vicente de Melo[3]

Anícia Ewerton[2]

O fragmento do caso que trago para discussão foi retirado dos atendimentos feitos em uma instituição pública de São Luís, a APPAE, no período de abril/2004 a janeiro/2008. Ao iniciar esse trabalho, no setor de psicologia, a orientação ali posta pelo Outro institucional era que os atendimentos fossem feitos em grupo, já que este dispositivo acolhia um maior número de pacientes e atendia à lógica capitalista da instituição e do SUS, que é a lógica do quantitativo, ou seja, quanto mais, melhor. Assim, reuníamos as crianças em grupos e fazíamos um atendimento de 1h para cada grupo, para colocar em prática a orientação recebida. Mas, diante das contingências, do real, temos que reinventar alguns atendimentos, subvertendo, assim, as regras da instituição. Digo diante do real porque nós, praticante da psicanálise e psicóloga, e aquelas crianças, tivemos que lidar com a morte trágica de uma das profissionais. Em um dos grupos em que eu acompanhava, com uma escuta atravessada pela psicanálise, após essa contingência, foi o paciente Cláudio que nos fez romper e subverter com a orientação do Outro institucional. Vejamos o caso.

O Fragmento do Caso 

Dinâmica Familiar

Cláudio era filho único, tinha uma relação fusional com a mãe (Jaqueline), dormia no mesmo quarto da mãe, sendo que o pai dormia em outro cômodo da casa, fato este que aconteceu desde o nascimento do garoto. O pai (Miguel) chegava até as terapeutas pela fala da mãe, uma fala que desqualificava essa figura paterna, assim como também barrava a aproximação da criança com o pai, chegando a vetar alguns passeios dos mesmos. A criança passava horas assistindo televisão, filmes, desenhos e novelas. Não conseguia ser alfabetizado, estudava em uma escola para crianças que requerem cuidados especiais. A mãe vivia exclusivamente para cuidar do filho, não tinha vínculo empregatício, pois deixou de trabalhar depois de um acidente sofrido pela criança aos dois anos de idade: o garoto queimou-se com um ferro de gomar.

A procura de atendimento

Cláudio chegou à sala de ludoterapia da APAE, aos oito anos de idade, trazido pela mãe com a queixa de baixo rendimento escolar, falta de concentração, falta de independência. A inibição intelectual de Cláudio era a principal queixa de Jaqueline, e seu tratamento medicamentoso era feito com Ritalina. Nos atendimentos com a equipe multidisciplinar, psicólogas e praticante de psicanálise, a direção dada era no sentido de deslocar Cláudio de suas repetições, como a brincadeira do esconde-esconde que, repetida insistentemente, ia dominando os demais participantes do grupo. No manejo da dinâmica grupal, íamos fazendo pontuações a cada um na possibilidade que algo novo pudesse surgir, que um desejo tornasse manifesto, saísse da dimensão do escondido. Contudo, Cláudio sempre se posicionava primeiro, isto porque era o que melhor falava naquele grupo que era formado pelas mais diversas estruturas e síndromes, colocando os demais na mera condição de repetir as suas iniciativas. Diante do acidente trágico com uma das psicólogas, em junho/2004, o grupo se manteve alheio ao fato, com exceção de Cláudio que chegava para atendimento sempre perguntando pela colega e ia na direção do armário onde constava uma foto da profissional. Com isso, iniciamos um processo de trabalho do luto com aquelas crianças, que apresentavam debilidades mentais distintas e cada uma ia respondendo com os recursos que lhes eram possíveis, outros pareciam nada querer saber sobre o acontecido:

 O termo “debilidade” sempre esteve associado a quadros de fraqueza do pensamento e de atraso intelectual. As descrições caricaturais de pessoas identificadas como débeis reforçam o elemento deficitário da relação desses sujeitos com a linguagem: 1) comumente, fazem uso limitado do conjunto do léxico; 2) geralmente, recorrem a poucas palavras; 3) às vezes pronunciam uma série de termos de maneiras deformados; e 4) seu discurso é, frequentemente, incompreensível.   (SANTIAGO; MRECH, 2017, p. 190)

No entanto, Cláudio, nesse período em que estávamos trabalhando a elaboração do luto, lidava com sua angústia de forma bem singular, pois quando adentrava a sala de atendimento, além de questionar sobre a ausência da colega, promovia a maior desorganização com os brinquedos e móveis ali existentes, pegando as profissionais de surpresa e sem saber como lidar com esses momentos de desorganização, não só do ambiente físico, mas pela própria desorganização do sujeito que chegava para atendimento.

Nossa leitura feita nesse momento foi de que Cláudio estava fazendo um acting out frente à angústia provocada por essa perda, pois o que ele não estava conseguindo simbolizar, ele atuava.  Lacan nos diz que no acting out o sujeito “se coloca na cena para o Outro”, o colocar em cena em um pedido de ajuda para aquilo que lhe perturba. Miller vai nos dizer que o acting out é o surgimento do objeto a na cena, com seus efeitos de perturbação e de desordem, insituáveis.

Ana Lydia Santiago e Leny Magalhães (2017, p. 193) nos dizem que:

O acting out é um ato, que cometido pelo débil, contrasta com as ações compulsivas e previsíveis deste, surpreendendo quem está ao seu redor. Na clínica da debilidade, o impacto do acting out constitui um meio de o paciente vir a quebrar a consistência do analista.

Com nossas consistências quebradas pelos acting out do Cláudio e fazendo a leitura que esse ato poderia ser o pedido de um atendimento individualizado, dissemos não às orientações do Outro institucional e passamos a atender esse garoto individualmente, em sua singularidade. Reajustamos os horários para que não houvesse grandes “perdas” para a instituição que prezava pela quantidade. Ao iniciarmos o atendimento individual destacamos um significante mestre “Preguiçoso”, significante este que sustentava a posição de Cláudio frente aos estudos, que é uma posição de fracasso escolar. Esse significante Cláudio pega do Outro materno, pois em um dos atendimentos “eventuais” com a mãe, essa faz a seguinte colocação: “não espero nada dele”, dizendo também que o filho é preguiçoso e que não tinha iniciativa para os estudos.

Em supervisão com Vanessa Nahas, em 2007, fui orientada a atendê-lo sozinha. Nesse novo momento dos atendimentos foi dado continuidade ao processo de introduzir o pai nessa relação e alguns efeitos foram surgindo, pois o pai já tinha alguns instantes de convivência com o filho, e já o levava para terapia, para o futebol, etc. Consegui trabalhar com esse garoto mais duas questões: primeiro, rompendo um pouco mais a relação fusional com a mãe e fazendo com que ele tivesse seu próprio quarto, uma vez que já caminhava para a pré-adolescência. Isso foi conseguido depois de ter trabalhado algumas questões com os pais, como o porquê até aquele momento não fora ofertado ao filho seu próprio quarto. Uma outra mudança de posição foi em relação à escola para crianças especiais, já que a mãe tinha por queixa que o filho não conseguia ser alfabetizado devido a certas identificações feitas aos colegas que apresentavam uma debilidade mental mais grave que a dele. O trabalho nesse momento com a mãe foi deslocá-la dessa queixa, a fim de que pudesse mudar de posição e encontrasse uma nova escola para o filho. Os pais, realmente, conseguiram vagas em uma escola normal e providenciaram a transferência do filho, apostando na possibilidade de uma alfabetização para Cláudio. O grande Outro institucional funciona como terceiro nessa relação fusional, nessa dinâmica imaginária (mãe e filho), arriscando uma intermediação simbólica, a fim de que mãe e filho desloquem-se e novas posições subjetivas possam advir.

Isto foi uma análise no contexto clínico stricto sensu? Não, foi um trabalho de escuta, atravessada pela psicanálise, porém, não podemos deixar de reconhecer que este tipo de trabalho nas instituições públicas que atendem, principalmente, uma população que vive à margem da sociedade, segregada, tem seus efeitos pontuais. Neste ponto retomo Laurent (2007, p. 143) quando diz que:

Há que se passar do analista reservado, crítico, a um analista que participa, a um analista sensível as formas de segregação (…) o analista, mais que um lugar vazio, é aquele que ajuda a civilização a respeitar a articulação entre normas e particularidades individuais.

 

 


REFERÊNCIAS
LACAN, J. (1962-1963). O seminário, livro 10: a angústia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.
MILLER, Jacques-Alain. Jacques Lacan: observações sobre seu conceito de passagem ao ato. Opção Lacaniana online, ano 5, n.13, 2014.
LAURENT, Éric. O analista cidadão. In: A sociedade do sintoma a psicanálise, hoje. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2007.
SANTIAGO, Ana Lydia; MRECH, Leny Magalhães. Semiologia da Inteligência e da atenção: do retardo funcional à função lógica da debilidade mental. In: TEIXEIRA, A ; CALDAS, H (orgs). Psicopatologia Lacaniana. Belo Horizonte: Autêntica, 2017. p. 187-200.

 [1]Trabalho apresentado no Seminário Psicopatologia Lacaniana/junho de 2018.
[2] Participante da Delegação Geral Maranhão/EBP.E-mail:  aniciaewerton@superig.com.br
[3] VINTE e Um Veleiros. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra25217/vinte-e-um-veleiros>. Acesso em: 29 de Ago. 2018.