Anícia Ewerton

Participante da Delegação Geral – MA

aniciaewerton@superig.com.br

A castraçãoA Palavra castração vem do latim castratio e tem como significado “ato ou efeito de castrar, de remover ou inutilizar os órgãos reprodutores do animal”. Freud na construção dos conceitos que vão sustentar toda sua teoria psicanalítica, recorre à palavra castração para pensar os temores e ameaças sofridas pelas crianças de seu tempo e suas possíveis conseqüências. Como sabemos Sigmund Freud vive em uma época em que o moralismo foi extremamente forte, ficando esse período conhecido como a era vitoriana. Assim sendo, ao articular o conceito de castração, Freud o fez, pela primeira vez em 1908, ao elaborar o texto sobre a “Teoria sexual infantil”, e neste momento o faz sob a perspectiva de uma ameaça, de um dito, que vinha de fora e a criança acreditava nele. Porém, ao longo do tempo esse conceito, também, foi pensado por outros vieses, e estes novos vieses encontraremos em Jacques Lacan, que articula o conceito de castração levando em consideração os três registros, Real, Simbólico e Imaginário – RSI.

A perspectiva Freudiana da castração foi um conceito elaborado a partir da clínica, assim como os demais conceitos que fazem parte da teoria psicanalítica. O conceito de castração articulado como ameaça, levou Freud a dizer que essa ameaça seria a condição para que o menino saísse do complexo de Édipo e a condição para a menina entrar no complexo de Édipo. Freud ao analisar dois casos de fobia, o pequeno Hans e o homem dos lobos, nos apresenta duas situações de castração por temor ao pai, pois as fobias de cavalo e de lobo eram uma substituição ao medo que tinham de serem castrados pelos respectivos pais.   E assim nos diz Freud no texto “Inibição, Sintoma e Angústia” pág 110:

“Aqui, então, está o nosso inesperado achado: em ambos os pacientes a força motriz da repressão¹ era o medo da castração. As idéias contidas na ansiedade deles — a de ser mordido por um cavalo e a de ser devorado por um lobo — eram substitutos, por distorção, da idéia de serem castrados pelo pai.”

Todo esse posicionamento da ameaça de castração perpassa, também, pelo campo do imaginário, pois, Freud sustentava a idéia de que era uma imagem, a imagem de quem teve e perdeu, a responsável pela existência do complexo da castração. Nesta perspectiva freudiana a castração remete o sujeito a uma questão narcísica, o menino jamais quer perder o que traz entre as pernas e a menina vai à busca disso que sua mãe não foi capaz de lhe dar. Outra característica deste conceito construído por Freud, é que ela passa pelo outro. Desse modo ela é secundária, como também está diretamente atrelada às questões edípicas.

No entanto, o legado deixado por Freud levou Jacques Lacan, no primeiro momento do seu ensino, a fazer uma releitura dos textos freudianos. Nessa releitura ao conceito de castração, Lacan dedica um capítulo no seminário IV, “A Relação de objetos” (1956-1957), tomando como base o caso clínico de Freud, “O pequeno Hans”. Neste caso clínico é observado que o pai de Hans é uma pessoa extremamente moderna, não fazia nenhum terror bíblico, tão comum nesse período, o que levou este paciente a colocar o cavalo nesse lugar não ocupado pelo pai, isto é, o lugar da maldade, do castigo, da castração. Nesse instante, Lacan diz que a castração incide sobre um objeto imaginário, deixando de lado o pênis real e coloca em jogo o  falo, o falo como significante. Assim sendo, a castração ocorre sobre um objeto imaginário significantizado, e como significante abre-se para a possibilidade de uma inscrição na cadeia simbólica.

Porém, segundo Jacques-Alain Miller no curso de Orientação Lacaniana III,  na aula nº V, de 02/03/2011, Lacan no texto “Função e campo da fala e da linguagem”, de 1953, elaborado antes da formalização do seu ensino, já pensava a castração a partir do simbólico, só que numa perspectiva de que “a palavra é o assassinato da coisa”, levando Miller a dizer, nessa aula, que “a linguagem como tal é a castração”.

Dando continuidade ao seu ensino, Lacan, no seminário X (1962-1963), atribui à castração um estatuto vinculado ao Real. Neste momento Lacan passa a analisar a angústia de castração para além do eu proibido, da ameaça, tendo esta um ponto de apelo a um gozo que ultrapassa nossos limites, uma vez que o Outro convocado aqui está no registro do real. Lacan tece esses comentários no Capitulo XIX, depois de toda uma articulação sobre o gozo do homem e da mulher, afirmando que este gozo não se conjuga organicamente. Essas colocações de Lacan já nos direcionam para uma outra formulação, feita no seminário XIX (1971-1972).

Juan Carlos Indart, na aula 43, datada de 17/08/012, na qual faz comentários sobre este Seminário, nos lembra que Lacan ao partir de uma leitura a respeito das fórmulas da sexuação, nos remete para a questão do existencial, a fim de que possamos ter uma melhor compreensão do que estava se propondo a trabalhar naquele momento. Nessa aula vamos encontrar o seguinte argumento de Indart: “a leitura das fórmulas da sexuação difundida dava para entender que a função fálica era por si vinculada a um gozo ilimitado e dizer não a função fálica, negá-la, era um limite, uma castração”. Diz-nos, ainda, que esta leitura dada às fórmulas da sexuação tem toda uma inspiração na teoria dos discursos, principalmente no discurso do mestre.

Lacan no Seminário XIX ratifica sua articulação feita no Seminário X dizendo que “a castração de modo algum pode reduzir-se à anedota, ao acidente, à intervenção desejada de um dito de ameaça, ou mesmo de censura. A estrutura é lógica”. E para esclarecer essa afirmação de que “A estrutura é lógica”, Lacan acrescenta uma definição para o objeto da lógica, dizendo que este se produz por uma necessidade de um discurso. Um ponto que chama a atenção nessa construção de Lacan é que esta é feita tomando por base a fórmula da sexuação, colocando para nós, também, que a função fálica é castração.

Portanto, a partir de toda a discussão, contemporânea, de que a ordem simbólica no século XXI apresenta certa fragilidade, onde a lei declina a cada instante, não dando mais sustentação ao moralismo tão dominante na era vitoriana, ainda podemos sustentar o conceito da castração levando-se em consideração todo o argumento edípico? Ou o último ensino de Lacan nos aproxima mais da problemática dessa fragilidade da ordem simbólica do século XXI?

Bibliografia:

  1. Freud, S. Inibição, Sintoma e Angústia, 1926, vol. XX
  2. Miller, Jacques-Alain; Curso de Orientação Lacaniana III, na aula nº V, de 02/03/2011;
  3. Miller, Jacques-Alain. Lacan Elucidado, palestras no Brasil. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 1997
  4. Lacan, J. Seminário IV, “A Relação de objetos” (1956-1957); Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.
  5. Lacan, J. Seminário X, A angústia Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.
  6. Lacan, J. Seminário IX, (1971-1972) ou pior. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 2012
  7. Indart, Juan Carlos, na aula 43, datada de 17/08/012